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À Luz do Poente – de Marcelo Ribeiro

agosto 23, 2012

O conto abaixo é de um leitor deste blog que surpreendeu-se com a coincidência de eu ter escrito há uns meses sobre uma musa da Livraria Travessa – A menina que vendia livros – ou a menina (da) Travessa – tema que ele também tinha usado num conto de sua autoria e que nunca tinha sido publicado.  E agora, cá está o conto.  Gostei bastante do conto e agradeço ao Marcelo por ter autorizado sua publicação.

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À Luz do Poente

Marcelo Vieira Ribeiro

Gostava de viver em metáforas. Naquela escada rolante, sentiu-se em um de seus antigos exercícios colegiais de física, ele mesmo um traço no papel, subindo o plano inclinado a uma velocidade constante, o peso decomposto em normal e tangente. Finalmente, essência e existência circunscritas a uma fórmula perfeita, o futuro definido a um simples fixar da variável tempo. Mas os degraus não eram infinitos, e rapidamente seus passos buscaram porvir mais caótico, nas calçadas lotadas de um fim de tarde na Cinelândia.

Não teve saudades de sua breve estada no mundo dos vetores, ficando aliviado em sair do linear e newtoniano espaço do metrô e mergulhar em regime oposto, no pleno movimento browniano daquela praça. Por um momento, agradeceu a si mesmo por preferir o princípio da incerteza a ter suas partículas desveladas em simples retas e ângulos.

Em poucos passos já estava entre as fileiras de barracas azuis, com suas bancadas apinhadas de livros, misturando-se aos que circulavam entre os corredores irregulares daquele labirinto de madeira e papel que ocupava a praça a cada seis meses. Compradores eventuais, curiosos, garimpeiros de raridades, simples passantes, a habitual fauna humana da feira sempre o deixou à vontade. Talvez o tosco das barracas, pensou certa vez, o desleixo das pilhas de livros e a informalidade dos vendedores tornassem as pessoas serenas e despreocupadas, enquanto circulavam aqui e ali na feira, a observar as lombadas e a manusear um ou outro exemplar menos gasto.

Ele, porém, mais do que isso, sentia-se bem entre os livros. Desde criança o atraía a palavra escrita. Já entrado na idade adulta, passou a ter paixão também por colecioná-la em seu registro mais nobre. Coincidiu talvez com o primeiro emprego, com o calor do primeiro dinheiro recebido, o despertar de seu apego ao papel impresso, cortado, dobrado e encadernado, que poderia armazenar em casa, em estantes cada vez mais longas, para ler, reler ou folhear quando quisesse.

Mas não se ache que o impressionavam as edições bem cuidadas, as raridades, os exemplares únicos. Não gastava suas horas em sebos atrás de uma primeira edição autografada, despercebida pelo livreiro. Não era a veste que o atraía, apesar de também apreciá-la. O que realmente o fascinava era um objeto tão singelo – e tão gasto, se se tratar dos que ele adquiria – concentrar em si tanto conhecimento e beleza, imprimir-se de tanta vida. Respeito, sim, respeito era o sentimento que ele dedicava aos livros, aos bons livros, como abrigos do que a alma humana oferecia de melhor. Ou de pior, pois em Literatura, para ele, não havia lugar para juízos morais.

Literatura. Circulando pelas barracas veio-lhe novamente a palavra: Literatura. A única que lhe importava. Aos montes, à sua frente, multiplicavam-se os livros, sucediam-se os assuntos: ciências, filosofia, esoterismo. Mas a ele só interessava a Literatura. Assim mesmo, em maiúscula. A Arte transcrita em Linguagem. Palavras em comunhão. Buscava abarcar a vida de uma forma tão profunda e direta que – e essa era a sua mais íntima e forte convicção – sua única possibilidade não era viver, mas mergulhar na vida impressa em páginas amarelecidas pelo tempo.

Procurou afastar, porém, esses pensamentos. Estava ali em expectativa de prazer. Sabia que sua busca atenta e seus dedos preparados iriam fatalmente encontrar a gema escondida naqueles montes de cascalho, tão avidamente remexidos por garimpeiros de menor arte. Experimentava nesses momentos, quando se deparava com um exemplar que não merecia estar esquecido, a mesma sensação de calor de quando cruzava com olhos femininos receptivos ao seu oblíquo e literário olhar, como uma vez tão a seu gosto alguém o definiu.

E assim foi mais uma vez, e logo em sua barraca preferida, a dos livros de R$1,00, a que oferece a maior densidade de prazer literário por unidade monetária. Lá, encontrou uma edição antiga e em estado razoável de um livro que há apenas dois dias lhe havia sido recomendado: Viagem à Roda do Meu Quarto, publicado em 1794 por Xavier de Maistre. Disseram-lhe, então, que este era um dos livros favoritos de Machado de Assis. O velho Machado escreveu o que escreveu sem nunca ter saído do Brasil; Xavier foi mais longe – ou perto, como se preferir – limitou-se ao próprio quarto.

As coincidências às vezes o surpreendiam, e nesses momentos ele abria mão de sua constante aposta no acaso e tentava reconhecer em seu cotidiano signos e referências de um caldeirão simbólico em que estaria imerso, por algum desígnio divino ou pelo alinhamento energético de suas próprias escolhas. Ao se deparar com aquele pequeno livro, tão amistosamente se oferecendo em aparência e preço, deixou-se levar, assim, por uma morna sensação de conforto e familiaridade, sentindo-se irmanado e apoiado por antepassados que extraíram refinada Arte de um viver tão simples e cuja caligrafia vinha agora ordenar a aleatoriedade de seus passos.

Aquele fim de tarde já estava justificado. Pegou rapidamente o livro, entregou uma moeda de R$1,00 ao vendedor e seguiu em caminho inverso ao que havia vindo, sem procurar fixar os olhos nos livros à mostra, para que outro título não desafiasse a completude de sua aquisição. Resolveu não voltar já para Copacabana. Um café seria bom. Percorreu a praça, passou em frente ao Teatro Municipal, atravessando a avenida e seguindo pela calçada. Anoitecia, as pessoas passavam apressadas, vindo do trabalho. Como é bom flanar, pensou, enquanto caminhava despreocupadamente pela Rio Branco, observando os prédios e sentindo-se o próprio Baudelaire, ao desejar as mulheres com quem cruzava, tão indefesas nessa hora de transição entre duas rotinas. O poeta teria mais armas, reconheceu.

Entrou na Sete de Setembro, virou à esquerda na Travessa do Ouvidor e chegou à livraria. Enquanto corria os olhos pelo salão à procura das curvas que apreciava, escolheu um livro de poesias para folhear durante o café. Como sempre, ela estava lá, classificando livros, séria, com seus olhos redondos, a pele branca e as curvas que lhe inspiravam versos nunca escritos. Passou por ela desviando o olhar e se sentou em uma mesa em que poderia vê-la.

Sonetos. Eram sonetos. Menos mal, sempre achou o tempo de um soneto o mesmo de um café. Deviam ser lidos como se bebe um expresso, vagarosamente, sorvendo as palavras, sentindo as rimas excitarem as papilas gustativas da sensibilidade. À Luz do Poente. O título lembrou-lhe novamente as mulheres da Rio Branco e o fez dirigir o olhar para o salão da livraria, a imaginar como se ondulariam naquela calçada as curvas de seu desejo. “Se pudesse ser sonho o que se sente”; os versos o aqueciam em goles fumegantes e o faziam oferecer seus olhos como dois “vultos negros, solenes, desolados”. Vã oferenda, a que não se recebe, lamentou ao pagar a conta.

Foi com os olhos ainda quentes de poesia que cruzou por ela na saída, sentindo mais uma vez o olhar redondo de curiosidade, um olhar que, todos os sonhos tendo ruído, justificaria o fato de estar vivo. Seguiu pela Travessa do Ouvidor, retendo consigo, por mais um instante, o calor literário da musa de seus cafés, como se escrevesse poemas naquela pele, mas sabia que ela só existia encerrada nos limites daquelas estantes, não podendo fazer companhia ao Conde Xavier de Maistre no deleite de seus sentidos.

Já na Rio Branco, decidiu voltar de ônibus. Não queria repetir sua passagem pela física clássica e, além disso, a paisagem do Aterro lhe descansaria a visão. Sem paradas, o vento pelo rosto, o verde dos jardins, o Pão de Açúcar iluminado. No último sinal da avenida, observou pela última vez os detalhes da capa dura vermelha, orgulhando-se novamente de sua conquista e guardando-a cuidadosamente no bolso largo da calça: em outros trajetos iria lendo, mas não nesse.

Não se deu conta de como começou tudo. Só percebeu algo errado já com o cano do revólver encostado em seu rosto. A carteira, pediam a carteira. Mas que carteira, ele não usava carteira: seu dinheiro, seu pouco dinheiro levava sempre solto no bolso. Mas insistiam, pediam a carteira, a carteira, com sua imaginada fortuna.

A coronhada veio forte. A cabeça pendeu para o lado, enquanto uma mão rápida se enfiava no bolso de sua calça e arrancava com violência o livro, tão barato em preço e subitamente tão valorizado. O brilho de ódio naquele derradeiro olhar, ao ver que as notas eram outras, foi ofuscado pelo clarão do tiro. Dor, muita dor. O livro caiu girando, e em seu giro, estranhamente lento, seus olhos já nublados viram passar todo o poente, vermelho sangue, a cobrir antigos escritores, feiras desertas, calçadas geométricas, curvas inatingíveis. Amaldiçoava Heisenberg, quando um segundo estrondo trouxe a noite.

Fim