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Além Tejo – de Catarina Pereira Araújo

novembro 20, 2010

Recebi o livro acima de presente de minha amiga Lilian Azevedo, recém chegada de Lisboa.  Comecei a percorrer suas linhas assim que vinha do trabalho, e logo vi que não dá para parar. `Posso estar enganado, mas, ao que tudo indica, será uma leitura bastante cativante. Ultimamente tenho mantido mais contato com a literatura portuguesa.  Se antes era só de Camões, Saramago, Pessoa, Eça, Camilo Castelo Branco e todos aqueles que tive contato nos dois semestres de Literatura Portuguesa na UFF, passei a ler recentemente outros portugueses igualmente talentosos, como Alice Vieira eMia Couto.  Espero que Catarina Pereira Araújo também entre nesse time.

Por falar na autora, vasculhei pela net e encontrei seu blog, que faço questão de indicá-lo. Chama-se O portal dos sonhos e você o encontra aqui: http://oportaldossonhos.blogspot.com/

O livro também tem um blog: http://alemtejolivro.blogspot.com/

Abaixo, uma sinopse do livro:

Além Tejo é uma fascinante saga familiar, uma deliciosa história de amor e um testemunho vívido do Portugal amordaçado pela ditadura e o obscurantismo.
Estamos na década de cinquenta e a família de António do Couto Maia deixa Lisboa para se fixar em Moura, no Alentejo. A decisão é do chefe de família e surpreende tanto a mulher como as filhas, que não compreendem o que leva um homem de meia-idade a abandonar subitamente a sua confortável vida na capital para mergulhar num Alentejo desconhecido.
É através do olhar inquiridor de Isabel, a filha mais velha, que assistimos ao conflito entre dois mundos: o da cidade, representado pelos recém-chegados, e o mundo rural, que os recebe com desconfiança. Inicialmente atraída pela beleza da vila alentejana, a jovem é confrontada com a prepotência dos senhores e com a miséria dos camponeses, num lugar onde qualquer tentativa de mudança é imediatamente esmagada. O seu sentido de justiça leva-a a colidir com Eduardo Leôncio Teles, o herdeiro da maior fortuna da região, iludindo, assim, a forte atracção que sente por ele. Ao mesmo tempo, Isabel envolve-se nos acontecimentos da vida rural, enquanto tenta descobrir o segredo que levou o pai a esconder-se no Alentejo, arrastando a família para uma existência tão difícil.

(retirado do blog: http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.com/2010/06/alem-tejo-de-catarina-pereira-araujo.html )

Os diários de Capitu

novembro 7, 2010

Os diários de C.

Carlos Benites

Dizem que num diário uma mulher é mais fiel aos acontecimentos de sua vida do que num confessionário. Meio que por acaso, veio parar em minhas mãos, o diário que contém os fatos que irei narrar em seguida. A convite de um amigo, fui a um leilão público no Centro do Rio, a princípio só para acompanhá-lo. Meu amigo foi com a intenção única de adquirir uma rara edição de Esaú e Jacó. O evento ia se desenrolando, com apenas um breve intervalo para o café, quando o leiloeiro anunciou, com clara má vontade, um volume composto de uma caixa de papelão, pouco maior que uma caixa de sapatos, com 5 diários datados do final do século XIX e que faziam parte de um acervo familiar. O cavalheiro sentado a meu lado cochichou que já era a terceira tentativa do leiloeiro de vender o produto, e que o preço inicial já era a metade do que fora anunciado no primeiro dia. Todo o restante do acervo da família, fotos e móveis, já tinham sido vendidos. Restavam os diários. De repente, um ímpeto me fez levantar a mão e balbuciar “cem reais”, e cheguei a pensar que ninguém ouvira. O leiloeiro imediatamente voltou-se para mim, e aí eu, mais forte, repeti: CEM REAIS.

Cada um dos diários era forrado com tecido azul já desbotado. O estado de conservação era impressionante bom para o tempo decorrido. O primeiro volume continha inicialmente anotações da mãe de uma menina, em 1840, sobre suas primeiras peripécias, primeira vez que começou a andar, machucou o braço, etc. até quando a menina aprendeu a escrever e passou a colocar suas primeiras palavras, as aulas de catecismo, ditados que lhe eram passados de algumas palavras, e depois passou a servir unicamente a contar o que a dona dos cadernos fizera. A dona dos diários assinava apenas C. e morava no Rio de Janeiro.  O último parecia que datava em torno de 1890, pois a partir de uma viagem ao exterior, ela parece que parou de contar o tempo, ainda assinados por C., na Suíça.  Supus que lá ela morreu, pois nada mais foi escrito.

Demorei a começar a ler o que arrematara, mas ao terminar de lê-los num fôlego só, percebi que tinha um tesouro diante de mim. Caso tivesse condições, teria pago 10 vezes mais. Primeiro, porque era um relato de época, com registros muito interessantes sobre o fim do período imperial no Rio de Janeiro, com os costumes da sociedade. Mas o aspecto pessoal daquela menina/mulher foi o que mais me intrigou. Ficava por horas pensando naquela mulher. Lembrei de uma das primeiras palavras do livro do peruano Vargas Llosa, Conversas na Catedral: “Em que momento o Peru tinha se fodido? (…) Zavalita era como o Peru, tinha se fodido num certo momento: em qual?” Zavalita não sabia. Será que C. saberia se a mesma pergunta fosse dirigida a ela?

A família de C. era muito simples, mas um prêmio de um bilhete da loteria e uma promoção temporária do pai de C. na repartição em que trabalhava fizeram com que comprassem uma casa na rua de Mata Cavalos. Passaram a ter uma vida bem melhor, e a temporariedade era acreditada que fosse eterna pelo pai de C. e assim ele recebeu desvairadamente a notícia de que a interinidade acabara. Acostumara-se à vida de festas, de sapatos de verniz, jóias para a mulher, leilões e outras seduções que o dinheiro lhe dera. Queria se matar. Foi aí que entrou em cena D. Glória, uma vizinha de uma casa bem maior que a deles, e que conseguiu convencer o pai de C. da estúpida idéia. Dona Glória era mãe de Bentinho. Quando C. se mudara, não era tão próxima de Bentinho, mas aquele episódio fizera com que as duas famílias se aproximassem bastante. C. começou a reparar mais em Bentinho e Bentinho a olhar mais para C. O amor foi acontecendo aos poucos. Certo dia, C. rabiscou os nomes dos dois no muro que separava suas casas, e foi surpreendida por Bentinho, justamente quando terminava a arte. Ficou sem ação por instantes, mas logo tentou estragar sua obra, dando um risco sobre os nomes para que ele não conseguisse ler, mas foi inócua sua ação e Bentinho pode ler. Ficaram longos segundos, que pareciam horas, se olhando. A aflição de ser pega em flagrante misturava-se a muitos outros sentimentos de prazer e fez com que seu coração disparasse. A longa e silenciosa troca de olhares foi interrompida com a chegada do pai de C., mas a cumplicidade silenciosa entre os dois despertou algo maior.

“Será que estão de namoro?”, ouviu C. um dia ao passar pela porta da casa de Bentinho. Era o senhor José Dias, que usava e abusava dos superlativos para se referir às pessoas. Dotava de muito prestígio na família de Bentinho, mesmo não sendo parente. O tempo o transformou de um Iago envenenando a mente de Othelo a uma pessoa boníssima, que se afeiçoou a C. Mas a fase Iago foi muito marcante. Um outro comentário feito por ele, e ouvido por uma das empregadas da casa de Bentinho, diziam sobre o seu olhar, “de ressaca”, e sobre sua dissimulação. C. se perguntava sobre o que teria feito para que alguém pensasse sobre ela dessa maneira.  Mas de nada valeria um Iago se não houvesse um Othelo aberto para ouvi-lo.  E C., com o passar do tempo, sentia que José Dias arrependera-se de seu Iago. C. tinha até então muita admiração por D. Glória, desde que ela salvou seu pai. Mas a admiração não foi suficiente para tirar dela as palavras “carola, papa-missas”, ao saber que o seu desejo era que Bentinho fosse estudar no seminário e tornar-se padre, em função de uma promessa antiga. Tentaram de tudo para que a promessa não fosse cumprida. Ou pelo menos C. tentava. Não que C. entendesse que Bentinho não a amava, mas a forte ligação de mãe e filho impedia que Bentinho se esforçasse ao máximo para enfrentar o desejo da mãe e a fizesse desistir do compromisso. Mas acabaram chegando a um plano que era um meio-termo entre o que eles desejavam e o que D. Glória queria. Bentinho iria para o Seminário, mas não se tornaria padre. Claro que a segunda parte do plano não era do conhecimento de D. Glória, mas eles iriam esperar.

E não só Iagos servem para envenenar um relacionamento. O tempo de afastamento se encarregava do restante. No seminário Bentinho conheceu Escobar, que logo se afeiçoou não só a Bentinho, como a toda sua família. Logo eram confidentes, e Bentinho lhe contava o segredo sobre seus sentimentos em relação a C. Ao saber de Escobar, e do prestígio que tinha com Bentinho, C. ficou reticente de princípio, pois achava que o segredo era só deles, mas aceitou a situação, já que não tinha como ser modificada. Outro motivo que C. externou em seus diários era o de que Bentinho passava grande parte do tempo com Escobar e assim quem acabava por fazer maior parte do tempo da vida do Bentinho era o amigo seminarista. Um outro traço uniu os dois amigos, já que ambos não pretendiam seguir a vida religiosa. Mas a saída de Bentinho não foi tão difícil como esperavam. O próprio amicíssimo da família o ajudou, e contou com o arrependimento de D. Glória por ter feito a jura. Bentinho foi estudar Direito, e enquanto isso C. tentava se mostrar a altura de Bentinho. Para isso, passou a estudar latim com um padre, muito amigo de ambas as famílias.  Também aproximou-se mais de D. Glória. Veio o casamento. Felicidade eterna. Ou pelo menos foi eterna enquanto durou. Viviam felizes. Demorou um pouco, mas tiveram um filho chamado Ezequiel. Escobar casou-se com uma grande amiga de C., Sancha. Os dois casais pareciam a imagem da eterna felicidade. Dois amigos casando-se com duas amigas. O que mais poderiam esperar? Ezequiel veio para trazer mais felicidade. Era muito alegre, e gostava de imitar a todos. Quis Deus que ele se aperfeiçoasse mais nas imitações de Escobar. Isso o deixava o menino parecido com ele, pelo menos aos olhos de quem tivesse a intenção de achá-lo parecido. Mas a felicidade não foi duradoura. Veio o mar e levou a vida do grande nadador Escobar, levando tristeza a todos. E a tristeza de C., que se arrependia de um dia ter ficado chateada por Escobar passar mais tempo com Bentinho e por não ser tão receptiva a alguém que só demonstrou afeição a todos sem pedir nada em troca, foi o que deu partida a uma inesperada desconfiança de seu marido, de que Ezequiel fosse filho daquele que se fora e não de Bentinho.  Foi um baque para mim ler aquela parte do diário, pois tudo levava a crer que seriam 5 diários de extrema felicidade. A partir dali, C. passou a escrever menos, e suas palavras eram sempre carregadas de extrema tristeza e decepção. Mas tentava passar por cima de tudo, já que não queria desistir tão facilmente. Mas as alegações não cessavam, e tudo que ela ouvia era a versão de Bentinho, do que ele pensava. Nada do que ela falava era levado em conta. Chegou a pensar um dia que, enfim, Bentinho reconhecera o erro, mas logo os ciúmes voltavam a corroer sua mente. C. chegou a temer que Bentinho pensava em atentar contra sua vida, mas prontamente ela descobriu que se ele pensou, desistiu. Mas o que veio a seguir foi quase o mesmo para ela. Bentinho decidiu que eles viajariam para a Suíça. Fizeram a viagem, levando Ezequiel, mas o casal se portava como estranhos. Bentinho voltou ao Brasil, mas queria que a mãe e o filho ficassem na Europa. Ezequiel estudaria nas melhores escolas suíças. Bentinho escreveu poucas cartas, sempre curtas, que foram se rareando mais até que não houve mais troca de mensagens. C. soube que Bentinho viajara algumas vezes a Europa, mas nunca a procurara. Viveu assim o resto de seus anos, triste e sem compreender como sua vida chegara até aquele ponto. Mas continuava a contar para seu filho sobre o grande homem que era o seu pai, do amadíssimo José Dias, de sua avó Glória, sempre com muito carinho. Suas últimas palavras nos diários foram:

“Ezequiel viajou. Sinto-me só … e triste.”

* * * * *

agosto de 2010

(conto enviado para participar do IV Concurso Literário da UFF)