Um crítico literário dizia que a literatura é uma beleza, mas a vida literária uma merda. Não sei se ele empregou o último termo, mas o sentido seria o mesmo. Isso vem a propósito da recente polêmica envolvendo os livros Leite derramado, de Chico Buarque e Se eu fechar os olhos agora, de Ednei Silvestre. A polêmica se deveu ao fato de o último romance ter obtido o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2009, mas não ter levado o prêmio de melhor livro de ficção do ano. Tal prêmio coube ao primeiro romance, apesar de ter ficado em 2º lugar como melhor romance de 2009. O que pode parecer uma contradição se explica facilmente. É que na escolha de melhor romance o júri é composto apenas de críticos literários, ao passo que na escolha do melhor livro de ficção o júri é ampliado, integrado por editores, livreiros, agentes, distribuidores, etc. Se os critérios não são justos, que se mude o regulamento. O dono da Record achou-se no direito de espernear, conquanto saiba que as regras são essas desde que o prêmio foi instituído. Por outro lado, o dono da Companhia das Letras, em lugar de simplesmente responder com as diferenças de composição dos respectivos júris, foi buscar argumentos impertinentes, mencionando que a contestação reproduzia o baixo nível da história política recente, etc. Seria mais proveitoso para os leitores que a discussão se resumisse aos romances em si. Não que faça pouco do valor dos prêmios. Eles constituem o sistema literário, são um estímulo aos escritores, funcionam como uma espécie de bússola para os leitores, movimentam o mercado de livros, etc. Mas quando argumentos tão toscos são esgrimidos, é de se lamentar.(texto enviado por Benito Petraglia, em 11/03/2011)