Relação de amor e ódio por Bakhtin – II

Meu primeiro contato com Bakhtin foi no curso de Letras, na disciplina Teoria da Literatura II, com o livro “Problemas da Poética de Dostoiévski”, que por sinal foi traduzido pelo professor da disciplina, Paulo Bezerra, um professor que morou por vários anos na Rússia e entende tudo de Bakhtin e Dostoiévski. Confesso que esse primeiro contato foi tenebroso… mas depois veio um curso sobre Gêneros Textuais com um estudo leve, porém mais aprofundado de Bakhtin numa das aulas. Vi ali que algumas idéias que eu tinha sobre Educação muito se aproximavam com as do russo, principalmente a polifonia e o dialogismo. A questão do dialogismo também era ligada a minha área preferida: a literatura.

Num projeto que desenvolvi com um grande amigo no Liceu Nilo Peçanha denominado “Desmitificando Shakespeare no Ensino Médio: uma (re)leitura de ‘Sonho de uma noite de verão’ “, novamente vi me aproximando das idéias de Bakhtin. Nesse projeto, usamos a comédia de Shakespeare que fazia parte do título do projeto para, em poucos meses, trabalhar inicialmente a parte da interpretação de textos em inglês por duas turmas do Liceu Nilo Peçanha e posteriomente passamos a trabalhar a produção de textos pelos alunos, que eram responsáveis pela produção de novos textos inspirados na citada comédia de Shakespeare.  Embora os resultados poderiam ter sido bem melhores, foi um dos trabalhos mais gratificantes de que participei.  No total, incluindo o primeiro contato com os alunos do colégio onde estudei no Ensino Médio no final da década de 70 e o desenvolvimento do projeto propriamente dito foram cerca de 15 meses.  Hoje quando encontro alunos com os quais trabalhei no Liceu, sendo que alguns estão estudando na mesma UFF onde trabalho e estudei, sempre são momentos especiais.

Voltando ao Bakhtin, no ano passado apareceu a oportunidade de eu fazer uma disciplina como aluno ouvinte no Mestrado em Educação da UFF, cujo trabalho especial era estudar Bakhtin. O livro estudado era “Marxismo e filosofia da linguagem”.  Embora muitos admiradores e especialistas bakhtinianos citem esse livro como o ideal para que os que querem principiar o estudo da obra de Bakhtin, eu o considero como muito difícil.  Nessa disciplina encontrei alunos de todas as áreas. O engraçado é que às vezes ocorria de um ou dois parágrafos serem responsáveis por uma discussão que levava mais de uma hora, de tão profundo que era o assunto. Como as aulas coincidiam com os dias de exames clínicos previamente marcados, acabei perdendo boa parte das aulas, mas só aquelas aulas já foram responsáveis por um grande ganho sobre o filósofo russo.  Ao mesmo tempo, eu fazia a monografia do Curso de Pós-Graduação em Literatura Infanto-Juvenil na UFF, que envolvia a presença da cultura popular na literatura, usando como corpus o livro Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos.  E mais uma vez me ancorei em Bakhtin, pois ele tem em sua obra um livro que foi resultado de sua tese de doutorado, chamado Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Esse livro também me ajudou no projeto que preparei para participar da Seleção do Mestrado em Letras, o qual ainda carece de melhorias.

Quem lê isso pode achar que eu seja apaixonado por Bakhtin… Na realidade, eu vejo que me aproximo de algumas de suas idéias, pelo menos aquelas que consegui captar. Muitas das coisas que ele escreveu, e que pude ler, me causaram um grande tormento, pois por mais que eu lesse e relesse, não faziam algo fácil de ser relacionado ao mundo real. Por vezes pareciam idéias produzidas por alguém que entrava em transe psicótico na hora de escrevê-las.  A citada amiga do início do primeiro post sobre Bakhtin é um bom exemplo das pessoas que não enxergam o mínimo de sentido prático, principalmente pelo modo como ele escreve.  Outras pessoas não gostam dele justamente por causa da linguagem por ele utilizada.  Tive a curiosidade de procurar no Orkut comunidades sobre Bakhtin e, para minha surpresa, só havia uma comunidade do tipo ‘eu odeio Bakhtin’ e só com 5 participantes, enquanto as de estudos ou que envolviam homenagens ao russo tinham algumas mais de 2.000 e outras menores com centenas de participantes.

Enquanto isso, continuarei ouvindo as várias vozes bakhtinianas, curtindo vários processos dialógicos, sempre naquilo que consta do título, a relação de amor e ódio, das sensações de ver tudo bem claro e de estar perdido por não entender nada do que o diabo do russo diz. Possivelmente esbarrarei outras vezes em conceitos, reflexões e noções pertinentes a Bakhtin, e continuarei colecionando perguntas e questionamentos sobre os mesmos conceitos, reflexões e noções.

Um abraço e espero embalar novamente.

Anúncios

3 Respostas to “Relação de amor e ódio por Bakhtin – II”

  1. Eloisa Helena Says:

    Seu texto carrega riqueza de informações.Que vontade me dá fazer um curso sobre Bakhtin.E seu projeto com obras de Shakeasperare?Gostaria de conhecê-lo melhor9o projeto). de aplicar seu projeto num grupo de leitura que estou organizando num Colégio Esadual. Se tiver cópia de seu projeto e puder levar pra mim, agradecerei.Darei a você os créditos, durante o processo de leitura.Quem sabe não possamos receber sua visita?
    Abraços,
    Elô
    Parabéns!!!

  2. eloisa helenam Rodrigues Says:

    Que ótimo , Benites! Ficarei feliz se me der uma cópia.
    Bjs.
    Elô

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: