E o tema ainda é o Liceu

Mudanças no Liceu

Calfilho

 

O tempo passou…

Minha época de liceísta estava lá atrás, quase esquecida, misturada às minhas novas preocupações da vida de adulto…

Passei dois anos praticamente fora de Niterói, depois que fui aprovado num concurso público e fui trabalhar no interior do Estado.

Foi duro para mim… largar minha praia, meu futebol, meus amigos conquistados depois de vários anos… Trabalhar em um ambiente diferente…

Enfim… o destino nos reserva algumas surpresas, uma delas foi essa…

Nunca mais entrei no meu colégio… Passava pela Amaral Peixoto, uma vez ou outra, só o olhava de longe… Como sempre, imponente, grandioso… Uma sensação estranha apertava meu peito… Via de longe, no ônibus ou no táxi, aquelas salas onde um dia estudei, onde em um outro matei aula, mas não conseguia divisar, de fora, as quadras, a de basquete ou de vôlei, onde dei meus primeiros passos no futebol…

Vi, quando o ônibus deu meia parada, diminuindo a marcha para um passageiro descer, a salinha do Grêmio, lá no fundo… que pena, agora, cercada de grades… Verinha não mais poderia pular a janela quando o diretor chegasse de surpresa e ela, como eu, estivéssemos matando aula…

Por que as grades? No nosso tempo, tudo era aberto, livre, até com um pouco de irresponsabilidade… Mas, cada um dizia o que queria dizer…

Não sei o que houve com o meu colégio…

Disseram-me, soube depois, que tentaram politizar o Liceu, inclusive o Grêmio, depois que dele saí… Tudo bem, a época era efervescente, 1961 em diante, pré- revolução…

Mas, enquanto lá estivemos, eu, Irapuam, Manequinho, Telúrio, João Bonvini, Joza, Cenira, Alber e tantos outros, jamais deixamos que a política partidária se infiltrasse em nossos objetivos, que eram esporte, divertimento, música, festas, coisas que o Grêmio se propunha a fazer e estava escrito em nossos estatutos (o de Verinha, que só tinha três artigos).

Infelizmente, soube que depois de nossa saída, o Grêmio se politizou e acabou sofrendo intervenção por parte de algum “revolucionário”. Disseram-me que, um deles, inclusive, fora ex-aluno do colégio e se tornara “revolucionário” para conseguir se eleger deputado. Soube, ainda, que uma das minhas colegas de sala, desde o primeiro ano ginasial até o último do científico, em 1959, fora presa pela “Redentora”, barbaramente torturada e assassinada, tudo em nome da “democracia”…

E, mais recentemente, soube por alguns membros de gerações posteriores do colégio, que as pistas de atletismo foram invadidas para construírem novos prédios, alguns até com finalidades diversas daquelas a que estávamos acostumados.

E, as várias reformas que foram feitas posteriormente, algumas sem nenhuma finalidade prática, acabaram por destruir aquilo que era o maior patrimônio do Liceu: a qualidade do ensino…

Por isso, em 1971, ao ver algumas meninas e alguns rapazes descendo a Amaral Peixoto, quando eu saía do Fórum de Niterói, eles envergando aquela camisa amarela do Grêmio, lembrei com saudade: esse é o meu Liceu. A camisa amarela e azul foi idéia do Grêmio, não da Secretaria de Educação… aliás, ela é até mais bonita que a antiga azul e branca do meu tempo de Liceu…

Introduzimos aquelas cores, amarelo ouro e azul escuro, em homenagem à seleção brasileira de 1958, que voltara campeã do mundo na Suécia.

Enfim, lembranças que foram ficando para trás, mas nunca esquecidas por mim.

Certa vez, quando era Promotor de Justiça em Niterói, no início dos anos 70, fui procurado por um diretor do Liceu da época, não me recordo o nome. Foi-me fazer um convite, como ex-aluno e atual autoridade pública, para fazer uma palestra no colégio sobre drogas. Recusei polidamente, pois sabia que não conseguiria passar das primeiras palavras ao me dirigir aos alunos da  nova geração liceísta. A emoção de rever aquelas salas onde estudei, aquelas quadras onde suava a camisa do uniforme, após “rachas” inesquecíveis, a salinha onde eu e Irapuam apresentávamos diariamente para os turnos da manhã e tarde, a “Hora do Grêmio”, os banheiros onde íamos fumar um cigarro escondido entre uma aula e outra, não me permitiria expressar com clareza o que pretenderia dizer. E, olha que, modestamente, era um bom orador, Promotor de Justiça acostumado aos debates no Tribunal do Júri, além de dar aulas para advogados em alguns cursinhos preparatórios para concursos da Defensoria, Promotoria ou Magistratura.

O Liceu me marcou profundamente. E, foi com satisfação, depois de entrar em contato pela internet com alguns liceístas de gerações posteriores, que soube que o colégio, depois de passar por sérias dificuldades, até com perigo de desabamento do teto, foi reformado, repintado e hoje continua bonito como era no meu tempo, imponente e majestoso, dominando como antigamente a Avenida Amaral Peixoto…

Pena que “seu” Azer, “seu” Borges, o professor Alber de Educação Física e todos os meus colegas que comigo desfrutaram daquela época maravilhosa não estejam mais lá…

Cabe a vocês, gerações após gerações, manterem viva a chama de amor ao colégio, como se fosse realmente nossa segunda casa e lutarem para que, cada vez mais, seja uma referência em qualidade de ensino em Niterói…

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