O moleque Ricardo

dezembro 19, 2014

CONTO: “O moleque Ricardo” (*)

Carlos Benites

O menino Ricardo estava feliz. Enfim viveria definitivamente com o pai. Com 14 anos, quase não tinha lembranças físicas de seu pai, o grande escritor Graciliano Ramos. Custou a entender a razão de que só ele ficara em Alagoas, criado pelo avô Américo e sua tia, desde os sete anos de idade, enquanto suas irmãs tinham viajado com a mãe para se encontrarem com o pai. Trazia na memória as férias que passara aos 10 anos no Rio de Janeiro e levou orgulhoso seu boletim para mostrar a seu pai, mas este disse apenas um lacônico “Está bom”. Agora, aos 14 anos, seria diferente. Estaria com as irmãs Clarita e Luiza e a mãe Heloisa. Já não teria que se agarrar às cartas para ter contato com pai e mãe.  Mesmo com a grande distância, nutria um carinho e admiração pelo pai. Até quando os familiares tentavam poupá-lo das notícias cruéis do tempo da prisão de seu pai, ele acompanhava quieto e preocupado cada momento. Desde antes da viagem de sua mãe, ficava sempre com os ouvidos prontos para ouvir as conversas em tom baixo, e lia às escondidas as cartas do pai para sua mãe, tia e o avô. E com isso ia construindo uma imagem paterna em seu imaginário.

A viagem ao Rio foi agradável. Os solavancos da longa viagem em estradas esburacadas foram insuficientes para tirar-lhe o entusiasmo.  Não esperava demonstrações exageradas de carinho por parte de seu pai, e na sua imagem criada, acabou preferindo que fosse assim. Eram nos pequenos gestos que o pai mostrava carinho e cuidado com cada um de seus filhos.  Mais de uma vez viu seu pai, enquanto escrevia, reclamar do barulho das brincadeiras de suas irmãs: “Suas pestes! Excomungadas do diabo!”.  Mas a seguir, lia histórias para elas e brincava carinhosamente com os cabelos das filhas.  Mas não deixava de ameaçar as meninas, que se continuassem com o barulho, ia contar uma história de terror para elas, em que duas meninas eram deixadas num parque abandonado. E soltava uma gargalhada, compartilhada com as filhas. Assim que chegou, Ricardo já pode perceber do interesse do pai pelos seus estudos. Quando ouviu de Ricardo que queria também escrever como ele, o pai ficou quieto.  O olhar de Graciliano depois de ouvir o desejo do filho em se tornar escritor e o fato de não ter dado um sermão o criticando, foi interpretado por Ricardo como uma aprovação.

Aquele dia parecia especial. O pai recebera um convite do jornalista Mario Filho para ir a um jogo de futebol. Ouviu o resmungo do pai ao ler o convite. “Esse jogo é só pontapé”.  Sua mãe não deu força à rebeldia de seu pai. Ricardo pode ouvir sua mãe falar: “Grace, largue de ser rabugento e vai lá. Você não estará sozinho. Zelins estará também.”  Depois de refletir, dando umas baforadas no seu inseparável cigarro, Graciliano decidiu: “Está certo. Eu vou. Mas levo o Ricardo comigo.”  Ao ouvir o pai, Ricardo vibrou. Ficou

quieto e continuou na leitura do livro que recebera de presente, cujo autor era o nome que fora citado por sua mãe, o  Zelins, que tratava-se do escritor José Lins do Rego, o qual Ricardo logo percebeu que  era um grande amigo do pai, mesmo com o tratamento às vezes rude com ele. Numa dessas vezes, Zelins piscou para Ricardo:

– Essa é uma forma diferente de seu pai dizer que gosta de mim.  Eu não te disse antes. Já tinha me simpatizado contigo, menino, e não só porque você é filho de um grande amigo. Tem um motivo a mais: seu nome é o mesmo de um personagem de um de meus livros. Amanhã te presenteio “O moleque Ricardo”.

A mãe começou a arrumar o filho. “Vai com o melhor terno. Você estará diante de muita gente importante, grandes escritores”.  O pai logo deu outro conselho. Que soubesse tirar o de melhor de cada um e jogue fora o que não preste. “Não pense que o fato de sermos escritores nos transforma nas melhores influências”.  Ricardo a tudo ouvia com atenção, contando como um aprendizado cada palavra dita por seu pai. Também não julgue que, como sou comunista, você só deve aprender com comunistas. Pelo contrário, tome muito cuidado com alguns. Nem torça o nariz a todo reacionário – e Ricardo anotou a palavra para depois procurar seu significado. Aliás, hoje nos encontraremos com um bom representante. Fique de olho nele, pois ele escreve muito bem. É um reacionário filho da puta de tão bom.

José Lins apareceu na velha pensão em que a família do menino morava. Cumprimentou dona Heloisa, conferiu a gravata de Ricardo e lá foram ao estádio das Laranjeiras no seu automóvel.  Antes, passaram numa banca de jornal, onde Graciliano comprou o Jornal Diretrizes, onde se lia na capa uma chamada falando da campanha da guerra, dizendo que o conflito estava próximo do fim. Chegando ao estádio, dirigiram-se à Tribuna de Imprensa. Ricardo a tudo observava, com entusiasmo tamanho que fazia seus olhos brilharem. Via as pessoas carregando bandeiras. Sempre ouvia seu pai falar que o football era um esporte que não emplacaria na nossa terra, que nossos jovens eram muito mirrados e que deviam se dedicar à capoeira ou algum esporte de corrida. Ricardo notou que o pai olhava atento em volta das arquibancadas. Viu que as bandeiras da maioria do estádio eram das cores verde, grená e branco, as mesmas da bandeira que tremulava do alto do estádio. As outras eram pretas e brancas. Quem joga hoje, Zelins? José Lins do Rego brincou com Graciliano, falando que ele escamoteava o sentimento pelo esporte.  “Graça, não finja indiferença. Você sabe muito bem que jogam Fluminense e Botafogo”. Graciliano soltou um muxoxo. “Se ao menos o América jogasse, teríamos bandeiras vermelhas”. José Lins e Ricardo sorriram ao perceberem que o pai não só sabia quais times jogavam, como sabia as cores das bandeiras de cada um. Chegaram depois os irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues, que cumprimentaram entusiasticamente José Lins. Mário Filho disse para José Lins:

– Já que nosso Flamengo não está em campo, vamos torcer para quem?

– Qualquer um, Mário. Seremos campeões, pois temos Zizinho. Mas para implicar com seu irmão, vamos torcer para o alvinegro.

Nelson Rodrigues, que a tudo olhava, foi cumprimentar Graciliano, mas parou ao notar a presença de Ricardo. José Lins explicou. É o filho do Graça que morava nas Alagoas. Para que time torce? – perguntou Nelson Rodrigues. Ricardo disse que não tinha time, mas que podia escolher um time naquele jogo. Recebeu de volta o que poderia ser uma ofensa, mas ele anotou num papel como se fosse um ensinamento: “Não importa para quem você escolher hoje. O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”. Graciliano se dirigiu a Nelson Rodrigues:

– Como você está, seu reacionário safado? – e deu uma piscada para Ricardo, que entendeu que ele era o tal que o pai havia falado antes.

Minutos depois, Ricardo ouve um burburinho no estádio, com as pessoas se levantando.  Ricardo percebe que as pessoas olham para uma tribuna próxima. Ricardo então ouve seu pai colocar a mão na boca em forma de concha e soltou um som:

– UUUUUUUUUUUUU! UUUUUUUUUUUUU!

José Lins aconselhou Graciliano:

– Calma, homem. Quer arrumar motivo para te mandarem de volta à prisão?

– Está bom. É que eu não me contive. Maldito caudilho!

Ricardo entendeu que quem chegara era o homem que sempre tinha seu nome citado nas cartas de seus pais: Getúlio Vargas.

Começou o jogo e os adultos distribuíam doces e balas a Ricardo. Estava adorando aquilo. Todos lhe davam atenção, mas ele não deixava de prestar atenção ao jogo. Tudo que lia nos jornais alagoanos parecia que era melhor ainda. Os craques que tinham seus nomes entoados pelos narradores de rádio pareciam mágicos. E o colorido das arquibancadas o deixava ainda mais fascinado. Ricardo também percebeu que não era só ele que fazia anotações num bloquinho.  Todos eles, incluindo seu pai que nunca mostrou interesse pelo esporte, anotavam tudo. Ricardo percebeu que aquilo era uma prática dos escritores. Pensou então que estava no caminho certo. De repente ouviu do pai um comentário solitário: “Parece que esse jogo não é só pontapé na bola. Tem um quê mágico. Havia emoção, uns passos de dança, um tango argentino com um toque do samba brasileiro”.  Propôs então um acordo ao filho: “Você torce para o time do  reaça e eu  para  o  alvinegro.  Se  seu time vencer, te levo para trabalhar comigo e vou te ensinar o meu ofício”.  Mal terminou de falar e Ricardo dizer “Combinado”, o menino volta os olhos para o campo ao ouvir um ruído crescente e perceber várias pessoas se levantando, e então gol do time de branco. E Ricardo comemorou como se já torcesse para o Fluminense desde os tempos em que vivia em Maceió. De soslaio, Ricardo notou que seu pai estava cada vez menos alheio ao jogo. Por um instante achou que viu um brilho juvenil e moveu os braços como se estivesse torcendo quando o alvinegro foi ao ataque.

No intervalo do jogo, Nelson Rodrigues fumava um cigarro. Ricardo aproximou-se dele, tomou coragem e bateu em seu ombro:

– Seu Nelson, por que você e seu irmão torcem para times diferentes?

– Menino, você devia perguntar isso a ele e não a mim. Eu diria que ele passou a torcer pelo Flamengo por conta da eterna briga entre irmãos, um aquerendo ser diferente do outro.  Mas saiba de uma coisa. Outros times se dizem também tricolores, mas tricolor é o Fluminense. O resto são todos times de três cores.

E Ricardo anotou mais uma frase. Continuou a vibrar com cada momento daquele jogo. Qualquer movimento no campo e na arquibancada lhe dava prazer. Porém, mais do que tudo, o que mais gostou, foi quando seu pai fez algo que não costumava fazer desde que chegou ao Rio. Ricardo olhava atentamente o campo, quando sentiu um toque em sua cabeça da mão esquerda de seu pai. Depois, colocou a mão em seu ombro esquerdo, abraçando-o.

– E aí, moleque? Está gostando do jogo, não é?

– Sim, me simpatizei com o time de branco. Acho que vou ser Fluminense.  Semana que vem tem jogo contra o Vasco. Seu Nelson me chamou. Posso ir com ele?

O pai disse que não achava boa idéia. Ricardo já baixava o olhar, quando o pai continuou:

– Deixa que eu te trago.

***

(*) Conto classificado em 2. lugar no VIII Prêmio UFF de Literatura, em 2014.

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Fernando Santa Cruz

outubro 8, 2014

Escrevi uma poesia que não foi selecionada pelo Prêmio UFF de Literatura, que tinha como tema “Aquele jogo”. Nessa poesia eu quis homenagear o Fernando Santa Cruz, que foi um ex-aluno da UFF, que hoje dá nome ao Diretório Central dos Estudantes da universidade. Cheguei a conhecer sua irmã, que era professora do Curso de Nutrição da UFF na década de 80, durante um evento sobre ele. Até então eu não sabia quem tinha sido o Fernando Santa Cruz. Ele foi capturado pelas forças de repressão na década de 70 e depois sumiram com seu corpo, tendo sua família lutado por muitos anos por notícias.

Depois que eu escrevi a poesia, fiquei pensando que talvez ela ficasse incompreendida justamente porque pouca gente o conhece e de repente não entenderia minha intenção ao colocar solto as parciais de seu nome, e nem tampouco o título da mesma. Deixo abaixo dois links para oquem quiser conhecer um pouco mais sobre o Fernando Santa Cruz.  Minha postagem seguida será a poesia.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Santa_Cruz

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-02/livro-e-ato-lembram-os-40-anos-do-desaparecimento-de-fernando-santa

Zé das Penas – Consuelo Ramos Sozzi

agosto 1, 2014

Zé das Penas
Recebi esta semana um livro infanto-juvenil com bastante ansiedade.  Os últimos que eu tive em mãos foram os que eu presenteei meus sobrinhos (adoro dar livro de presente) e os que tenho usado na minha pesquisa do Mestrado sobre a presença da cultura popular na literatura, principalmente o excelente “Histórias de Alexandre” de Graciliano Ramos. O livro que me chegou foi esse que aparece como título dessa postagem: Zé das Penas. Simplesmente adorei. É de se admirar que esse tenha sido o livro  de estreia de Consuelo, pois o que aparece nas letras do livro é uma autora com pleno domínio do ritmo de uma história, com uma fluidez tão natural e agradável que dá a impressão de que ela já escrevia para crianças há décadas.

Para não tirar a graça de quem ainda não leu o livro, mas para dar um pouco de água na boca, a história traz o mote do “quem aumenta um conto aumenta um ponto”, de um matuto que ao perceber que a comida estava faltando em sua casa, decide vender a galinha para poder comprar mantimentos, ou melhor, trocar a galinha pelos mantimentos. E partindo de algo tão simples, como simples é a gente daquele povoado, que seus personagens conseguem transformar em histórias de aventuras fabulosas, como só a sabedoria e cultura popular são capazes.

Sim, eu recomendo. O livro foi publicado pela editora Inverso, de Curitiba. Creio que deve ser mais fácil encomendar por lá. Como foi lançado há pouco, não sei como está a distribuição nas livrarias virtuais.

Alguém está na calçada

dezembro 18, 2013

Alguém está na calçada(*)   –    Autor: Carlos Benites

 

As redes sociais nos últimos anos passaram a representar papel importantíssimo na sociedade. Tivemos uma mobilização intensa da população iraniana que fez das redes sociais uma importante plataforma de crítica ao regime. E aqui no Brasil recentemente tivemos uma explosão jamais vista em que as redes, principalmente o facebook, twitter e o youtube, eclodiram um movimento que nem a mídia televisiva foi capaz de brecá-lo. Nos dois casos, houve uma certa incredulidade. No caso do Irã porque sua população não tinha até aquele momento um perfil que a vinculasse a um instrumento que identifica a modernidade, pelo contrário, todos a ligavam ao conservadorismo, principalmente por seu vínculo religioso em todos os movimentos políticos recentes.  E no caso das manifestações no Brasil, estrangeiros e até brasileiros tentavam entender o que se passara. O que poderíamos afirmar somente é que as redes serviram como motor propulsor para que as duas populações encontrassem dentro delas mesmas uma força que estava presa.

Mas as redes não funcionam hoje somente para a mobilização da sociedade em grandes eventos. Ela tem sido capaz de fazer com que personagens, que passariam anônimos em qualquer situação, se transformem em celebridades instantâneas, ganhando até popularidade mundial. Um dia desses recebi uma foto que me foi compartilhada por uma amiga que estudou comigo no Liceu. Era a imagem de um morador de rua de Porto Alegre deitado e enrolado em um cobertor. E lendo um livro.  Esse fato – ler um livro – detonou uma reação no autor da foto e respectiva postagem, pois só aí ele prestou atenção no citado morador de rua. A partir da postagem da foto, ela transformou-se num viral, que recentemente descobri que é algo que explode de forma inesperada na internet, compartilhado e visualizado por um enorme número de pessoas.  Ou seja, o autor da foto só “encontrou” o rapaz deitado ao relento porque ele lia um livro, e as pessoas que a compartilharam só encontraram os diversos moradores de rua que eram invisíveis aos seus olhos após aquele dia. Caso o mendigo leitor estivesse deitado sem o livro e até sem cobertor, o fotógrafo possivelmente passaria direto e, talvez, se fosse perguntado cinco minutos depois sobre o que tinha visto, ele nem lembraria que tinha alguém deitado na calçada.

Isso me fez lembrar o Amigo. O conheci lá pelos meus seis ou sete anos, quando ia cortar o cabelo na barbearia na Rua São João junto com meu pai. Ele aparecia sempre para pedir dinheiro para os barbeiros e frequentadores do local. Dizia que era para completar para o almoço. Chegava sempre sorrindo, dizia que se não tivessem nenhum cruzeiro não teria problema, que ele poderia pedir a outras pessoas na mesma rua. Mesmo depois de receber só um centavo de um ou outro ainda ficava por um bom tempo e conversava alegradamente com os presentes, contava piadas, falava sobre tudo. Esses milicos ainda destruirão o Brasil, dizia ele. Ele representava para mim um mistério. Sempre brincava comigo, dizia que eu seria jogador de futebol ou astronauta, que seria o primeiro brasileiro a chegar à Lua. Ninguém sabia seu nome, era apenas o Amigo, nome escolhido porque ele tratava a todos por “ô, amigo!”. Mas diziam que ele era de família rica, e estudara em bons colégios, alguns até falavam que fizera faculdade. Mas as teorias se dividiam em várias correntes: a primeira de que ele fora mandado embora de casa, e essa corrente se dividia em outras, de que teria sido por uma briga com os pais por conta de política, outra que diziam era que ele ousara ter um relacionamento com a filha de uma família rival e a subcorrente que mais repetiam era de que quando servia no Exército uma bomba estourara perto dele, ferindo sua cabeça e sua perna direita – ele tinha uma ferida grande na perna e mancava – e acabara pirando, o que acabou fazendo com que sua família não o aceitasse. Outra corrente teorizava que ele mesmo optou por sair de casa, discordando de tudo, e que não queria viver de riqueza. Ainda havia uma terceira teoria que falava que ele teria uma casa bem grande, mas que só usava para dormir, preferindo viver nas ruas, porque perdera toda a família num grande desastre. Para mim ele era apenas o Amigo. E foi assim por vários anos. Por algum motivo parei de ir ao barbeiro preferido pelo meu pai e, assim, deixei também de ver o famoso pedinte da rua São João.

Estava já próximo às provas do Vestibular. Época em que eu não tinha tempo para nada. Só pensava nos exames, morrendo de medo, temendo o fracasso. Saía do Liceu e ao invés de ir para casa, decidi ir na direção contrária, pegando a Amaral Peixoto em direção às Barcas. Quase em frente à Sabiá Discos, onde as pessoas mais se aglomeravam, disputando espaço, filas de ônibus, bancas de camelôs, homens mostrando as maravilhas de um produto milagroso – para limpar o chão de sua cozinha, madame – e o corre-corre normal da cidade, bancários querendo voltar do almoço para explorarem e serem explorados, a fiscalização querendo pegar os camelôs e esses suspendendo suas bancas para escaparem – OLHA O RAPA!  Ou seja, tinha de tudo. Enquanto isso, eu ia devagar, pensando nas danadas das provas. De repente, noto mais a frente que as pessoas que iam na mesma direção que eu enviesavam para a esquerda e aquelas que vinham na minha direção iam para a direita. Pensei, deve haver um buraco ali. Continuei em linha reta para ver do que se tratava. Então, após o último se desviar, eu já dava o próximo passo quando esbarro com o pé direito em algo e ouço um barulho metálico. Olho para baixo e vejo algo que parecia uma tigela, mas que depois olhando melhor, parecia mais um prato bem fundo de alumínio, daqueles que minha mãe usava para nos dar mingau, e uma moeda de cinco centavos que quase caiu no chão, rodopiando pelas bordas do prato até parar. – Cuidado aí, seu Gomes! Quer que eu perca meu negócio? Havia um mendigo sentado na calçada, tendo ao lado uma muleta, que ficava encostada e amparada no muro, a tigela em frente à ponta de sua perna direita, que vi que tinha sido amputada na altura do meio da canela e tinha a ponta toda enfaixada por um pano encardido. E dois livros em capa vermelha dura, parecendo ser de uma coleção, logo leio: Crime e Castigo I e II. Vi que a reclamação era comigo, mesmo que ninguém me chamasse de Gomes. Mas o grito veio logo depois que esbarrei no prato. E aquilo me deu um sobressalto também, pois meu sobrenome era Gomes. Olhei para o rosto com a barba enorme e logo reconheci.  Era o Amigo. Talvez ele ouvisse que chamavam meu pai de Gomes e se lembrara de mim. Ou então ficou louco e me confundiu com meu pai.

Parece incrível, mas o tempo entre o esbarrão, o som da moeda no prato, a reclamação, a conferência e catalogação dos bens do mendigo e da verificação de sua própria condição física, além do reconhecimento de seu rosto durou pouquíssimos segundos, que pareceram uma eternidade, tal o desconforto que senti após ser encarado. Logo repeti o que os outros transeuntes faziam, desviei para a esquerda e segui o passo. – Nem uma moedinha, astronauta?

No dia seguinte, mesmo com pressa de voltar para casa e tendo que estudar, uma força me levava para o caminho contrário. Lá estava o desvio das pessoas, que passavam automaticamente por ele, como um objeto invisível. Fiquei de longe observando o cenário e ouvia o barulho de moedas caindo e em seguida o via sacudindo o mesmo prato de alumínio com o som de uma moeda chacoalhando. Resolvi tomar coragem e segui na sua direção, peguei uma moeda do bolso e parei. Na mesma hora ele me encarou. Dessa vez não havia raiva no olhar. Um sorriso misterioso, misto de deboche, esperança e também de desafio. Não conseguia identificar qual característica daquele olhar se sobressaía. Sei que sentia todos os efeitos sobre mim. Sacudiu o prato. Joguei a moeda e olhei que só havia uma moeda. Onde estavam as outras que eu vi o povo jogando? Deduzi que o artifício era deixar só uma como chamariz, escondendo as outras. Obrigado, AS-TRO-NAU-TA! E soltou uma gargalhada. Repeti o trajeto por vários dias seguidos, semanas, meses. Todos os dias, ao final das aulas, lá estava ele. Sempre a moeda brilhando no prato, a muleta ao lado e as pessoas desviando no automático, como se fosse realmente para não caírem num buraco esquecido pelo poder público. E os dois volumes de Crime e Castigo, que em alguns dias estavam abertos.

Final do ano, saio da aula, e vejo um reboliço. Gritos. Duas senhoras e o Amigo. Pelo que ouvia, deviam ser donas de uma das lojas da galeria e moravam ali perto. Queriam retirá-lo dali. Nós iremos lhe dar banho e comida, mas saia daqui. O mau cheiro está incomodando a freguesia. Ele gritava. Quero ficar! Daqui não saio. Dois homens ajudaram as senhoras e o seguraram. Sem escapatória, ele segura o prato, mete a mão direita no bolso e ouço barulho de moedas, pega com a outra mão a muleta. Ele me vê. Astronauta, os livros, os livros! Eu vou atrás, atrapalhado pela multidão curiosa. Entraram no prédio ao lado da Caixa Econômica e eu atrás. Não me deixaram subir, mas estiquei a mão com os livros e ele conseguiu agarrá-los. Obrigado, astronauta.

No dia seguinte, o Amigo não estava ali. Nem no seguinte. Nem nos outros. Ouvi rumores, sem confirmação, que um mendigo matara duas senhoras num prédio do Centro da cidade. Uma seria dona de uma joalheria da galeria e a outra sua irmã. O mendigo fugira, levando uma bolsa de dinheiro, mas que deixou quase tudo na calçada, distribuindo com os meninos de rua e prostitutas que faziam ponto em frente ao prédio. Nunca ninguém mais o encontrou.

* * * * *

 

(*) Crônica selecionada entre os finalistas do Prêmio UFF de Literatura 2013 e integrante da coletânea de textos premiados.

A bala perdida

dezembro 18, 2013

A bala perdida(*)    –    Autor: Carlos Benites

Ouve-se o estampido

Um som surdo

Seco

Misturado ao som crescente da chuva que caía

FORTE

Outro som,

Como um irmão gêmeo

Outro e outro

 

Tem Fardado

Disparando a todo lado

Fardado sendo arrebentado

Fardado, você é explorado!

 

E os metais viajam pelo ar

Três encontram o Paço

O outro insiste em voar

E voa, voa

Por entre os pingos da chuva

Que tentam pará-lo

Deslizam por ele

Lavam seu corpo

Mas não limpam seu espírito

Assassino

Feroz

Sanguinário

Que insiste em seguir

Persistente

Sobrevoa a cidade

Com fogueiras juninas

Janelas quebradas

Vidros estilhaçados

Rostos cobertos

Que vandalizam

Os vândalos

de terno e gravata

Moços com cartazes

De sentidos diversos

Querendo saúde

Dignidade, educação

Respeito

E recebem fumaça

Spray do ardor

Que não é de paixão

Borduna na testa

E também a prima

Do metal voador

De borracha

 

Fardado, você é explorado

Fardado, vem pra nosso lado

Fardado, estamos desarmados

 

A moça de rosto pintado

Bandeira e lenço

Em verde e amarelo

Caminha pela rua

Gritava alegre

Vem pra rua

Vem pra luta

O Rio acordou

E de repente

A moça bonita para

Para de sorrir

E GRITA

 

O metal voador

De fúria maldita

Encontrou o seu peito

Manchando a bandeira

Avermelhando o asfalto

Ferindo a cidade

E a inocência perdida

Roubou uma vida

Mas não matou a esperança.

 

Rio de Junho

Dezessete

 

(*) Poesia classificada em 2. lugar no  Prêmio UFF de Literatura 2013.

Guerra dentro da gente – Paulo Leminski (*)

julho 8, 2013

(*) Esse texto é parte de um artigo acadêmico para o Curso de Especialização em Literatura Infanto-Juvenil da UFF, no ano de 2008.

Um artista eternamente em busca de paz

Paulo Leminski, que se define como um “bóia frio do texto, trovador apaixonado, cançonetista, apanhador de arrepios e acrobata”, e que diz “não sou um poeta de fim de semana, eu faço poesia sem parar”, é um artista de muitas faces, que produz em muitas áreas e que desde cedo chamou a atenção do público pela sua cultura, intelectualidade e genialidade.  Começou escrevendo poesias, mas de um jeito próprio e marcante, com poemas curtos que traziam sempre sua marca, com trocadilhos, usando ditados populares e até “haicais”. Considerado por muitos como um artista multimídia, também produziu durante muito tempo na área musical, como letrista e parceiro de muitos cantores brasileiros de renome, como Caetano Veloso, Torquato Neto e Moraes Moreira. Como um artista inquieto, também se tornou conhecido como tradutor de autores como James Joyce, John Lennon e Samuel Becket, entre outros. Além de uma vasta obra poética, onde ganhou grande visibilidade, e sendo inclusive bastante premiado, Leminski também teve uma boa obra em prosa. Também produziu biografias e ensaios e, por fim, decidiu escrever para o público infanto-juvenil, como a obra Guerra dentro da gente, lançada em 1986, e que é tratada no presente trabalho.

Leminski, por ter nascido ao final da segunda grande guerra, e ter vivido durante a época do início da guerra fria, a era “hippie”, a bossa-nova e vários movimentos literários e musicais, acabou tendo em sua formação toda essa influência e uma ampla base cultural, responsável por trazer ao público uma obra de grande qualidade, dando uma visão de mundo para todos que o lêem. Em Guerra dentro da gente, podemos enxergar Leminski e tudo o que ele pensa. Numa obra em que o próprio título já fala de guerra, mas uma guerra própria, que é enfrentada pelo indivíduo, dentro da gente, podemos visualizar o perfil do autor e sua personalidade pacífica. O poema de sua autoria Guerra sou eu, e a imagem em que aparece o manuscrito de outro poema do autor, Bom poema, parecem dar uma idéia, em poucas linhas, de uma visão do referido livro e do próprio autor e sua obra:

Guerra sou eu

guerra sou eu

guerra é você

guerra é de quem

de guerra for capaz

 

guerra é assunto

importante demais

para ser deixado

na mão dos generais

P. Leminski

(a pontuação, ou falta de, além do uso de minúsculas, são marcas do autor)

***

 Bom poema 

um bom poema 

* * * * *

Guerra dentro da gente

O presente livro tem como personagem principal Baita, que tem sua história contada desde criança, numa infância mal-tratada, com um pai truculento e uma mãe frágil, até sua velhice já como um grande chefe guerreiro de um reino. Ao vermos o início e o fim da história, podemos imaginar quantas mudanças ocorreram na vida desse menino. A primeira dessas reviravoltas se deu quando Baita encontra o velho Kutala numa ponte enquanto carregava lenha para sua casa. O velho era uma figura misteriosa e assim propôs ao menino ensiná-lo a arte da guerra, mas para isso ele precisaria estar no mesmo local em certa hora do dia. Para saber que horas que Kutala queria, Baita teria que desvendar uma espécie de adivinha (houve outra posteriormente). “Então, esteja aqui amanhã, quando a cor da água do rio passar da cor da asa do estorninho para a cor do nenúfar”. Foi o que disse o velho, mas o menino não fazia idéia do que seria “estorninho” e “nenúfar”. Consultou os pais, que ao ouvirem falar do velho logo se assustaram, dizendo que ele seria um espírito maligno que carregaria o menino para longe. Isso não assustou o menino, talvez porque mesmo que fosse verdade o que os pais o alertavam, ele não teria nada a perder, pois sua infância era sofrida demais, e o que poderia ser pior para ele do que um pai bruto e injusto com ele? Além disso, tinha o fato de que ele poderia ter contato com a arte da guerra, a arte que é ensinada somente a reis e generais, ou seja, pessoas poderosas. Ele correria o risco.

Logicamente não soube que hora seria aquela ligada ao estorninho e ao nenúfar, e foi repreendido pelo velho por não chegar na hora certa, dizendo que ele não estaria pronto para a arte da guerra. Mas deu-lhe outra chance, pedindo que voltasse no dia seguinte, e novamente com um segundo jogo de palavras para dizer a hora a chegar: “se você ainda quiser aprender a arte da guerra, esteja aqui amanhã, quando a voz do vento deixar de dizer adeus e começar a dizer venha.”  E no dia seguinte, mesmo achando que tinha conseguido ouvir a voz do vento dizendo tudo o que o velho havia dito que ele diria, novamente não conseguiu chegar na hora que o velho esperava.  Só que Kutala, mesmo irritado, disse que Baita poderia decidir o que fazer e quando, pois quem quer ser mestre da arte da guerra, “não pergunta aos outros o que deve fazer”. Decidiu ir naquela hora. Mas logo depois deparou com uma surpresa: ele fora enganado pelo velho que o levou para ser vendido como escravo. Essa foi a primeira das reviravoltas pelas quais Baita passou em sua vida, e isso mostra um traço interessante na formação de uma boa ficção, com um traço que não é contínuo, linear e sem surpresas e mudanças inesperadas (inesperadas, porém verossímeis). Outras mudanças ocorreram, algumas para testar a confiança de Baita em Kutala, e isso se tornou um dos principais conflitos vividos por ele em sua vida inteira, a de que deveria decidir se confiava ou não no que Kutala lhe propunha (e foram várias vezes por toda vida). Seria capaz de aprender a arte da guerra e Kutala lhe ensinaria mesmo a tal arte? E assim foi sua vida, cheia de conflitos e de decisões, onde tinha que aprender qual caminho a seguir, e de aprender com erros e acertos. E essa seqüência de decisões foi o seu maior ensinamento.  Quase sempre a princípio Kutala o trapaceava, mas depois ele aparecia sempre com um aprendizado novo. Baita chegava a sentir raiva por Kutala aparentar sempre ter razão no que falava e fazia.  Uma das principais aprendizagens de Baita foi de que “a arte da guerra faz parte da vida. Se você tem mesmo que aprender a arte da guerra, você tem que aprender a vida. E a vida só se aprende vivendo.”

E vivendo, Baita foi experimentando várias situações em que a violência estava presente, viva. No entanto, essa violência é totalmente pertinente. Isso mostra que um livro que seja voltado ao público jovem pode perfeitamente ter a violência como um de seus temas. A violência faz parte da vida. Como diz Nilma Lacerda em Cartas do São Francisco:

“Se fazemos literatura para crianças e jovens, não devemos nos furtar a esse encontro. Temas como morte, preconceito, guerra, suicídio, assassinato, tirania não têm por que estar ausentes dos livros destinados a crianças e jovens. A vida não é cor-de-rosa, e as crianças o sabem. O mundo não é de cordeiros, elas também o sabem e experimentam tanto a posição destes quanto a do lobo que se evidencia na sua crueldade, ou vem a disfarçá-la, fazendo-se carneiro entre carneiros. Como em outras questões, o guia essencial é a criança em nós, capaz de sabiamente marcar a diferença entre o conflito e o escândalo, entre a emoção e a degradação.”[1]

E foram várias e duríssimas vivências que Baita teve, de escravo, alimentando animais de circo, fugas, noites mal dormidas, pouca ou até nenhuma comida às vezes, ameaças de morte trabalhando num navio, prisioneiro, guarda do Reino e vários cargos de chefia até ocupar o cargo máximo de chefe dos Exércitos. Tudo isso não só com fatos, pois logicamente acompanhavam diversos personagens, e junto com fatos e personagens, as “idéias”. Entre os personagens temos Baita, Kutala, os pais de Baita, os marinheiros, os diversos trabalhadores do circo, o Rei, a Princesa e sua ama, os guardas do rei etc.  Entre os fatos, ou o enredo, temos as várias vivências experimentadas por Baita, na sua casa de infância, no circo, no navio, na floresta, na grande cidade, no Reino. E as idéias seriam tudo que Baita aprende, o que ele descobre da vida apenas “vivendo”, os caminhos que ele decide seguir, a arte da guerra, a arte da paz. O autor consegue entrelaçar esses três elementos que, como diz Antônio Cândido,

só existem intimamente ligados, inseparáveis, nos romances bem realizados. No meio deles, avulta a personagem, que representa a possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor, pelos mecanismos de identificações, projeção, transferência etc. A personagem vive o enredo e as idéias, e os torna vivos.”.[2]

Gide também se refere, com um exemplo que mostra o que ocorre em Guerra dentro da gente: “Tento enrolar os fios variados do enredo e a complexidade dos meus pensamentos em torno destas pequenas bobinas vivas que são cada uma das minhas personagens”. [3]

A história é narrada em terceira pessoa, de forma onisciente, mas que, ao mesmo tempo, deixa o leitor tirar suas próprias conclusões.

“Era um velho absolutamente comum. A única coisa de especial é que ele estava ali, naquele momento.” (p. 7)

“A noite estava fria. E o vento assobiava. Por um momento, Baita chegou a imaginar que o vento dizia algo como adeus. Ou seria venha?” (p. 13)

“Só uma coisa atormentava Baita: o desaparecimento da Princesa. Por isso não parava de tentar localizá-la. (…)Ele, no fundo, sabia que era ela. Mil vezes teve vontade de encontrá-la, abraçá-la (…) Mas ele a amava demais para isso.” (p. 61)

Estão presentes os arquétipos, que interdependem, pois um atua em função do outro, do herói – Baita – e do velho sábio, Kutala. Baita tem sempre pela frente um desafio, uma tarefa, sempre com objetivo de evoluir e aprender. Por outro lado, temos Kutala sempre na tarefa de orientar Baita em seu crescimento, mas nunca abertamente, sempre com um conhecimento disfarçado como um desafio para que o herói evoluísse. Um age junto do outro. Kutala pode também representar o arquétipo do ajudante, que está sempre junto do herói, mesmo que Baita não reconheça sempre que ele está ali para auxiliá-lo. Baita só é herói porque existe Kutala, e Kutala só representa o sábio porque existe o herói que tem o perfil para aprender a arte da guerra. Ele não ensinaria a arte da guerra a qualquer um que não mostrasse que pudesse cumprir todo o ritual de aprendizagem e evolução que Baita teve.

A aprendizagem que Baita tem é a mesma que o leitor também tem. Com tantas reviravoltas, sua sabedoria vai crescendo paralelamente ao crescimento como pessoa e amadurecimento de Baita. Para chegar até o total amadurecimento ao final de sua vida, o velho apresentou a ele o outro lado da vida, como a traição, a fome e a exploração e abuso de força e poder. Tudo isso servia para que ele entendesse outros valores que também seriam importantes para conhecer e aprender a arte prometida pelo Velho. A arte da guerra, que tanto foi procurada pelo menino Baita, foi mostrando que a guerra poderia não ser só a guerra dos homens, mas a guerra dentro dos homens. A guerra pode ser também a afirmação do amor e da paz, mesmo sem deixar de lado os valores de um verdadeiro guerreiro, como coragem (e medo), força (e fraqueza), fibra, dureza, virilidade e atenção. Heráclito dizia que “a guerra é o pai e o rei de todas as coisas”. A agressividade e a violência também são inerentes ao homem, assim como a luta pela sua preservação. A humanidade cresceu também com esses valores, e muitas vezes em função deles. Porém, a vida é um dom bastante precioso para que ela seja relegada somente a sentimentos vulgares onde só ódio e violência sejam preponderantes. E um dos maiores aprendizados que Baita teve, e o leitor também, é que todos esses sentimentos se bem canalizados podem representar uma fonte de vida e não de morte.


[1] Nilma G. Lacerda. Cartas do São Francisco. São Paulo: Global, 2003. p.20.

[2] Antônio Cândido. A personagem do romance, in Cândido, A. et al.A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 54.

[3] Cândido, 2007, p. 54  apud Gide, Journal dês Faux-Monnayeurs, 6.me edition, Gallimard, Paris, 1927, p. 26.

O saci

julho 6, 2013

Você revisa o texto que vai enviar para a EdUFF uma, duas, três … seis vezes. Olha todas as páginas, pois a gente sempre  esquece de incluir uma vírgula ou coloca outra desnecessariamente. Ou então pode ter um verbo mal colocado, ter que acertar uma coesão,  cortar uma parte pequena, trocar uma frase, diminuir aqui e ali, pois eles pedem que o texto tenha quatro páginas no máximo. Daí lembra que precisa ainda incluir a numeração das páginas e então corta mais um pouquinho. Revisa mais três vezes por conta das alterações. O total de revisões do texto inteiro deve ter ido a mais de dez. Aí você fica feliz por completar o trabalho perfeito e o envelopa e deixa na editora, com o sentimento de dever cumprido.
Dia seguinte liga para o amigo, conta sobre o texto e aproveita para abrir o arquivo. Aí você, com cinco segundos após ter aberto o texto, logo dá de cara com aquele errinho NO PRIMEIRO PARÁGRAFO. Logo o primeiro parágrafo que foi o que você mais mexeu e cortou. Estava lá desde o princípio e não o encontrei no meio das revisões. Então lembro da imagem feita por Monteiro Lobato, que dizia que depois de enviar o livro para a editora o errinho aparece na figura de um saci, que fica acenando para você, sorrindo com ar de deboche.

 

Miss Eucalipto

dezembro 19, 2012
Miss Eucalipto
Carlos Benites
american woman in Italy
            Meus amigos, vocês me dão o prazer da visita toda noite para ouvir meus causos e tomar um cafezinho. Não sei se já lhes contei sobre a moça que vivia lá numa casa no morro no Bairro de Fátima. Não contei sobre a famosa Miss Eucalipto? Eu a revi esses dias lá num dos bares da Rua São José.  Eu a conheci quando tinha meus 13 anos, embora tanto eu quanto ela já morássemos há muito mais tempo. Segunda-feira, lembro bem desse dia, pois eu quis chegar mais cedo na escola já que no domingo o Fluminense tinha vencido o Fla-Flu e assim queria ter tempo para passar na banca e comprar o Jornal dos Sports e chamar os amigos tricolores para sacanear a urubuzada. Lembro que todas as discussões das segundas eram acaloradas e os derrotados do domingo nem podiam se dar ao luxo de se esconderem, pois ainda restavam mais cinco dias até que chegasse o próximo final de semana. Pois então, chegar mais cedo era uma tarefa inglória para mim, mesmo com o despertador altíssimo e com minha mãe precisando me chamar quatro vezes e até apelando para jogar uns pingos d’água no meu rosto. O uniforme foi colocado no automático, com os olhos ainda semicerrados e remelentos. O pão com manteiga e o café com leite foram engolidos em segundos e foi só ouvir a vinheta da Rádio Globo, “são sete horas em ponto” para ouvir o barulho do  motor do ônibus, o famoso 3, que passava de meia em meia hora. Desesperei-me, não vai dar tempo. Escovei os dentes tão cuidadosamente como coloquei o uniforme, que ficou com os botões em casas trocadas, e saí correndo para tentar alcançar o ônibus, aproveitando que ele daria a volta no quarteirão do Edifício Marilúcia para retornar à Rua Andrade Pinto.  Consegui. Esbaforido, entrei na condução, paguei a passagem, satisfeito por ver que chegaria bem cedo ao Grupo Escolar Raul Vidal. Em poucos minutos eu já ia descer do ônibus, que me deixava não muito próximo do colégio, pois meu ponto era próximo ao Moinho Atlântico, onde também desciam os operários que trabalhavam nos estaleiros próximos e no próprio Moinho. Quando me preparava para descer do ônibus, alguns bancos a frente se levanta a tal Miss.  Não reparei na hora, pois ela era apenas mais um passageiro querendo chegar a seu destino.  Mas assim que desci, e como ela ia na mesma direção que eu, comecei a nela reparar, pois ela ia na frente e todos os homens que vinham da direção contrária, ao passarem por ela, voltavam o pescoço em 180 graus. E a cena ia se repetindo. No início eu ri, mas aí passei a também a acompanhar com interesse o andar da musa dos operários que caminhavam pela Rua Feliciano Sodré. Vinicius diria que seu balançar era mais que um poema, a coisa mais linda que eu já vira passar. A calça jeans justa torneando os seus largos quadris lembravam aos da famosa mulata das Sardinhas 88. Devia ter 20 ou 22 anos no máximo. Minha timidez adolescente não me deixava olhar incessantemente para tal objeto de desejo de 10 entre 10 transeuntes do sexo masculino, mas cuidadosamente diminuí meu ritmo para poder ficar a uma distância dela e não ultrapassá-la. Até algumas mulheres tinham sua atenção voltada para a tágide operária. Ela entrava na Rua Barão de Amazonas e eu seguia meu caminho não sem antes dar uma última olhada em direção à morena de longos cabelos negros.
Cantada Miss eucalipto
            Deixa eu pegar um café que a Cesária fez. Vocês querem com açúcar ou adoçante? Seu Libório poderia tocar uma modinha enquanto isso. Dona Das Dores, pegue uma bolacha nesse pote. Mestre Gaudêncio, o senhor é de casa, não está esperando que eu lhe leve a bandeja, né? Seu Firmino, a cegueira não impede do senhor saber de cor todos os cantos de minha casa.  Só vou colocar o cafezinho para o senhor, o restante pode se servir. … Mas voltando à história, eu fiquei sem saber quem era aquela exuberante jovem, mesmo ela fazendo parte de minhas manhãs de segunda a sexta. Foi quando numa conversa entre minha mãe e minhas primas, ouço-as comentando daquela mulher que nenhum homem do bairro tira o olho, com um corpo de dar inveja,  que morava naquela casa que ficava isolada no meio do morro ao lado de um pé de eucalipto, e que todos diziam ser amante do português dono da quitanda. O português era todo sorriso quando a Miss Eucalipto passava, finalizou minha prima Lucia.  Aquele nome bateu nos meus ouvidos como música. Miss Eucalipto!  Miss Eucalipto! A Miss dos eucaliptos! Título bem merecido.  Nome bem mais justo do que aquele conto do Machado, Miss Dólar, que, se vocês não sabem, era o nome de uma cadelinha.  Mas a minha Miss Eucalipto não se perdia. Estava pontualmente no ônibus das 7 com suas calças jeans justas, requebrando os quadris, num rebolado natural. Pode ser que a nostalgia faça agora um desenho mais bonito às minhas lembranças, mas eu digo que era como uma cena em câmera lenta no cinema. No meu último dia de aula daquele ano ela apareceu diferente. Não estava com suas jeans. Estava com um vestido azul que ia na altura de seu joelho. Talvez por não estar acostumada a tal vestimenta, seu andar parecia meio atrapalhado, e ficou mais ainda ao perceber que ventava, não uma ventania, mas um vento suficiente para balançar o tecido do vestido. Os homens, que nos outros dias já voltavam o pescoço, naquele dia faziam também uma torcida silenciosa para que o vento lhes fosse generoso e lhes desse de presente uma visão até então misteriosa. Dessa vez eles passavam e paravam. E eu junto com eles na torcida. Disfarçadamente, pois temia ser chamada minha atenção por alguma senhora, afinal um menino teria que manter a compostura. E enquanto isso, a Miss Eucalipto tentava segurar o vestido num lado e depois em outro. O vento parecia sapeca, querendo surpreendê-la. Enfim, para alegria dos operários em volta, o vento dribla a atenção da morena, fingindo que levantaria na coxa direita e partiu para a esquerda. Nossa morena, surpreendida pelo vento, numa última tentativa de não dar o espetáculo esperado, foi com as duas mãos segurar as abas do vestido.  Além de não impedir que todos se alegrassem com a visão das coxas roliças e da calcinha branca, acabou por deixar cair uma pasta que trazia junto com sua bolsa. Envergonhada, abaixou-se para pegar a pasta. Intuitivamente, eu que estava atrás, mais rápido que ela, peguei sua pasta e algumas moedas que também foram ao chão e entreguei a ela. Ela parou e me deu um sorriso de presente. Pegou a pasta, as moedas… Você não é o Santiago, filho de Dona Rita? Ela me reconheceu. Eu não era invisível para a Miss Eucalipto. Disse então que estava com pressa, e que tinha que correr para não ser despedida. E por fim, agradeceu-me com um beijo. Intuitivamente eu girei meu rosto para que não tocasse na bochecha e sim nos lábios, mas ela deve ter percebido minha intenção e fez um contragiro, mas ao receber o beijo vi que meu movimento foi suficiente para a lateral de seus lábios tocassem a mesma parte dos meus.  Ou imaginei que houve esse toque. Um milímetro dos lábios da Miss Eucalipto foi como se tivesse recebido um beijo de cinema. Ela não me repreendeu. Sorriu e continuou sua caminhada, dessa vez sem vento.
vento
            Como era meu último dia de aula no meu último ano no Raul Vidal, aquele tinha sido meu último encontro com ela naquela região.  E mesmo no bairro de Fátima, eu só a vi poucas vezes. Depois de algum tempo nunca mais a vi. Isso até semana passada. Fui com amigos beber uma cervejinha num bar perto do Paço Imperial. O dono do bar, seu João, bastante simpático, parou para conversar com meu grupo. Contava piadas e todos nós gargalhávamos. Meu amigo Zé falou que eu era o único que morava num local com uma bela vista, que eu era de Niterói e assim podia ver as belezas do Rio. Seu João disse então que sua mulher nascera em Niterói. De que bairro o senhor é? Bairro de Fátima? Acho que a Regina era de lá também.  Regina!  Regina! Venha cá.  Ela é quem faz essa comida gostosa que os senhores estão comendo. Uma figura feminina surge na porta da cozinha. Uma figura envelhecida, com as manchas de gordura no rosto e no avental. Quando ela se aproxima de nossa mesa, olho o seu rosto, e ao cruzar com seu olhar por um segundo, vi que a conhecia. Sim, era ela. Mas aquela visão maltratada me fez mal. Fiquei chateado por desmontar minha última imagem da Miss Eucalipto. Como aquela mulher ali em frente foi capaz, em um segundo, de destruir a bela lembrança que eu tinha? Tive vontade de me esconder, de não estar ali. Por vários anos, vez ou outra, principalmente ao me sentir solitário, recorria às recordações da Miss Eucalipto e daquele beijo. Pequeno, um milímetro, mas o melhor beijo que aquele menino de 13 anos podia ter. Seu João perguntou se ela era do Bairro de Fátima, e logicamente ela confirmou e me apresentou. Ambos nos olhamos, e acredito que a minha reação de repulsa, de querer expulsar a nova imagem da Miss Eucalipto, refletia no que ela sentiu e expressou.  Percebi que ela me reconheceu também, mas em um segundo mudou sua feição, como se estivesse buscando algo na memória. Disse que não lembrava. Intui que ela não queria que eu tivesse aquele choque de realidade, que a imagem que eu tivesse dela fosse aquela de 1982. Parecia que eu estava em frente da avó da Miss Eucalipto e não da própria.  Aos poucos passei a ter um pouco de carinho misturado com pena daquela senhora.  Possivelmente ela teria 50 anos ou um pouco mais, mas parecia ter bem mais de 60.  Disse que também não me recordava dela, me desculpando, pois eu não seria bom fisionomista, que costumava me esquecer de pessoas que conheci há uma semana. Aquela mudança também a machucava. Mas aquela situação me incomodava tanto, que logo arrumei uma desculpa para sair, que não podia ficar mais tempo por lá, que teria que acordar cedo. Mentira, mas todos acreditaram. Torci para que a ex-Miss Eucalipto, agora Dona Regina, voltasse para a cozinha. Vim para casa tentando apagar dona Regina da mente e imaginando aquele doce e sensual andar, na câmera lenta de um Sidney Polack ou de um Fellini. Da voz doce me agradecendo e não da voz rouca e cansada que saía da cozinha. Até Cesária ficou triste depois que eu lhe contei o que tinha acontecido. Mas essa reunião aqui é para a gente se divertir e não para que eu transmita minha tristeza. Prometo que amanhã eu conto uma história porreta. Vou abrir uma cerveja geladinha pra gente.

À Luz do Poente – de Marcelo Ribeiro

agosto 23, 2012

O conto abaixo é de um leitor deste blog que surpreendeu-se com a coincidência de eu ter escrito há uns meses sobre uma musa da Livraria Travessa – A menina que vendia livros – ou a menina (da) Travessa – tema que ele também tinha usado num conto de sua autoria e que nunca tinha sido publicado.  E agora, cá está o conto.  Gostei bastante do conto e agradeço ao Marcelo por ter autorizado sua publicação.

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À Luz do Poente

Marcelo Vieira Ribeiro

Gostava de viver em metáforas. Naquela escada rolante, sentiu-se em um de seus antigos exercícios colegiais de física, ele mesmo um traço no papel, subindo o plano inclinado a uma velocidade constante, o peso decomposto em normal e tangente. Finalmente, essência e existência circunscritas a uma fórmula perfeita, o futuro definido a um simples fixar da variável tempo. Mas os degraus não eram infinitos, e rapidamente seus passos buscaram porvir mais caótico, nas calçadas lotadas de um fim de tarde na Cinelândia.

Não teve saudades de sua breve estada no mundo dos vetores, ficando aliviado em sair do linear e newtoniano espaço do metrô e mergulhar em regime oposto, no pleno movimento browniano daquela praça. Por um momento, agradeceu a si mesmo por preferir o princípio da incerteza a ter suas partículas desveladas em simples retas e ângulos.

Em poucos passos já estava entre as fileiras de barracas azuis, com suas bancadas apinhadas de livros, misturando-se aos que circulavam entre os corredores irregulares daquele labirinto de madeira e papel que ocupava a praça a cada seis meses. Compradores eventuais, curiosos, garimpeiros de raridades, simples passantes, a habitual fauna humana da feira sempre o deixou à vontade. Talvez o tosco das barracas, pensou certa vez, o desleixo das pilhas de livros e a informalidade dos vendedores tornassem as pessoas serenas e despreocupadas, enquanto circulavam aqui e ali na feira, a observar as lombadas e a manusear um ou outro exemplar menos gasto.

Ele, porém, mais do que isso, sentia-se bem entre os livros. Desde criança o atraía a palavra escrita. Já entrado na idade adulta, passou a ter paixão também por colecioná-la em seu registro mais nobre. Coincidiu talvez com o primeiro emprego, com o calor do primeiro dinheiro recebido, o despertar de seu apego ao papel impresso, cortado, dobrado e encadernado, que poderia armazenar em casa, em estantes cada vez mais longas, para ler, reler ou folhear quando quisesse.

Mas não se ache que o impressionavam as edições bem cuidadas, as raridades, os exemplares únicos. Não gastava suas horas em sebos atrás de uma primeira edição autografada, despercebida pelo livreiro. Não era a veste que o atraía, apesar de também apreciá-la. O que realmente o fascinava era um objeto tão singelo – e tão gasto, se se tratar dos que ele adquiria – concentrar em si tanto conhecimento e beleza, imprimir-se de tanta vida. Respeito, sim, respeito era o sentimento que ele dedicava aos livros, aos bons livros, como abrigos do que a alma humana oferecia de melhor. Ou de pior, pois em Literatura, para ele, não havia lugar para juízos morais.

Literatura. Circulando pelas barracas veio-lhe novamente a palavra: Literatura. A única que lhe importava. Aos montes, à sua frente, multiplicavam-se os livros, sucediam-se os assuntos: ciências, filosofia, esoterismo. Mas a ele só interessava a Literatura. Assim mesmo, em maiúscula. A Arte transcrita em Linguagem. Palavras em comunhão. Buscava abarcar a vida de uma forma tão profunda e direta que – e essa era a sua mais íntima e forte convicção – sua única possibilidade não era viver, mas mergulhar na vida impressa em páginas amarelecidas pelo tempo.

Procurou afastar, porém, esses pensamentos. Estava ali em expectativa de prazer. Sabia que sua busca atenta e seus dedos preparados iriam fatalmente encontrar a gema escondida naqueles montes de cascalho, tão avidamente remexidos por garimpeiros de menor arte. Experimentava nesses momentos, quando se deparava com um exemplar que não merecia estar esquecido, a mesma sensação de calor de quando cruzava com olhos femininos receptivos ao seu oblíquo e literário olhar, como uma vez tão a seu gosto alguém o definiu.

E assim foi mais uma vez, e logo em sua barraca preferida, a dos livros de R$1,00, a que oferece a maior densidade de prazer literário por unidade monetária. Lá, encontrou uma edição antiga e em estado razoável de um livro que há apenas dois dias lhe havia sido recomendado: Viagem à Roda do Meu Quarto, publicado em 1794 por Xavier de Maistre. Disseram-lhe, então, que este era um dos livros favoritos de Machado de Assis. O velho Machado escreveu o que escreveu sem nunca ter saído do Brasil; Xavier foi mais longe – ou perto, como se preferir – limitou-se ao próprio quarto.

As coincidências às vezes o surpreendiam, e nesses momentos ele abria mão de sua constante aposta no acaso e tentava reconhecer em seu cotidiano signos e referências de um caldeirão simbólico em que estaria imerso, por algum desígnio divino ou pelo alinhamento energético de suas próprias escolhas. Ao se deparar com aquele pequeno livro, tão amistosamente se oferecendo em aparência e preço, deixou-se levar, assim, por uma morna sensação de conforto e familiaridade, sentindo-se irmanado e apoiado por antepassados que extraíram refinada Arte de um viver tão simples e cuja caligrafia vinha agora ordenar a aleatoriedade de seus passos.

Aquele fim de tarde já estava justificado. Pegou rapidamente o livro, entregou uma moeda de R$1,00 ao vendedor e seguiu em caminho inverso ao que havia vindo, sem procurar fixar os olhos nos livros à mostra, para que outro título não desafiasse a completude de sua aquisição. Resolveu não voltar já para Copacabana. Um café seria bom. Percorreu a praça, passou em frente ao Teatro Municipal, atravessando a avenida e seguindo pela calçada. Anoitecia, as pessoas passavam apressadas, vindo do trabalho. Como é bom flanar, pensou, enquanto caminhava despreocupadamente pela Rio Branco, observando os prédios e sentindo-se o próprio Baudelaire, ao desejar as mulheres com quem cruzava, tão indefesas nessa hora de transição entre duas rotinas. O poeta teria mais armas, reconheceu.

Entrou na Sete de Setembro, virou à esquerda na Travessa do Ouvidor e chegou à livraria. Enquanto corria os olhos pelo salão à procura das curvas que apreciava, escolheu um livro de poesias para folhear durante o café. Como sempre, ela estava lá, classificando livros, séria, com seus olhos redondos, a pele branca e as curvas que lhe inspiravam versos nunca escritos. Passou por ela desviando o olhar e se sentou em uma mesa em que poderia vê-la.

Sonetos. Eram sonetos. Menos mal, sempre achou o tempo de um soneto o mesmo de um café. Deviam ser lidos como se bebe um expresso, vagarosamente, sorvendo as palavras, sentindo as rimas excitarem as papilas gustativas da sensibilidade. À Luz do Poente. O título lembrou-lhe novamente as mulheres da Rio Branco e o fez dirigir o olhar para o salão da livraria, a imaginar como se ondulariam naquela calçada as curvas de seu desejo. “Se pudesse ser sonho o que se sente”; os versos o aqueciam em goles fumegantes e o faziam oferecer seus olhos como dois “vultos negros, solenes, desolados”. Vã oferenda, a que não se recebe, lamentou ao pagar a conta.

Foi com os olhos ainda quentes de poesia que cruzou por ela na saída, sentindo mais uma vez o olhar redondo de curiosidade, um olhar que, todos os sonhos tendo ruído, justificaria o fato de estar vivo. Seguiu pela Travessa do Ouvidor, retendo consigo, por mais um instante, o calor literário da musa de seus cafés, como se escrevesse poemas naquela pele, mas sabia que ela só existia encerrada nos limites daquelas estantes, não podendo fazer companhia ao Conde Xavier de Maistre no deleite de seus sentidos.

Já na Rio Branco, decidiu voltar de ônibus. Não queria repetir sua passagem pela física clássica e, além disso, a paisagem do Aterro lhe descansaria a visão. Sem paradas, o vento pelo rosto, o verde dos jardins, o Pão de Açúcar iluminado. No último sinal da avenida, observou pela última vez os detalhes da capa dura vermelha, orgulhando-se novamente de sua conquista e guardando-a cuidadosamente no bolso largo da calça: em outros trajetos iria lendo, mas não nesse.

Não se deu conta de como começou tudo. Só percebeu algo errado já com o cano do revólver encostado em seu rosto. A carteira, pediam a carteira. Mas que carteira, ele não usava carteira: seu dinheiro, seu pouco dinheiro levava sempre solto no bolso. Mas insistiam, pediam a carteira, a carteira, com sua imaginada fortuna.

A coronhada veio forte. A cabeça pendeu para o lado, enquanto uma mão rápida se enfiava no bolso de sua calça e arrancava com violência o livro, tão barato em preço e subitamente tão valorizado. O brilho de ódio naquele derradeiro olhar, ao ver que as notas eram outras, foi ofuscado pelo clarão do tiro. Dor, muita dor. O livro caiu girando, e em seu giro, estranhamente lento, seus olhos já nublados viram passar todo o poente, vermelho sangue, a cobrir antigos escritores, feiras desertas, calçadas geométricas, curvas inatingíveis. Amaldiçoava Heisenberg, quando um segundo estrondo trouxe a noite.

Fim

Desenferrujando os dedos

julho 14, 2012

Sem postar já há alguns meses,  recebi a força que faltava para escrever. Uma amiga que conheci há poucos dias no facebook começou a ler o blog e comentou alguns dos textos.  Agradeço a minha nova leitora por isso.

Nesse período de ostracismo, várias vezes eu tive  ideias de temas para textos, mas quando chegava em casa acabava perdendo o fôlego e ia adiando. Mas de hoje não passa.

Ainda tenho que aproveitar o embalo e também escrever o conto para o Concurso Literário da UFF, cujo tema é O CONTADOR DE HISTÓRIAS.  Escrever é tão bom.  Se já escrevo bastante em emails, facebook, fóruns, resenhas e fichamentos de livros, por que não faço o hábito de escrever aqui ser mais frequente? Questão de organização de tempo. Espero que volte a postar regularmente e quem sabe apareçam novos leitores.