Archive for fevereiro \27\UTC 2010

Ainda a cultura de e para crianças (e adolescentes)

fevereiro 27, 2010

Complemento o tema do último post, com algo que tem a ver com o que comecei a nele falar e também com o que escrevi no post sobre Bakhtin, quando comentei sobre o projeto desenvolvido lá no Liceu Nilo Peçanha.

Hoje, antes de jogar jornais velhos fora, fui passando os olhos no que de relevante tinha em cada um. Me detive por um bom tempo nessa tarefa até chegar num artigo do Zuenir Ventura falando sobre a formação de leitores, basicamente focando os adolescentes. Confesso que , no início do artigo, cheguei a ter a tendência a criticá-lo e pensei até em escrever para o autor do artigo. Mas essa vontade durou pouco tempo, e logo no início passei a ver que seu ponto-de-vista muito se aproximava do meu.  O motivo do meu inicial pré-conceito foi que ele citou alguns clássicos da literatura brasileira para criticar as escolas, que, assim, estariam de certa forma jogando contra, ou seja, ensinando como não formar leitores. A minha tendência inicial foi de reclamar. “Ora, como ele ousa falar mal de Lima Barreto, José de Alencar, Oswald de Andrade e Machado de Assis?”.  Mas logo vi que tal não era a intenção do autor, pois não falava mal desses grandes nomes de nossa literatura. Na verdade, ele criticava era uma falta de critério ou mesmo de bom senso para iniciar nossos jovens na literatura. Me lembrei que quando tinha meus 12/13 anos, sofria para ler quase todos os livros indicados na escola, tanto da literatura brasileira como da internacional . Só alguns que eu tive boas lembranças, como o húngaro “Meninos da Rua Paulo”, de Ferec Molnar, “As aventuras de Tom Sawyer” (que me incentivou a procurar na biblioteca “As aventuras de Huckleberry Finn”), ambos de Mark Twain. Esses foram livros lidos na fase que hoje é chamada de Ensino Fundamental, e lembro como capenguei para ler “O príncipe e o mendigo”, junto com algumas leituras que simplesmente detestei na época, como “Uma Nota de Cem”, “Memórias de um cabo de vassoura” e “O Menino de asas”.  Já contos maravilhosos de Machado de Assis, como “A Missa do Galo” ou “A cartomante”, eram lidos como se estivesse sendo forçado a carregar um saco de 30kg de cimento.  Por outro lado, no mesmo colégio, fui incentivado, e respondi positivamente, a escrever poesias. Durante um ano e meio, escrevia compulsivamente e até participei de um concurso de poesias, ficando em terceiro lugar. Lembro que, na escola, eu era um entre dezenas. Também escrevi junto com um grupo de 3 amigos, uma peça, que também foi inscrita num concurso, também terminando em terceiro lugar. Dificilmente eu e meus amigos teriam produzido algo se não fossem também bons leitores.

No Ensino Médio, gostei de “O Quinze”, mas recordo que o início foi de grande sofrimento até engrenar a leitura do romance de Raquel de Queiroz. “Música ao longe”, de Érico Veríssimo, foi de grande prazer, mas acredito que a professora de Português, Dona Judith, foi de grande importância para que tenhamos gostado do livro.  Já outra professora quis introduzir no grupo “Os Lusíadas”. Lembro que a turma tomou uma bronca tão grande com a professora que, nos bastidores, era chamada por nós de “amante de Camões”.  Logicamente, Camões não caiu no nosso gosto.

Quero deixar claro que gostava de ler. Pelo menos gostava bem mais do que a maior parte dos adolescentes com que convivia. Li a coleção completa da obra para crianças de Monteiro Lobato, sendo que alguns livros do Lobato eu cheguei a ler 4 ou 5 vezes.  Tinha o costume de me tornar sócio de bibliotecas, pegando às vezes dois ou três livros por vez. Quando ganhava um dinheiro extra, comprava gibis da Mônica, Cebolinha, Tio Patinhas e Pato Donald.  Isso mostra como um aluno que gostava de ler podia considerar tedioso a tarefa dada por nossos professores. Muitas das vezes o livro pode ser o certo, mas não é trabalhado da melhor forma, daí o resultado pode ser catastrófico.

Bem, essa questão de formação de leitores passa por várias questões, mas o primeiro ponto é o que o Zuenir tocou levemente, o do prazer da leitura. O ato de ler tem que andar junto com o sentimento de prazer. Não significará que os leitores acabarão transformando-se em escritores de contos (como hoje eu faço), quadrinhos (como o João, do post anterior), poesias, músicas, peças teatrais, telas ou qualquer outra forma que liberte sua criatividade, mas será importantíssima para a formação cultural desse leitor.

Bem, já é madrugada. Se tiver que acertar algo, amanhã eu edito.

Um abraço a meus poucos (e bons) leitores.

Anúncios

Cultura de e para crianças

fevereiro 27, 2010

Depois do último post, vinha pensando no que escrever. Coincidentemente, recebi um recado de minha irmã “paulista” e começamos a conversar sobre meu sobrinho e afilhado, este sim paulista. Cutucando no perfil do orkut de minha irmã, descobri que meu afilhado tinha um blog.  Pensei, vou ter que falar sobre isso.  Antes de continuar o tema em outro post, deixo abaixo o link para o blog. É interessante, como a criança é capaz de produzir textos, seja de que forma for, e muitas vezes esse produto é ignorado e descartado, quando não incentivado.  Minha outra irmã, que além de dirigir filmes, é uma das responsáveis pela Revista Zé Pereira, publicou num dos números um dos quadrinhos feitos pelo João, meu afilhado.  Pode ser que daqui a pouco ele se desinteresse e passe a curtir outras descobertas, mas garanto que essa fase será importantíssima na sua formação cultural.

Blog: http://www.joaodeazevedo.blogspot.com/

Revista Zé Pereira e os desenhos do João:

http://www.revistazepereira.com.br/plano-9/

http://www.revistazepereira.com.br/um-estranho-numa-terra-estranha/#comments

Clube de Leitura de Icaraí

fevereiro 23, 2010

Hoje vou falar de um grande projeto que é realizado aqui em Niterói. Um grupo de amantes de livros, talvez inspirados em outros clubes de leitura espalhados pelo mundo todo, decidiu se reunir mensalmente para discutir sobre um livro específico.   Isso aí foi lá no final de 1998. Esse grupo inicial começou a se reunir nas próprias casas dos participantes. Posteriormente, a Livraria Ver & Dicto, que funcionava na Rua Moreira César, em Icaraí, abriu as portas para a reunião do clube.  Em 2007 a livraria foi fechada e, assim, houve um hiato de mais de um ano até o retorno das reuniões do grupo. No final de 2008, o diretor da Editora da UFF e o vice-Reitor, Professor Emmanuel souberam do interesse do grupo em novamente se reunir e decidiram abrir as portas da Livraria da Editora para o Clube. Assim, a partir de outubro de 2008, com a leitura e discussão de DOM CASMURRO, de Machado de Assis, o clube tem funcionado nas dependências da Reitoria da UFF.  Um dos pontos interessantes do clube é que ele não tem uma tutela acadêmica, ou seja, não é coordenado por nenhum doutor em Literatura (nada contra eles, deixo bem claro, até porque sou também da área de Literatura), com participantes das mais diversas áreas,  tanto de nível Superior e Pós-Graduação como também de nível médio, de Matemática, Astronomia, Medicina, Pedagogia, Química, Psicologia, História e, por que não?, de Letras.

Quem for de Niterói, e quiser participar, será extremamente bem-vindo. O grupo se reuni todas as últimas sextas-feiras do mês no Hall da Reitoria da UFF, Rua Miguel de Frias, 9 – Icaraí. O próximo livro é “O Convidado Surpresa”, de Grégoire Bouillier, já na próxima sexta-feira, dia 26/02/2010.  Para março, o livro será “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa.

A seguir, postarei a lista dos livros já lidos (alguns mais de uma vez):

1 – “O DEUS DAS PEQUENAS COISAS” de Arundhati Roy em novembro/1998
2 – “ENSAIO SÔBRE A CEGUEIRA” de José Saramago em janeiro/1999
3 – “OS VERSOS SATÂNICOS” de Salman Rushdie em 23 de fevereiro de l999
4 – “ESAÚ E JACÓ” de Machado de Assis em l9 de junho de 1999
5 – “MARTIN DRESLER A HISTÓRIA DE UM SONHADOR AMERICANO” de Steven Milhauser em 24 de julho de 1999
6 – “A INVENÇÃO DA SOLIDÃO” de Paul Auster em outubro de 1999
7 – “MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA” de Arthur Golden em dezembro de 1999
8 – “O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO” de J.D.Salinger em abril de 2000
9 – “A LENDA DE MURASAKI” de Lisa Dalby em 31 de março de 2001
10 – “AQUELES CÃES MALDITOS DE ARQUELAU” de Isaias Pessotti em 5 de maio de 2001
11 – “MONTANHA MÁGICA” de Thomas Mann em 23 de junho de 2001
12 – “SHIVA” de A. B. Yehoshua em 4 de agosto de 2001
13 – “MADEIRA DE LEI” de Camilo José Cela em 22 de setembro de 2001
14 – “CAÇANDO CARNEIROS” de Haruki Murakami em 22 de setembro de 2001
15 – “ABRIL DESPEDAÇADO” de Ismael Kadaré em 20 de outubro de 2001
16 – “O LIVRO DA MINHA MÃE” de Albert Cohen em 11 de novembro de 2001
17 – “VORAGEM” de Junichiro Tanizaki em 9 de dezembro de 2001
18 – “O PADRE SERGIO” de Liev Tolstoi em 3 de fevereiro de 2002
19 – “A PESTE” de Albert Camus em 3 de fevereiro de 2002
20 – “AMANHÃ, NA BATALHA, PENSA EM MIM” de Javier Marias em 23 de março de 2002-
21 – “LAVOURA ARCAICA” de Raduan Nassar em 18 de maio de 2002-
22 – “A MORTE DE VISHNU” de Manil Suri em 13 de julho de 2002-
23 – “AS BRASAS” de Sándor Marai em 24 de agosto de 2002-
24 – “MEIA-VIDA” de V.S. Naipaul em 28 de setembro de 2002
25 – “DIAS E DIAS” de Ana Miranda em 19 de outubro de 2002
26 – “EU SERVÍ O REI DA INGLATERRA” de Bohumil Hraba em 23 de novembro de 2002
27 – “POMAR DE FAMÍLIA” de Nomi Eve em 25 de janeiro de 2003
28 – “REPARAÇÃO” de Ian McEwan em 15 de março de 2003-
29 – “AS HORAS” de Michael Cunningham em 12 de abril de 2003
30 – “ O JOGADOR “ de Feodor Dostoievski em 31 de maio de 2003
31 – “ DIÁRIO DE UM FESCENINO “ de Rubem Fonseca em 28 de junho de 2003
32 – “DENTES BRANCOS” de Zadie Smith em 02 de agosto de 2003
33 – “FAZES-ME FALTA” de Inês Pedrosa em 30 de agosto de 2003
34 – “QUANDO NIETZSCHE CHOROU” de Irvin D. Yalom em 18 de outubro de 2003-11-2
35 – “VIDA E ÉPOCA DE MICHAEL K” de J.M. Coetzee em 29 de novembro de 2003
36 – “A CONTROVÉRSIA” de Jean-Claude Carrière em 24 de janeiro de 2004-07-04
37 – “O DIÁRIO DE UM VELHO LOUCO” de Jun’Ichiro Tanizaki em 6 de março de 2004
38 – “DIVÓRCIO EM BUDA” de Sandor Márai em24 de abril de 2004
39 – “VOZES DO DESERTO” DE Nélida Piñon em 29 de maio de 2004
40 – “NOITE DO ORÁCULO” de Paul Auster em 26 de junho de 2004
41 – “A LOUCA DA CASA” de Rosa Montero em 7 de agosto de 2004
42 – “REBELDES” de Sándor Marai setembro/2004
43 – “SOM E FÚRIA” de William Faulkner 11/set./2004
44 – “A VIAGEM VERTICAL” de Enrique Vila-Mata outubro/2004
45 – “VALSA NEGRA” de Patrícia Melo dezembro/2004
46 – “OS PONTEIROS DESENCONTRADOS” de Flávio Moreira da Costa – 11/janeiro/2005
47 – “SOB O PESO DAS SOMBRAS” de Francisco J.C.Dantas 12/fevereiro/2005
48 – “MONGÓLIA” de Bernardo Carvalho – 02/abril/2005
49 – “A FILHA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS” de Saira Shah – 07/maio/2005
50 – “O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO” de Mia Couto – 11/junho/2005
51 – “TERRORISTAS DO MILÊNIO” de J.G.Ballard 23/julho/2005
52 – “MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES” de Gabriel Garcia Marques –
06/agosto/2005
53 – “DESVARIOS NO BROOKLYN” de Paul Auster – 17/setembro/2005
54 – “EQUADOR” de Miguel Souza Tavares – 29/outubro/2005
55 – A Cura de Schopenhauer – Irvin D. Yalom – 3/12/2005
56 – O Sonho Mais Doce – Doris Lessing – 14/01/2006
57 – Memórias de Adriano – Marguerite Yourcenar – 11/03/2006
58 – Cinzas do Norte – Milton Hatoum – 08/04/2006
59 – A SOMBRA DO VENTO – CARLOS RUIZ ZAFON – 6/05/2006
60 – Sábado – Ian McEwan – 10/06/2006
61 – OS VENDILHÕES DO TEMPLO – MOACYR SCLIAR – 22/07/2006
62 – SILÊNCIO EM OUTUBRO : GRONDAHL, JENS CHRISTIAN – 19/8/2006
63 – O REI MORREU : JIM LEWIS – 30/09/2006
64 – O CAÇADOR DE PIPAS : KHALED HOSSEINI – 11/11/2006
65 – A DISTÂNCIA ENTRE NÓS : THRITY UMRIGAR – 9/12/2006
66 – O QUE VEM DA SUA BOCA : NANCY RICHLER – 27/01/2007
67 – ADEUS, COLUMBUS : PHILIP ROTH – 10/03/2007
68 – TRAVESSURAS DA MENINA MÁ : MARIO VARGAS LLOSA – 14/04/2007 (última leitura na Ver & Dicto)

Fase da Livraria da EdUFF (reunião na última sexta-feira mensal)

69 – Ensaio sobre Cegueira – José Saramago – (releitura) – 31/10/2008
70 – Dom Casmurro – Machado de Assis – 28/11/2008
71 – A filha do escritor – Gustavo Bernardo – 30/01/2009 – participação especial do autor
72 – Órfãos do Eldorado: Milton Hatoum – 27/02/2009
73 – A Elegância do Ouriço: Muriel Barbery – 27/3/2009
74 – Dois Irmãos: Milton Hatoum – 24/4/2009
75 – Leite Derramado: Chico Buarque – 29/05/2009
76 – Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévsky – 25/06/2009 (excepcionalmente em uma quinta-feira) para participação especial do prof. Paulo Bezerra, tradutor da obra
77 – Elogio da Madrasta – Mário Vargas Llosa – 31/07/2009
78 – A Consciência de Zeno: Italo Svevo – 28/08/2009
79 – Os Sertões: Euclides da Cunha – 20/09/2009 – 18:00 h – Bienal do Livro Riocentro
80 – Em Liberdade – Silviano Santiago – 25/09/2009 – participação especial do autor
81 – O Filho Eterno – Cristóvão Tezza – 30/10/2009
82 – Lavoura Arcaica – Raduan Nassar – 27/11/2009
83 – São Bernardo – Graciliano Ramos – 29/01/2010
84 – O Convidado Surpresa – Grégoire Bouillier – 26/2/2010
85 – Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa – 26/3/2010

Relação de amor e ódio por Bakhtin – II

fevereiro 23, 2010

Meu primeiro contato com Bakhtin foi no curso de Letras, na disciplina Teoria da Literatura II, com o livro “Problemas da Poética de Dostoiévski”, que por sinal foi traduzido pelo professor da disciplina, Paulo Bezerra, um professor que morou por vários anos na Rússia e entende tudo de Bakhtin e Dostoiévski. Confesso que esse primeiro contato foi tenebroso… mas depois veio um curso sobre Gêneros Textuais com um estudo leve, porém mais aprofundado de Bakhtin numa das aulas. Vi ali que algumas idéias que eu tinha sobre Educação muito se aproximavam com as do russo, principalmente a polifonia e o dialogismo. A questão do dialogismo também era ligada a minha área preferida: a literatura.

Num projeto que desenvolvi com um grande amigo no Liceu Nilo Peçanha denominado “Desmitificando Shakespeare no Ensino Médio: uma (re)leitura de ‘Sonho de uma noite de verão’ “, novamente vi me aproximando das idéias de Bakhtin. Nesse projeto, usamos a comédia de Shakespeare que fazia parte do título do projeto para, em poucos meses, trabalhar inicialmente a parte da interpretação de textos em inglês por duas turmas do Liceu Nilo Peçanha e posteriomente passamos a trabalhar a produção de textos pelos alunos, que eram responsáveis pela produção de novos textos inspirados na citada comédia de Shakespeare.  Embora os resultados poderiam ter sido bem melhores, foi um dos trabalhos mais gratificantes de que participei.  No total, incluindo o primeiro contato com os alunos do colégio onde estudei no Ensino Médio no final da década de 70 e o desenvolvimento do projeto propriamente dito foram cerca de 15 meses.  Hoje quando encontro alunos com os quais trabalhei no Liceu, sendo que alguns estão estudando na mesma UFF onde trabalho e estudei, sempre são momentos especiais.

Voltando ao Bakhtin, no ano passado apareceu a oportunidade de eu fazer uma disciplina como aluno ouvinte no Mestrado em Educação da UFF, cujo trabalho especial era estudar Bakhtin. O livro estudado era “Marxismo e filosofia da linguagem”.  Embora muitos admiradores e especialistas bakhtinianos citem esse livro como o ideal para que os que querem principiar o estudo da obra de Bakhtin, eu o considero como muito difícil.  Nessa disciplina encontrei alunos de todas as áreas. O engraçado é que às vezes ocorria de um ou dois parágrafos serem responsáveis por uma discussão que levava mais de uma hora, de tão profundo que era o assunto. Como as aulas coincidiam com os dias de exames clínicos previamente marcados, acabei perdendo boa parte das aulas, mas só aquelas aulas já foram responsáveis por um grande ganho sobre o filósofo russo.  Ao mesmo tempo, eu fazia a monografia do Curso de Pós-Graduação em Literatura Infanto-Juvenil na UFF, que envolvia a presença da cultura popular na literatura, usando como corpus o livro Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos.  E mais uma vez me ancorei em Bakhtin, pois ele tem em sua obra um livro que foi resultado de sua tese de doutorado, chamado Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Esse livro também me ajudou no projeto que preparei para participar da Seleção do Mestrado em Letras, o qual ainda carece de melhorias.

Quem lê isso pode achar que eu seja apaixonado por Bakhtin… Na realidade, eu vejo que me aproximo de algumas de suas idéias, pelo menos aquelas que consegui captar. Muitas das coisas que ele escreveu, e que pude ler, me causaram um grande tormento, pois por mais que eu lesse e relesse, não faziam algo fácil de ser relacionado ao mundo real. Por vezes pareciam idéias produzidas por alguém que entrava em transe psicótico na hora de escrevê-las.  A citada amiga do início do primeiro post sobre Bakhtin é um bom exemplo das pessoas que não enxergam o mínimo de sentido prático, principalmente pelo modo como ele escreve.  Outras pessoas não gostam dele justamente por causa da linguagem por ele utilizada.  Tive a curiosidade de procurar no Orkut comunidades sobre Bakhtin e, para minha surpresa, só havia uma comunidade do tipo ‘eu odeio Bakhtin’ e só com 5 participantes, enquanto as de estudos ou que envolviam homenagens ao russo tinham algumas mais de 2.000 e outras menores com centenas de participantes.

Enquanto isso, continuarei ouvindo as várias vozes bakhtinianas, curtindo vários processos dialógicos, sempre naquilo que consta do título, a relação de amor e ódio, das sensações de ver tudo bem claro e de estar perdido por não entender nada do que o diabo do russo diz. Possivelmente esbarrarei outras vezes em conceitos, reflexões e noções pertinentes a Bakhtin, e continuarei colecionando perguntas e questionamentos sobre os mesmos conceitos, reflexões e noções.

Um abraço e espero embalar novamente.

A relação de amor e ódio por Bakhtin – I

fevereiro 22, 2010

Volto a escrever após me sentir incentivado pela leitura do blog de um amigo,http://pelife.blogspot.com/, amigo esse lá do Fluonline – http://www.fluonline.com.br – fórum de torcedores do Fluminense do qual participo há 5 anos (sem contar a fase Fluforum, com quase os mesmos participantes). Quem  chegou a ler os primeiros tópicos que eu postei aqui neste blog deve estar tentando imaginar que raios é esse nome que aparece no título. Ou mesmo quem conhece Bakhtin, pensará o que aconteceu para eu decidir postar algo sobre o filósofo russo depois de ter postado por último sobre o Fernando Henrique, goleiro afastado do Fluminense há alguns meses (acho que a campanha do blog deu certo).

Como estou com preguiça de pensar no que escrever para falar sobre Bakhtin, e também por não me considerar nem de longe um expert Bakhtiniano, vou usar o velho wikipedia para esse fim…  e depois vamos ao que interessa. (tá bom, nem sempre o wikipedia é confiável, mas pelo que li, não tem nada de errado no texto).  Mas só postarei o princípio do artigo:

“Nascido em Orel, localidade a sul de Moscovo, de família aristocrática em decadência, cresceu entre Vínius e Odessa, cidades fronteiriças com grande variedade de línguas e culturas. Mais tarde, estudou Filosofia e Letras na Universidade de São Petersburgo, abordando em profundidade a formação em filosofia alemã.

Viveu em Leningrado após a vitória da revolução em 1917. Entre os anos 24 e 29 conheceu os principais expoentes do Formalismo russo e publicou Freudismo (1927), O método formal nos estudos literários (1928) e Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), sendo esta última talvez a sua obra mais célebre. Assinada com o nome de seu amigo e discípulo Volochínov, só a partir dos anos 70 teve difusão e reconhecimento importantes, e apenas recentemente é que veio a ser confirmada a sua autoria (Bakhtin concedeu a atribuição de diversos de seus textos a colegas). Em 1929, foi obrigado ao exílio interno no Cazaquistão acusado de envolvimento em actividades ilegais ligadas à Igreja Ortodoxa, o que nunca viria a ser demonstrado. Ficaria no Cazaquistão até 1936.

Mais tarde, ver-se-ia forçado ao exílio a Saransk (capital da Mordóvia) durante a purga de 1937. Em 1941 lê a tese de doutoramento no Instituto Gorki, de Moscovo, voltando a Saransk como catedrático após a Segunda Guerra Mundial , e sendo redescoberto como teórico por estudantes da capital russa a seguir à morte de Estaline e sobretudo na década de 60. Os seus trabalhos só foram conhecidos no Ocidente progressivamente a partir da década de 80, atingindo grande prestígio e referencialidade póstuma nos anos 90 e até à actualidade.

Seu trabalho é considerado influente na área de teoria literária, crítica literária, sociolingüística, análise do discurso e semiótica. Bakhtin é na verdade um filósofo da linguagem e sua lingüística é considerada uma “trans-lingüística” porque ela ultrapassa a visão de língua como sistema. Isso porque, para Bakhtin, não se pode entender a língua isoladamente, mas qualquer análise lingüística deve incluir fatores extra-lingüisticos como contexto de fala, a relação do falante com o ouvinte, momento histórico, etc.

(…)

Conceitos fundamentais associados à obra de Bakhtin incluem o dialogismo, a Polifonia (linguística), a heteroglossia e o carnavalesco.

Todos eles se afirmam na sua teoria literária, formulada principalmente na sua tese de doutoramento: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1941), em que rechaça a norma unívoca e a rigidez dos padrões e estilos. Reivindica a ambivalência, o discurso carnavalesco, amplo, polifónico e dialógico. Opõe-se à unidirecionalidade da retórica clássica e reivindica uma interpretação participativa, integradora, social, diversa e múltipla na construção da obra literária.”

Após essa encheção de linguiça, vou explicar. Encontrei hoje uma amiga, Aline, que estudou comigo na Pós-Graduação, e conversava sobre meu interesse em fazer uma disciplina como crédito avulso numa disciplina do Mestrado em Literatura de Língua Inglesa na UFF, mas que ainda dependia de conseguir liberação ou troca de horário no dia da tal disciplina. Eu já havia enviado para essa amiga o organograma da tal disciplina, que versava sobre a literatura contemporânea norte-americana, e nele havia uma carga de leitura incrível, não só de textos literários, mas também, e principalmente, de textos teóricos. Dentre os teóricos, tinha, dentre outros, Jameson e o nosso amiguinho dali de cima. Conversamos então sobre a loucura que era na Graduação, e porque também não dizer na Pós, de ler Bakhtin, de entender Bakhtin.  Nem todos os professores ousavam de colocar suas obras  em suas bibliografias básicas, possivelmente porque temiam que encontrassem alunos que viessem com questionamentos que não pudessem ser respondidos.  Não li tanto sobre ele, mas do pouco (talvez seja muito para alguns),  sempre tinha mais perguntas do que respostas.  A sua nacionalidade já servia como algo que, de certa forma, causava medo em quem se confrontava com algum livro dele.   Isso é verdade. Pensem bem como deve ser a recepção de um estudante ao saber que vai estudar, sem saber o nome, um autor francês ou inglês e a que ele terá se esse autor for russo.   Claro que isso vem mais de um pré-conceito internalizado por muita gente, mas não é desprezível.  Os primeiros contatos com Bakhtin, pelo menos os momentos que tive e os que observei de alunos da UFF ou de depoimentos de vários mestrandos em Educação, a cujas defesas de dissertações eu assisti lá na UFF, davam também a idéia de um autor com idéias super interessantes, mas que precisavam de tempo para melhor assimilação.

(continua no próximo post)