No elevador

Hoje terei a colaboração de um grande amigo, Benito Petraglia, doutorando em Letras da UFF que, segundo me disse, passará a participar mais vezes desse espaço como responsável por alguns textos que aqui serão postados.  O primeiro texto é o conto abaixo, que posteriormente sofreu pequenas modificações para se adaptar às exigências do I Concurso Literário da UFF, realizado em 2007 e cujo tema foi “Aconteceu na UFF”, sendo então premiado em 2º lugar.

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NO ELEVADOR

Benito Petraglia

Agora, neste preciso momento, duas pessoas correm para o elevador. O elevador está vazio, prestes a fechar as portas. A mulher vai na frente, o homem viu da entrada do edifício o elevador vazio e correu também. Não sei o nome deles. A verdade é que não me preparei para contar essa história. Ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto. Dizem que as historias valem por isso. Contá-las, e contá-las, e contá-las teria o mesmo efeito de uma vacina que dessensibiliza a angústia  sempre na iminência de aflorar à pele. Eu, de minha parte, vejo essas idéias com suspeitas. Literatura não é instrumento, nem apêndice, nem estudo ancilar. Muito menos o escritor pode ser subsumido em qualquer outra categoria profissional, no caso aqui a de bombeiro ou de médico. Vocês podem achar contradição nessas palavras: se “ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto” é porque há razões íntimas, motivações profundas que me incitam a escrevê-la, uma angústia também me acossou e eu preciso me livrar dela. Não, meus amigos, a angústia que me acossou e me acossa é a angústia do momento, o momento é este, nem antes nem depois, é já seu usufruto, antes que minha história se esfume. Grosso modo, a natureza da inspiração que me avassalou corresponde àquela descrita por Guimarães Rosa no quarto prefácio a Tutaméia, em relação ao conto “A terceira margem do rio”: veio-me “pronta e brusca”. A imagem, entretanto, não é bem a de uma “bola vindo ao gol e eu o goleiro”, mas a de um seio vindo em direção a uma boca. Parei tudo para me dedicar a ela. Deixei de lado um conto quase findo, detive um poema muito lírico, atalhei uma prosa feita com critério. Mudei até de estilo para me entregar a ela, ou melhor, foi ela que me fez mudar de estilo. O que era sacrifício e dor transformou-se num fluxo fácil de palavras. Elas correm com tamanha volúpia ao meu encontro que não posso me mexer daqui. Sinto que vou exauri-la numa assentada, tal a premência desse turbilhão, tal a força que me impele sem descanso, sem descanso de posicionar um parágrafo. Não se preocupem com meus personagens, eles estão lá congelados, soltos num mesmo plano do espaço, pois o homem avançou, já está no saguão do edifício, a mulher ainda na frente, o elevador vazio. Não é de bom tom interromper a narrativa e ficar explicando, a explicação mata a ilusão realista de que se nutre o leitor. Não lhe interessa se esgueirar sob estacas e andaimes, o pó caindo sobre sua cabeça, ele quer passear pela varanda, ter a visão panorâmica da Baía de Guanabara. Necessita do acontecimento livre de arcabouços fluindo diante de seus olhos. Mas como disse, a história me colheu, não me preparei e ela me vem desse jeito, desorganizada, aos trambolhões. Nem posso afirmar que haja nela acontecimento. Minha fixação é com o instante, com uma cronologia parada. É como se um rio manasse entre margens imóveis ou a chuva deslizasse pelo vidro da janela e eu escolhesse as margens e a janela. Não, não, as analogias são impróprias, não lidam com viventes, mas com matéria inânime, e cronologia parada é um contrassenso, um paradoxo que precisa ser corrigido. Em realidade, são dois relógios distintos. É como se eu colocasse um pescador em uma das margens ou enfiasse uma mulher atrás da janela. Agora sim, agora há um tempo para o rio que mana e um  tempo para o homem pescando, um tempo para a chuva que canta e um tempo para a mulher cismando. Não é minha intenção vesti-la de condicionamentos ou contextos. Minha narrativa virá nua de fatos prévios. Não carece de roupa  para se apresentar, porque para o instante não importa se o homem é casado e tem dois filhos, se a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Ou talvez importe? Percebo já que para a economia da história, para o efeito visado, talvez importe; talvez importe, sim, para erigir o súbito à posição soberana, supri-lo de doses a mais de sortilégio. O homem é casado e tem dois filhos, a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Basta isso, não me peçam mais. Não me peçam para mergulhar de vez na incoerência. É esse o risco de quem se inebria no gozo orgiástico da musa dionisíaca. É certo que Borges, no transcurso de um conto, simplesmente declarou-se incapaz de continuá-lo; porque não acreditava nos personagens, abortou-o  abruptamente. Tem-se de admitir, me diz o leitor, que as histórias, via de regra, não acabam assim, quem ouve espera que elas tenham começo, meio e fim, é preciso um mínimo de compostura, toda criatura que merece a luz da ficção deve-se mostrar inteira. Não necessariamente, depende dos desígnios do autor e da conveniência do relato. Aqui, por exemplo, se a mulher, sem razão conhecida, atira no homem dentro do elevador e sai com toda a tranqüilidade no 23º andar para o consultório do dentista, ou se o homem, também sem razão conhecida, estrangula a mulher dentro do elevador e sai no 23º andar para o escritório do advogado – para mim, para os fins do comércio entre homem e mulher, é suficiente que o homem seja casado e tenha dois filhos e a mulher viva maritalmente e não tenha filhos. Se a vida é atravessada por lacunas, silenciada por segredos que se guardam para sempre, por que fazer da ficção uma decifradora de enigmas? Já é hora de movimentar os personagens, antes que minha língua imprudente acabe por precipitar toda trama. Os corpos vencem a inércia, ganham animação, a mulher entra no elevador, aperta o botão 23, o homem chega logo atrás, esbaforido, esbarra levemente na mulher, vê o botão aceso, dá um meio sorriso e fica de lado. Eles se ajeitam no espaço estreito e espelhado, procuram uma posição no ambiente fechado. Eis que agora, neste exato instante, enquanto se ajeitam e se posicionam, um olhar encontra o outro, não um olhar que logo se desvia, mas um que permanece, não um que se mira no remansado lago de Ricardo Reis, mas um que se perde nos perigos e abismos do mar português. Nunca é neutro o olhar entre homem e mulher, ele vem carregado de crimes e vícios, envolto em feitiço que remonta à origem dos tempos. Ninguém pode se atrever a discernir as conseqüências de um tal olhar, o gozo que se preliba a partir de um tal olhar, as carícias da minha pele na sua pele, o calor do seu corpo junto ao meu, minhas mãos palmeando passo a passo, a língua vindo atrás nos mesmos rastros, meus lábios nos seus lábios saciando a sede e a fome do desejo, seu sexo na minha boca minha boca no seu sexo, meu sexo no seu sexo, seus ais se somando aos meus no mesmo orgasmo, no mesmo espasmo nossos gritos no infinito se espraiando, você meu mundo sem minuto de marcar, furto do amor no tempo do relógio… Não sei de atos ou intenções, quem diz ou pensa; ou quanto dura enquanto o elevador sobe. O que sei é que as portas se abrem, a mulher sai primeiro, dobra à direita e vai para o consultório do dentista, o homem dobra à esquerda e vai para o escritório do advogado.

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