Ainda a cultura de e para crianças (e adolescentes)

Complemento o tema do último post, com algo que tem a ver com o que comecei a nele falar e também com o que escrevi no post sobre Bakhtin, quando comentei sobre o projeto desenvolvido lá no Liceu Nilo Peçanha.

Hoje, antes de jogar jornais velhos fora, fui passando os olhos no que de relevante tinha em cada um. Me detive por um bom tempo nessa tarefa até chegar num artigo do Zuenir Ventura falando sobre a formação de leitores, basicamente focando os adolescentes. Confesso que , no início do artigo, cheguei a ter a tendência a criticá-lo e pensei até em escrever para o autor do artigo. Mas essa vontade durou pouco tempo, e logo no início passei a ver que seu ponto-de-vista muito se aproximava do meu.  O motivo do meu inicial pré-conceito foi que ele citou alguns clássicos da literatura brasileira para criticar as escolas, que, assim, estariam de certa forma jogando contra, ou seja, ensinando como não formar leitores. A minha tendência inicial foi de reclamar. “Ora, como ele ousa falar mal de Lima Barreto, José de Alencar, Oswald de Andrade e Machado de Assis?”.  Mas logo vi que tal não era a intenção do autor, pois não falava mal desses grandes nomes de nossa literatura. Na verdade, ele criticava era uma falta de critério ou mesmo de bom senso para iniciar nossos jovens na literatura. Me lembrei que quando tinha meus 12/13 anos, sofria para ler quase todos os livros indicados na escola, tanto da literatura brasileira como da internacional . Só alguns que eu tive boas lembranças, como o húngaro “Meninos da Rua Paulo”, de Ferec Molnar, “As aventuras de Tom Sawyer” (que me incentivou a procurar na biblioteca “As aventuras de Huckleberry Finn”), ambos de Mark Twain. Esses foram livros lidos na fase que hoje é chamada de Ensino Fundamental, e lembro como capenguei para ler “O príncipe e o mendigo”, junto com algumas leituras que simplesmente detestei na época, como “Uma Nota de Cem”, “Memórias de um cabo de vassoura” e “O Menino de asas”.  Já contos maravilhosos de Machado de Assis, como “A Missa do Galo” ou “A cartomante”, eram lidos como se estivesse sendo forçado a carregar um saco de 30kg de cimento.  Por outro lado, no mesmo colégio, fui incentivado, e respondi positivamente, a escrever poesias. Durante um ano e meio, escrevia compulsivamente e até participei de um concurso de poesias, ficando em terceiro lugar. Lembro que, na escola, eu era um entre dezenas. Também escrevi junto com um grupo de 3 amigos, uma peça, que também foi inscrita num concurso, também terminando em terceiro lugar. Dificilmente eu e meus amigos teriam produzido algo se não fossem também bons leitores.

No Ensino Médio, gostei de “O Quinze”, mas recordo que o início foi de grande sofrimento até engrenar a leitura do romance de Raquel de Queiroz. “Música ao longe”, de Érico Veríssimo, foi de grande prazer, mas acredito que a professora de Português, Dona Judith, foi de grande importância para que tenhamos gostado do livro.  Já outra professora quis introduzir no grupo “Os Lusíadas”. Lembro que a turma tomou uma bronca tão grande com a professora que, nos bastidores, era chamada por nós de “amante de Camões”.  Logicamente, Camões não caiu no nosso gosto.

Quero deixar claro que gostava de ler. Pelo menos gostava bem mais do que a maior parte dos adolescentes com que convivia. Li a coleção completa da obra para crianças de Monteiro Lobato, sendo que alguns livros do Lobato eu cheguei a ler 4 ou 5 vezes.  Tinha o costume de me tornar sócio de bibliotecas, pegando às vezes dois ou três livros por vez. Quando ganhava um dinheiro extra, comprava gibis da Mônica, Cebolinha, Tio Patinhas e Pato Donald.  Isso mostra como um aluno que gostava de ler podia considerar tedioso a tarefa dada por nossos professores. Muitas das vezes o livro pode ser o certo, mas não é trabalhado da melhor forma, daí o resultado pode ser catastrófico.

Bem, essa questão de formação de leitores passa por várias questões, mas o primeiro ponto é o que o Zuenir tocou levemente, o do prazer da leitura. O ato de ler tem que andar junto com o sentimento de prazer. Não significará que os leitores acabarão transformando-se em escritores de contos (como hoje eu faço), quadrinhos (como o João, do post anterior), poesias, músicas, peças teatrais, telas ou qualquer outra forma que liberte sua criatividade, mas será importantíssima para a formação cultural desse leitor.

Bem, já é madrugada. Se tiver que acertar algo, amanhã eu edito.

Um abraço a meus poucos (e bons) leitores.

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4 Respostas to “Ainda a cultura de e para crianças (e adolescentes)”

  1. eloisa helenam Rodrigues Says:

    Boas reflexões, Benites. Sempre fui a favor do prazer em leitura.
    O que vejo hoje, muitas da vezes , é uma leitura didática, sem trabalho artístico da linguagem.O famosso caderno de respostas que não permite a muitos o avançar da imaginação. Oferecer algumas obras a leitores despreparados, inexperientes, é um crime contra a Literatura. O professor que não ama ler deveria ser proibido de trabalhá-la, pois bom sujeito não é..rsrspelo menos para o cultivar da leitura!
    Abraços
    Elô
    Ah , comentei o blog do seu sobrinho.

  2. eloisa helena m. rodrigues Says:

    Boas reflexões, Benites. Sempre fui a favor do prazer em leitura.
    O que vejo hoje, muitas da vezes , é uma leitura didática, sem trabalho artístico da linguagem.O famosso caderno de respostas que não permite a muitos o avançar da imaginação. Oferecer algumas obras a leitores despreparados, inexperientes, é um crime contra a Literatura. O professor que não ama ler deveria ser proibido de trabalhá-la, pois bom sujeito não é..rsrspelo menos para o cultivar da leitura!
    Abraços
    Elô

  3. Luís Miscow Says:

    Que grata surpresa descobrir que você voltou a escrever no blog, Benites! Passarei sempre aqui! Abs!

    • Carlos Benites Says:

      Valeu, Luís.
      Tenho que manter a disciplina. O problema é que eu penso muito em futebol, e em consequência no Fluminense, e acaba por não me permitir escrever mais… Mas ainda persisto.
      Abraço

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