Archive for janeiro \21\UTC 2011

A menina que vendia livros – ou a menina (da) Travessa

janeiro 21, 2011

Outro dia, proseava com um amigo e uma amiga sobre coisas corriqueiras e, conversa vai, conversa vem, essa amiga nos perguntou o que achávamos de algumas mulheres em termos de charme, beleza etc. Começamos a concordar sobre umas e discordar sobre outras. Algumas vezes eu tinha a mesma opinião de minha amiga e outras de meu amigo, mas em nenhuma das vezes houve opinião unânime entre os três. E o assunto morreu ali.

Dias depois, eu e meu amigo voltamos ao mesmo tema, em função de uma discordância quanto a uma mulher específica. Não há necessidade de dizer nomes, que os minguados leitores provavelmente não conhecerão, portanto, de nada valerá a curiosidade.  Além disso, no caso de conhecerem, poderemos criar um desnecessário desconforto.

Da moça citada, passamos para famosas, e o rumo do bate-papo mostrava que gosto cada um tem o seu. Porém concordamos que nem sempre aquela beleza ampla e publicamente cultuada era a que nos atraía.

Aí o amigo, para dar mais realidade à nossa teoria, citou uma famosa desconhecida, que trabalha na Livraria Travessa da Sete de Setembro. Disse maravilhas sobre tal mulher. Esculpi sua imagem em minha mente e na semana seguinte, quando estive no Centro do Rio e já me dirigia para voltar à Cidade Sorriso, lembrei da belezura da Travessa e mudei o trajeto.

Chegando lá, passei os olhos em todos os cantos, todas as vendedoras, no café, na porta entreaberta do escritório, das moças que saíam para o almoço, nos balcões de pagamento e recebimento dos livros e … nada.  Devo ter ficado lá mais de uma hora, mas alguma coisa me dizia que ou não tinha olhado com os mesmos olhos que meu amigo teve, ou então não procurei direito.  Foi realmente frustrante, mesmo sabendo que fui apenas para contemplar aquela famosa desconhecida, que continuou desconhecida.

Isso significa que  terei que voltar lá, mas dessa vez levarei meu amigo.

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No elevador

janeiro 19, 2011

Hoje terei a colaboração de um grande amigo, Benito Petraglia, doutorando em Letras da UFF que, segundo me disse, passará a participar mais vezes desse espaço como responsável por alguns textos que aqui serão postados.  O primeiro texto é o conto abaixo, que posteriormente sofreu pequenas modificações para se adaptar às exigências do I Concurso Literário da UFF, realizado em 2007 e cujo tema foi “Aconteceu na UFF”, sendo então premiado em 2º lugar.

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NO ELEVADOR

Benito Petraglia

Agora, neste preciso momento, duas pessoas correm para o elevador. O elevador está vazio, prestes a fechar as portas. A mulher vai na frente, o homem viu da entrada do edifício o elevador vazio e correu também. Não sei o nome deles. A verdade é que não me preparei para contar essa história. Ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto. Dizem que as historias valem por isso. Contá-las, e contá-las, e contá-las teria o mesmo efeito de uma vacina que dessensibiliza a angústia  sempre na iminência de aflorar à pele. Eu, de minha parte, vejo essas idéias com suspeitas. Literatura não é instrumento, nem apêndice, nem estudo ancilar. Muito menos o escritor pode ser subsumido em qualquer outra categoria profissional, no caso aqui a de bombeiro ou de médico. Vocês podem achar contradição nessas palavras: se “ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto” é porque há razões íntimas, motivações profundas que me incitam a escrevê-la, uma angústia também me acossou e eu preciso me livrar dela. Não, meus amigos, a angústia que me acossou e me acossa é a angústia do momento, o momento é este, nem antes nem depois, é já seu usufruto, antes que minha história se esfume. Grosso modo, a natureza da inspiração que me avassalou corresponde àquela descrita por Guimarães Rosa no quarto prefácio a Tutaméia, em relação ao conto “A terceira margem do rio”: veio-me “pronta e brusca”. A imagem, entretanto, não é bem a de uma “bola vindo ao gol e eu o goleiro”, mas a de um seio vindo em direção a uma boca. Parei tudo para me dedicar a ela. Deixei de lado um conto quase findo, detive um poema muito lírico, atalhei uma prosa feita com critério. Mudei até de estilo para me entregar a ela, ou melhor, foi ela que me fez mudar de estilo. O que era sacrifício e dor transformou-se num fluxo fácil de palavras. Elas correm com tamanha volúpia ao meu encontro que não posso me mexer daqui. Sinto que vou exauri-la numa assentada, tal a premência desse turbilhão, tal a força que me impele sem descanso, sem descanso de posicionar um parágrafo. Não se preocupem com meus personagens, eles estão lá congelados, soltos num mesmo plano do espaço, pois o homem avançou, já está no saguão do edifício, a mulher ainda na frente, o elevador vazio. Não é de bom tom interromper a narrativa e ficar explicando, a explicação mata a ilusão realista de que se nutre o leitor. Não lhe interessa se esgueirar sob estacas e andaimes, o pó caindo sobre sua cabeça, ele quer passear pela varanda, ter a visão panorâmica da Baía de Guanabara. Necessita do acontecimento livre de arcabouços fluindo diante de seus olhos. Mas como disse, a história me colheu, não me preparei e ela me vem desse jeito, desorganizada, aos trambolhões. Nem posso afirmar que haja nela acontecimento. Minha fixação é com o instante, com uma cronologia parada. É como se um rio manasse entre margens imóveis ou a chuva deslizasse pelo vidro da janela e eu escolhesse as margens e a janela. Não, não, as analogias são impróprias, não lidam com viventes, mas com matéria inânime, e cronologia parada é um contrassenso, um paradoxo que precisa ser corrigido. Em realidade, são dois relógios distintos. É como se eu colocasse um pescador em uma das margens ou enfiasse uma mulher atrás da janela. Agora sim, agora há um tempo para o rio que mana e um  tempo para o homem pescando, um tempo para a chuva que canta e um tempo para a mulher cismando. Não é minha intenção vesti-la de condicionamentos ou contextos. Minha narrativa virá nua de fatos prévios. Não carece de roupa  para se apresentar, porque para o instante não importa se o homem é casado e tem dois filhos, se a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Ou talvez importe? Percebo já que para a economia da história, para o efeito visado, talvez importe; talvez importe, sim, para erigir o súbito à posição soberana, supri-lo de doses a mais de sortilégio. O homem é casado e tem dois filhos, a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Basta isso, não me peçam mais. Não me peçam para mergulhar de vez na incoerência. É esse o risco de quem se inebria no gozo orgiástico da musa dionisíaca. É certo que Borges, no transcurso de um conto, simplesmente declarou-se incapaz de continuá-lo; porque não acreditava nos personagens, abortou-o  abruptamente. Tem-se de admitir, me diz o leitor, que as histórias, via de regra, não acabam assim, quem ouve espera que elas tenham começo, meio e fim, é preciso um mínimo de compostura, toda criatura que merece a luz da ficção deve-se mostrar inteira. Não necessariamente, depende dos desígnios do autor e da conveniência do relato. Aqui, por exemplo, se a mulher, sem razão conhecida, atira no homem dentro do elevador e sai com toda a tranqüilidade no 23º andar para o consultório do dentista, ou se o homem, também sem razão conhecida, estrangula a mulher dentro do elevador e sai no 23º andar para o escritório do advogado – para mim, para os fins do comércio entre homem e mulher, é suficiente que o homem seja casado e tenha dois filhos e a mulher viva maritalmente e não tenha filhos. Se a vida é atravessada por lacunas, silenciada por segredos que se guardam para sempre, por que fazer da ficção uma decifradora de enigmas? Já é hora de movimentar os personagens, antes que minha língua imprudente acabe por precipitar toda trama. Os corpos vencem a inércia, ganham animação, a mulher entra no elevador, aperta o botão 23, o homem chega logo atrás, esbaforido, esbarra levemente na mulher, vê o botão aceso, dá um meio sorriso e fica de lado. Eles se ajeitam no espaço estreito e espelhado, procuram uma posição no ambiente fechado. Eis que agora, neste exato instante, enquanto se ajeitam e se posicionam, um olhar encontra o outro, não um olhar que logo se desvia, mas um que permanece, não um que se mira no remansado lago de Ricardo Reis, mas um que se perde nos perigos e abismos do mar português. Nunca é neutro o olhar entre homem e mulher, ele vem carregado de crimes e vícios, envolto em feitiço que remonta à origem dos tempos. Ninguém pode se atrever a discernir as conseqüências de um tal olhar, o gozo que se preliba a partir de um tal olhar, as carícias da minha pele na sua pele, o calor do seu corpo junto ao meu, minhas mãos palmeando passo a passo, a língua vindo atrás nos mesmos rastros, meus lábios nos seus lábios saciando a sede e a fome do desejo, seu sexo na minha boca minha boca no seu sexo, meu sexo no seu sexo, seus ais se somando aos meus no mesmo orgasmo, no mesmo espasmo nossos gritos no infinito se espraiando, você meu mundo sem minuto de marcar, furto do amor no tempo do relógio… Não sei de atos ou intenções, quem diz ou pensa; ou quanto dura enquanto o elevador sobe. O que sei é que as portas se abrem, a mulher sai primeiro, dobra à direita e vai para o consultório do dentista, o homem dobra à esquerda e vai para o escritório do advogado.

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Um conto em Paris

janeiro 5, 2011

Um Conto em Paris

O sol ainda batia naquele dia quente de Verão quando Seu Fabiano maldizia o Governo, que tinha inventado que 6 da tarde passava a ser 7 horas bastando assinar um papel. Em frente da casa, olhava a parte baixa do Morro, aguardando os amigos que o visitavam todos os dias naquele mesmo horário. Fabiano pensava de quando veio para o Rio, escapando de mais uma longa seca, com Sinhá Vitória e seus dois filhos que conseguiram se salvar do sofrimento, da fome e doenças no Sertão.  Mas os filhos não tiveram a mesma sorte no Rio. O filho mais velho morreu vítima da polícia, que o confundiu com um ladrão. O mais novo morreu pelos bandidos que imaginaram que ele fosse informante da Polícia. Pensava também no milagre que o Rio fez ao transformá-lo num grande proseador, depois de ser por anos de viagens tentando procurar por uma vida melhor para ele e os filhos, sempre com poucas palavras. Parou de pensar quando os amigos chegaram. Na sala pequena estavam acocorados o amolador de facas Seu Honório, que já cochichava ao ouvido da mãe-de-santo Dona Fortunata sobre um trabalho encomendado. Dona Sacha, uma senhora de apartamento, como Fabiano costumava dizer, sentava-se sobre uma lata que fazia as vezes de cadeira, e encarava Seu Ezequiel, um negro velho, ex-mendigo de rua, que morava com Seu Fabiano e a Sinhá há cinco anos, e que estava de pé. Dona Vitória iniciou o falatório:

– Paizinho, por que você não conta de quando você foi intimado a ir a tal de Paris atrás daquele alemão de bigode fino que mandava matar judeu?

– Seu Honório, a palavra de Vitória para mim é uma ordem, é o próprio Evangelho. Concorda comigo, Seu Ezequiel, Dona Sacha e Dona Fortunata?

– Somos todos ouvidos, Major – disse o mendigo apoiado pelas duas senhoras.

– Saberão vossemecês que esse caso estava meio esquecido no meu quengo. Mas Vitória tem o mau costume de sapecar essas lembranças em cima da gente de supetão. Tudo começou quando algumas estripulias minhas de quando vivia no sertão, foram parar nos ouvidos de um doutorzinho que foi prefeito nas Alagoas, Dr. Graciliano, e que era metido que só ele a escrever bonito de coisas sobre o sertão de Deus. Pois não é que o tal doutor decidiu pegar minhas histórias e colocar em letra de forma em alguns folhetos nas feiras do povaréu? Pois acreditem. E as histórias começaram a correr pelas cidades grandes. E esses moços de letras procedem desse jeito, cheios de floreios, estiram o negócio, inventam, pois precisam encher papel. Quando me mostraram o folheto, descobri que o doutorzinho me deu nome de Alexandre, e Sinhá Vitória passou a ser Cesária. Veja só que absurdo, Dona Sacha. Tempos depois, um artista da televisão também mangou comigo, me mostrando como um mentiroso de nome Pantaleão. E logo eu que detesto exageros. Não reclamo que falem sobre mim, mas quero que digam só o que eu fiz. Se alguma vez vossemecês ouvirem falar de minhas histórias em cantorias ou em folhetos, saibam que as nove-horas são astúcias do poeta.  Imaginem que ele escreveu que num certo dia eu estava numa canoa que afundava e, para salvar minha pele e das beatas lá presentes, fiz outro furo para que a água saísse por ele. Não digo que isso eu não faria, mas por que não contar o certo, que eu me joguei no São Francisco, amarrei uma corda na canoa e nadei até a outra margem puxei a bicha? Mas não, ele gosta dos despotismos. Seu Ezequiel está aí coçando a barba por falta de banho ou quer falar alguma coisa? Fala logo, homem de Deus!

– Já que o senhor insiste… O senhor devia ser muito forte para nadar e …

– Seu Ezequiel está duvidando de minha palavra? Se estiver, desembucha e eu paro aqui mesmo, pois não gosto que desconfiem de mim. Do contrário, continuo.

Como o negro calou-se, Seu Fabiano prosseguiu.

– Mas saiba o senhor que eu até mostraria a corda que eu usei. Isso se Vitória não a tivesse usado para secar as roupas e de tanto uso se finou. A Sinhá está aí para confirmar o que eu disse, pois ela estava do outro lado do rio, rezando para o Padre Cícero – e a mulher confirma com a cabeça. Mas me deixem continuar, pois se depender do Seu Ezequiel eu nunca chego a tal Paris. E nesse sucesso dos folhetos, um doutor general lá dos estrangeiros também ficou sabendo, e estava encacholando uma idéia de vencer a Guerra. Vocês devem se lembrar dessa guerra, vinha japonês voando raso e se jogava sobre os navios americanos. Vi uma vez no cinema. Um alemãozinho que tinha muito orgulho de seu bigode, invadiu a tal Paris e mais outros países da Europa. Dizem que o povo dessa Paris não gosta de banho. Vejam vossemecês, a gente do sertão andava mais de dez léguas para encontrar um bocadinho de água e a gringalhada cheia de perfume não era chegada. O plano do doutor americano era de mandar os seus meganhas prenderem o bigodudo, mas o diacho do homem era escorregadio que nem cobra, tinhoso que só ele. Desse jeito eles espalharam o boato que mandariam 10.000 navios lá na praia de Normandia e achavam que assim o alemão iria correndo para Paris que era ali pertinho, e de lá comandar seus homens. Claro que 10.000 navios era um exagero digno daquele prefeito. Eles mandaram só dois navios bem pequenos. Entendem? Era só um disfarce. E não é que o tal gringo estava certo? Os alemães foram quase todos para aquela praia. Mas prender o alemão era difícil. O gringo leu no folheto do prefeito uma história cheia de exageros, que dizia que eu havia acertado a orelha e o pé de um veado com um só tiro. Uma invencionice dos diachos. E eu vou ter que esclarecer essa história para depois continuar com a história de Paris. O que ocorreu foi que uma mosca perturbava as vacas da fazenda. As vacas ficaram agitadas, e quis matar a varejeira. A danada fugiu lá pro morro. Eu que morro de raiva desses bichos nojentos, que teimavam de posar sobre a carne das vacas do sertão, peguei minha espingarda e tasquei-lhe um tirambaço. Azar do veado que a mosca tinha resolvido posar justamente na sua orelha.  Vitória foi quem tratou do veado, que infelizmente acabou finando e depois parou no nosso bucho. Mas antes que Seu Ezequiel venha com perguntas inconvenientes, eu prossigo. Por culpa do tal Graciliano, o gringo acreditou que eu podia atirar no alemãozinho em Paris lá do meio do mar. O plano dos gringos era esperar que eu o acertasse para depois libertar a cidade.

– Seu Fabiano, o senhor sabe falar estrangeiro?

– Saber não sei mais, mas na época eu sabia. Deram-me um livreto para aprender a língua enquanto eu viajava das Alagoas até a Europa. Aprendi, conversei com eles, e depois desaprendi. Para que eu haveria de continuar sabendo se lá no sertão e aqui no morro só tem ignorante que nem sabe falar brasileiro? Mas aí o extraordinário aconteceu. Eu ouvia uma voz em língua gringa de alguém me chamando. Olhei e vi um papagaio muito falador, que falava estrangeiro. Disseram que era de um pirata e que depois passou a pertencer ao navio do americano. Assustei-me, pois só conhecia dois papagaios assim, mas que já haviam morrido. O bicho disse que era primo de um papagaio brasileiro, mas que decidiu voar pelo mundo e chegou ao navio do pirata. Disse ainda que o tal pirata tinha lhe dado um tesouro que não era para contar aos gringos, mas que resolvera contar para mim porque viu que eu era homem de moral. O tesouro era uns óculos que faziam enxergar muito distante. Eu tinha uma vista normal, mas o máximo que conseguia era acertar num passarinho que posasse lá nos braços do Cristo – e apontou para o Corcovado, e todos o olharam com admiração – Agora, o que o gringo queria era um despropósito, um despotismo sem tamanho. Acertar o alemão lá do mar? Mas os óculos estavam ali para me ajudar. Pensei em tudo. Era de manhã quando estava a algumas léguas da tal Paris. Coloquei os óculos, vi a foto do alemão e comecei a olhar para lá. No meio de uns soldados, perto de um monumento em forma de arco eu o avisto. Peguei minha espingarda lazarina, limpei o cano por dentro e mudei a espoleta que já estava velha. Ele estava num uniforme preto. Fiquei esperando o danado se virar. Não queria feri-lo para machucar, pois sou de paz, só queria desmoralizá-lo. Ouvi um dia a história de um cabra que tinha as forças nos cabelos. E como o alemão era muito apegado ao bigode, percebi que estava ali sua força. Fiz pontaria, puxei o gatilho e PUM. Só que na hora passou uma borboleta que fez o alemão virar o rosto e acabei raspando só o lado direito do bigode. Aquilo o assustou, mas o danado conseguiu se esconder. Só que o tiro foi o suficiente pra que os alemães se assustassem. Aproveitei a confusão e mandei o navio se aproximar. Depois, pedi uma canoa e fui remando sozinho o resto da manhã. Cheguei de tarde lá naquele Arco onde tinha visto o alemão. Deram depois o nome de Arco do Triunfo, pois fora ali que comecei a triunfar. Comecei a caçar o meio-bigodudo. Tinha que terminar o serviço para ele ficar desmoralizado perante os seus soldados. Comecei a olhar por toda cidade. Tinha ouvido falar de uma Bastilha, mas não a encontrei. Disseram-me que ele poderia estar numa tal de Catedral de Notre Dame, onde tinha vivido um corcunda, mas nada do bigodudo lá. Já era noite, quando resolvi subir no alto da catedral. De repente avisto uma enorme torre de ferro em formato de triângulo. Nunca tinha visto tanto ferro assim. Um despotismo que daria para fazer ferraduras para todos os cavalos do sertão e ainda sobrava. Era tão grande que se a cravassem no pé deste morro, esta casa não estaria nem na metade. No alto da torre estava o alemão, mas com o bigode inteiro. Aquilo me encafifou. Peguei então os óculos, e vi que o outro lado era tinta. Minha tarefa era tirar o outro lado do bigode, mas ainda restaria o lado pintado. De repente, achei a solução. Apontei e PUM. A bala raspou o bigode que restava. Depois vi o rosto do alemão igual ao de um neném. Seu Ezequiel está aí doido para perguntar sobre o bigode feito de tinta? Chovia, e a bala pegou a primeira gota, que seguiu e pegou outras no caminho. Quando a bala chegou no alemão, levava mais de meio litro d´água, que lavou o bigode de tinta. Sem bigode, ele perdeu o respeito dos oficiais, que resolveram se render. Bem, essa é a história verdadeira. As que contam nos livros são invencionices do povo do estrangeiro. Não é isso mesmo, Vitória?

Carlos Benites, agosto de 2009

Texto finalista no III Prêmio UFF de Literatura

Introdução às Histórias de Alexandre – em Paris

janeiro 5, 2011

Hoje estava assistindo ao filme JULIE E JULIA, com a Merryl Streep, e para quem não o assistiu, vou dizer somente que tem uma moça que começa a escrever um blog diário contando sobre suas experiências com um famoso livro de receita.  Acabei me inspirando a voltar aqui.

Vou postar outro conto que escrevi e foi também selecionado num dos Concursos Literários da UFF.  Chama-se “Um Conto em Paris”.  Esse conto foi escrito, atendendo a uma exigência do concurso, de que deveria tratar sobre Paris.  Acabei inventando um jeito de colocar um personagem nordestino, com alguns amigos num morro carioca e, no meio disso tudo, uma visitinha na Cidade Luz.  Originalmente o título seria “Alexandre em Paris”.  Mas para entender melhor o conto (não que ele seja tão misterioso, ou algo do tipo), é necessário que o leitor conheça duas obras do Graciliano Ramos: uma, a mais famosa ou uma das mais famosas do grande mestre alagoano,  VIDAS SECAS; a outra é menos conhecida, HISTÓRIAS DE ALEXANDRE, que hoje praticamente só é encontrada numa edição conjunta com outras duas obras do Graciliano, Pequena História da República e  A terra dos meninos pelados – e a essa edição recebeu o título de Alexandre e outros heróis.

Vidas Secas traz uma família de retirantes nordestinos tentando escapar das agruras da seca no sertão nordestino. O personagem principal e chefe da família é “Fabiano”, casado com “Sinhá Vitória e com seus dois filhos, que não são chamados pelo nome no livro, apenas identificados como o “mais velho” e o “mais novo”.  Para quem não leu, posso dizer que vale muito a pena ler, e o que foi dito acima é suficiente para entender o conto.

Histórias de Alexandre é uma coletânea, concluída em 1938, de histórias  interligadas, com os mesmos personagens, e algumas com ligações intertextuais entre duas ou mais histórias, tendo como personagem principal um senhor fanfarrão e que vivia num local abandonado do sertão, mas que todos os dias recebia em sua casa amigos para que ele contasse suas histórias, todas carregadas de mentiras, seja por exagero, invenções ou mesmo uma lógica “alexandrina” para justificar tudo o que falava. Essa lógica, por exemplo, poderia querer mostrar que um olho poderia sair da vista espetado num espinho.  Essa lógica também indicava que a pessoa só veria metade das pessoas e das coisas que passassem em sua frente, e que o tal olho poderia ser simplesmente recolocado no local sem nenhum problema, mas caso o olho fosse colocado virado para o lado errado, ou seja, para trás, a pessoa veria o interior de sua cabeça.

A sua audiência era formada por sua esposa, Cesária, pelo cego Firmino, pelo curandeiro Gaudêncio, seu Libório, o contador de emboladas e violeiro, e por Das Dores, uma benzedeira de quebranto, que também era afilhada do casal Alexandre e Cesária. O cego Firmino, incrivelmente, parece ser o único a enxergar os exageros de Alexandre.

Eu sugiro que leiam o livro, mas caso não queira ler o livro, mas se tiver interesse em conhecer mais sobre cada uma das histórias, tem um resumo interessante delas no link abaixo:

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/alexandre_e_outros_herois

Amanhã postarei o conto.