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Mister Duffy

dezembro 18, 2010

Mister Duffy

 

Dezenove horas, março de 2005. Júlio se inquieta no calor do Cinema Arte UFF, piorado pela sensação de que vestia uma beca já usada por outros sem que tivesse sido lavada. Junto dele encontravam-se professores homenageados e autoridades. Em seu colo havia um livro, Dubliners – de James Joyce. Abre-o e vê uma dedicatória em inglês ao primeiro dono, datada de 1954. Folheia-o e chega ao conto intitulado A Painful Case e lê seu primeiro parágrafo. Era uma edição rara publicada em Londres, a ser presenteada a seu amigo que iria se formar naquele dia.  Estranhou que ele não aparecera ainda. De repente, um homem vestido de modo simples, desce apressado o corredor lateral e se dirige ao lado do palco e chama uma das professoras que estavam à mesa. Conversam em voz baixa. O olhar triste da professora que a seguir mira em sua direção faz com que Júlio entenda a mensagem. Memórias distantes passam por sua mente.

Meio-dia, sol quente, jovens passam pelo campo de futebol, indo e voltando do Campus do Gragoatá. Três jovens que vinham  das Barcas apressam o passo. Um deles comenta que ali onde estavam chegou a ser formada uma favela. Eles iam ao Bandejão e quando lá chegaram, a fila ainda não estava grande. O mais velho tinha cerca de 26 anos, os outros dois no máximo 20. Enquanto esperam o restaurante abrir, o mais novo lê em uma Veja de poucos meses antes uma reportagem sobre a derrota brasileira na final da Copa da França. Destoando da juventude de quase todos, via-se no começo da fila uma figura meio encurvada, de cabelos brancos e ralos. Segurava uma pasta quase tão surrada quanto a calça que vestia. O mais velho dos três amigos dele se aproxima:

–         E aí, Mister Duffy,  quanto tempo, hein? Algum curso novo?

O idoso olha para trás, reconhece o rapaz e sorri:

–         Olá,  Rodrigo. Estou bem, mesmo com a saúde fraca.  O curso?  Matemática.

–         Que coragem! Mesmo gostando da matéria, não sei se eu faria. … Opa!  A fila vai andar. Vou voltar ao meu lugar.  É sempre um prazer em revê-lo. Um abraço.

Ao voltar à fila, Rodrigo é bombardeado de perguntas. Queriam saber quem era aquele velho. De onde você o conhecia? Por qual nome você o chamou mesmo? É uma longa história, China. Lá dentro eu conto. A fila está andando. Júlio, tem dinheiro trocado? Júlio conta suas moedas e paga a refeição dos três.

–         Ele é conhecido como Mister Duffy, mas certamente esse não é o seu nome. Também não sei a razão do apelido. Eu o conheci quando eu fazia Geografia e ele Letras. Soube então que ele era uma figura notória na UFF, pois já estudava aqui há uns 10 anos.

–         Como assim? E nunca foi jubilado? – espantou-se  o China.

–         Na verdade, ele não foi jubilado porque nesse tempo todo ele estudou em mais de um curso.

Todos ficam assustados. Júlio quis saber então o porquê do apelido.

–         Falam que é algo sobre um personagem de livro, e tem uma mulher no meio.

–         E a trama se torna interessante …

–         Não sei de mais nada, Júlio. É um mistério a vida desse Mister Duffy.

E o papo se encerra ali. Júlio ficou pensativo sobre aquela figura. O que pode ter acontecido com ele? Mas nem pode pensar por muito tempo já que precisava se concentrar na última prova do semestre. Não queria ficar mais tempo na cidade. Contava que em dezembro já estivesse na sua casa em Miracema, mas em função da greve de dois meses, teve que ficar mais um tempo em Niterói. Assim, foi para a biblioteca estudar para a prova de História Contemporânea.

Alguns meses depois, acabou reencontrando o velho homem se dirigindo à mesma sala que ele na Faculdade de Educação. Foram juntos para a aula trocando algumas palavras, mas nada além disso. Com o passar do semestre, acabou se aproximando do Mister Duffy, e descobriu que o seu nome era Abelardo, o que só foi possível porque o professor pediu um trabalho em grupo e ninguém se apresentava para entrar num grupo com o velho. Julio então chamou-o para fazerem juntos o trabalho. Trabalharam duro e apresentaram o trabalho. Estes contatos serviram mais para que se criasse um clima amistoso do que propriamente para se desvendar algum mistério. Terminou o ano, e Julio pensou que talvez nunca mais teria um novo contato com o Mister Duffy, já que não havia mais disciplinas comuns entre os cursos de Matemática e História.

Mais dois anos e Júlio termina o  curso, e em seguida é aprovado para o Curso de Mestrado em História, também na UFF. Niterói tinha se tornado então sua casa. Já não voltava mais para Miracema nas férias. A bolsa que recebia o ajudava a levar o curso sem precisar recorrer aos pais.  A pressão que vinha do curso, e dele próprio, acabaram por fazer com que terminasse sua dissertação em pouco menos de dois anos. Um concurso para professor substituto que a UFF promovia para a área de Didática da área de História, que exigia o título de Mestre, também o apressou.  Havia somente uma vaga e Julio termina o concurso em segundo lugar. Parecia que o mundo havia caído sobre sua cabeça. Mas tudo mudou quando soube que o primeiro colocado optara por outra vaga na UFRJ.

Júlio pegou duas turmas de alunos dos últimos períodos de História. Ao terminar sua primeira aula, quando já se preparava para deixar a sala, mais uma vez o destino o coloca em frente ao senhor Abelardo. Estava logicamente mais velho, mas para Julio não parecia que tinha se passado tanto tempo. Seu andar estava mais lento, cabelos mais ralos, rosto cansado, braços finos e cheio de pintas. Após cumprimentarem-se, Mister Duffy explica que tinha conseguido se inscrever só naquele dia, já que havia perdido o prazo. Uma pneumonia o levara a uma internação de três semanas no Hospital Antonio Pedro, justamente em meio ao período de inscrição. Quando ia entregar um documento em que a coordenação o autorizava a freqüentar as aulas, seu corpo tomba. Júlio leva um susto, mas seu reflexo o faz segurar Mister Duffy. Leva-o para dentro da sala e pede a uma funcionária da limpeza que comprasse uma garrafa de água mineral. Certamente ele ainda estava doente e fraco. Mister Duffy confessou que ainda não tinha comido nada naquele dia. Júlio lembrou que o bandejão estava fechado. Perguntou se ele teria forças para caminhar até a cantina. Diante do sim, foram caminhando lentamente. Aqueles cerca de 200 metros pareceram uma maratona. Após comer o prato que Júlio lhe serviu, sentiu-se logo mais disposto.

–         Sei que todos gostariam de saber por que me chamam de Mister Duffy. Você inclusive. É um personagem de um conto de James Joyce. Um colega de curso, fã de Joyce, que me apelidou. Esse Duffy era um homem solitário, que conheceu uma mulher casada. A mulher acaba se suicidando no final após o solitário desistir da chance de terem um relacionamento mais íntimo. Esse meu colega achava que uma professora do curso era apaixonada por mim. E como no final do semestre ela começou a faltar às aulas sem nenhuma razão, logo brincaram que ela poderia ter morrido. Aí o gaiato falou que ela havia se suicidado por minha causa. Ela reapareceu uma semana depois, mas o apelido já havia pegado.

Diante do sorriso do amigo, ele se encoraja e continua:

–         Sou estudante da UFF desde quando eu ainda trabalhava no IAA. Ao ler uma reportagem no JB sobre cinqüentões nas universidades, me encorajei e decidi prestar exame de Vestibular, no qual passei para o curso de Arquivologia. Mas, antes de terminar o Curso, veio o Collor, que decidiu fechar alguns setores públicos, o IAA inclusive. Fui praticamente obrigado a me aposentar. Só que o que recebia ao me aposentar logo se tornou pouco. Com a inflação, a cada mês comprava menos. Foi aí que um amigo me apresentou ao bandejão da UFF. Quando vi que era tão barato, acabei me tornando um cliente diário. O dono de um botequim perto de onde eu moro, e que sabia da minha situação precária, me ajudava com as refeições dos sábados e domingos. Percebeu o porquê de eu ser sempre um estudante da UFF? Claro que eu gosto de estudar, e muito, mas a verdade é que eu estou aqui mesmo é para ter o que comer. Terminando ou não um curso, logo faço outro Vestibular. (…) Desde que o dono do bar faleceu, passei por mais dificuldades. Um ou outro comerciante ainda me ajudam, mas vejo que com o passar dos anos já não são mais tão amistosos. É a mesma coisa que acontece aqui. A cada ano que passa, sinto que os alunos têm menos paciência comigo. Você deve se lembrar de como era quando estudou comigo.

Agora, Julio estava ali no Cinema como um dos professores que seriam homenageados pela turma de História a ser diplomada. Uma cadeira vazia entre os alunos e a nota lida após o Hino Nacional confirmou o seu temor. Abelardo, Mister Duffy, não agüentou a saúde fraca e a idade avançada.  As cadeiras e mesas rabiscadas do Bandejão não teriam mais o seu fiel cliente. Julio lera no conto de Joyce que a paixão do Mister Duffy era a Senhora Sinico. Talvez uma outra Senhora Sinico estivesse aguardando o seu amigo Duffy em algum lugar.  Pelo menos era desse jeito que Julio preferia pensar.

Carlos Benites, 2007

(Conto finalista no I Prêmio UFF de Literatura em 2007)