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O moleque Ricardo

dezembro 19, 2014

CONTO: “O moleque Ricardo” (*)

Carlos Benites

O menino Ricardo estava feliz. Enfim viveria definitivamente com o pai. Com 14 anos, quase não tinha lembranças físicas de seu pai, o grande escritor Graciliano Ramos. Custou a entender a razão de que só ele ficara em Alagoas, criado pelo avô Américo e sua tia, desde os sete anos de idade, enquanto suas irmãs tinham viajado com a mãe para se encontrarem com o pai. Trazia na memória as férias que passara aos 10 anos no Rio de Janeiro e levou orgulhoso seu boletim para mostrar a seu pai, mas este disse apenas um lacônico “Está bom”. Agora, aos 14 anos, seria diferente. Estaria com as irmãs Clarita e Luiza e a mãe Heloisa. Já não teria que se agarrar às cartas para ter contato com pai e mãe.  Mesmo com a grande distância, nutria um carinho e admiração pelo pai. Até quando os familiares tentavam poupá-lo das notícias cruéis do tempo da prisão de seu pai, ele acompanhava quieto e preocupado cada momento. Desde antes da viagem de sua mãe, ficava sempre com os ouvidos prontos para ouvir as conversas em tom baixo, e lia às escondidas as cartas do pai para sua mãe, tia e o avô. E com isso ia construindo uma imagem paterna em seu imaginário.

A viagem ao Rio foi agradável. Os solavancos da longa viagem em estradas esburacadas foram insuficientes para tirar-lhe o entusiasmo.  Não esperava demonstrações exageradas de carinho por parte de seu pai, e na sua imagem criada, acabou preferindo que fosse assim. Eram nos pequenos gestos que o pai mostrava carinho e cuidado com cada um de seus filhos.  Mais de uma vez viu seu pai, enquanto escrevia, reclamar do barulho das brincadeiras de suas irmãs: “Suas pestes! Excomungadas do diabo!”.  Mas a seguir, lia histórias para elas e brincava carinhosamente com os cabelos das filhas.  Mas não deixava de ameaçar as meninas, que se continuassem com o barulho, ia contar uma história de terror para elas, em que duas meninas eram deixadas num parque abandonado. E soltava uma gargalhada, compartilhada com as filhas. Assim que chegou, Ricardo já pode perceber do interesse do pai pelos seus estudos. Quando ouviu de Ricardo que queria também escrever como ele, o pai ficou quieto.  O olhar de Graciliano depois de ouvir o desejo do filho em se tornar escritor e o fato de não ter dado um sermão o criticando, foi interpretado por Ricardo como uma aprovação.

Aquele dia parecia especial. O pai recebera um convite do jornalista Mario Filho para ir a um jogo de futebol. Ouviu o resmungo do pai ao ler o convite. “Esse jogo é só pontapé”.  Sua mãe não deu força à rebeldia de seu pai. Ricardo pode ouvir sua mãe falar: “Grace, largue de ser rabugento e vai lá. Você não estará sozinho. Zelins estará também.”  Depois de refletir, dando umas baforadas no seu inseparável cigarro, Graciliano decidiu: “Está certo. Eu vou. Mas levo o Ricardo comigo.”  Ao ouvir o pai, Ricardo vibrou. Ficou

quieto e continuou na leitura do livro que recebera de presente, cujo autor era o nome que fora citado por sua mãe, o  Zelins, que tratava-se do escritor José Lins do Rego, o qual Ricardo logo percebeu que  era um grande amigo do pai, mesmo com o tratamento às vezes rude com ele. Numa dessas vezes, Zelins piscou para Ricardo:

– Essa é uma forma diferente de seu pai dizer que gosta de mim.  Eu não te disse antes. Já tinha me simpatizado contigo, menino, e não só porque você é filho de um grande amigo. Tem um motivo a mais: seu nome é o mesmo de um personagem de um de meus livros. Amanhã te presenteio “O moleque Ricardo”.

A mãe começou a arrumar o filho. “Vai com o melhor terno. Você estará diante de muita gente importante, grandes escritores”.  O pai logo deu outro conselho. Que soubesse tirar o de melhor de cada um e jogue fora o que não preste. “Não pense que o fato de sermos escritores nos transforma nas melhores influências”.  Ricardo a tudo ouvia com atenção, contando como um aprendizado cada palavra dita por seu pai. Também não julgue que, como sou comunista, você só deve aprender com comunistas. Pelo contrário, tome muito cuidado com alguns. Nem torça o nariz a todo reacionário – e Ricardo anotou a palavra para depois procurar seu significado. Aliás, hoje nos encontraremos com um bom representante. Fique de olho nele, pois ele escreve muito bem. É um reacionário filho da puta de tão bom.

José Lins apareceu na velha pensão em que a família do menino morava. Cumprimentou dona Heloisa, conferiu a gravata de Ricardo e lá foram ao estádio das Laranjeiras no seu automóvel.  Antes, passaram numa banca de jornal, onde Graciliano comprou o Jornal Diretrizes, onde se lia na capa uma chamada falando da campanha da guerra, dizendo que o conflito estava próximo do fim. Chegando ao estádio, dirigiram-se à Tribuna de Imprensa. Ricardo a tudo observava, com entusiasmo tamanho que fazia seus olhos brilharem. Via as pessoas carregando bandeiras. Sempre ouvia seu pai falar que o football era um esporte que não emplacaria na nossa terra, que nossos jovens eram muito mirrados e que deviam se dedicar à capoeira ou algum esporte de corrida. Ricardo notou que o pai olhava atento em volta das arquibancadas. Viu que as bandeiras da maioria do estádio eram das cores verde, grená e branco, as mesmas da bandeira que tremulava do alto do estádio. As outras eram pretas e brancas. Quem joga hoje, Zelins? José Lins do Rego brincou com Graciliano, falando que ele escamoteava o sentimento pelo esporte.  “Graça, não finja indiferença. Você sabe muito bem que jogam Fluminense e Botafogo”. Graciliano soltou um muxoxo. “Se ao menos o América jogasse, teríamos bandeiras vermelhas”. José Lins e Ricardo sorriram ao perceberem que o pai não só sabia quais times jogavam, como sabia as cores das bandeiras de cada um. Chegaram depois os irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues, que cumprimentaram entusiasticamente José Lins. Mário Filho disse para José Lins:

– Já que nosso Flamengo não está em campo, vamos torcer para quem?

– Qualquer um, Mário. Seremos campeões, pois temos Zizinho. Mas para implicar com seu irmão, vamos torcer para o alvinegro.

Nelson Rodrigues, que a tudo olhava, foi cumprimentar Graciliano, mas parou ao notar a presença de Ricardo. José Lins explicou. É o filho do Graça que morava nas Alagoas. Para que time torce? – perguntou Nelson Rodrigues. Ricardo disse que não tinha time, mas que podia escolher um time naquele jogo. Recebeu de volta o que poderia ser uma ofensa, mas ele anotou num papel como se fosse um ensinamento: “Não importa para quem você escolher hoje. O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”. Graciliano se dirigiu a Nelson Rodrigues:

– Como você está, seu reacionário safado? – e deu uma piscada para Ricardo, que entendeu que ele era o tal que o pai havia falado antes.

Minutos depois, Ricardo ouve um burburinho no estádio, com as pessoas se levantando.  Ricardo percebe que as pessoas olham para uma tribuna próxima. Ricardo então ouve seu pai colocar a mão na boca em forma de concha e soltou um som:

– UUUUUUUUUUUUU! UUUUUUUUUUUUU!

José Lins aconselhou Graciliano:

– Calma, homem. Quer arrumar motivo para te mandarem de volta à prisão?

– Está bom. É que eu não me contive. Maldito caudilho!

Ricardo entendeu que quem chegara era o homem que sempre tinha seu nome citado nas cartas de seus pais: Getúlio Vargas.

Começou o jogo e os adultos distribuíam doces e balas a Ricardo. Estava adorando aquilo. Todos lhe davam atenção, mas ele não deixava de prestar atenção ao jogo. Tudo que lia nos jornais alagoanos parecia que era melhor ainda. Os craques que tinham seus nomes entoados pelos narradores de rádio pareciam mágicos. E o colorido das arquibancadas o deixava ainda mais fascinado. Ricardo também percebeu que não era só ele que fazia anotações num bloquinho.  Todos eles, incluindo seu pai que nunca mostrou interesse pelo esporte, anotavam tudo. Ricardo percebeu que aquilo era uma prática dos escritores. Pensou então que estava no caminho certo. De repente ouviu do pai um comentário solitário: “Parece que esse jogo não é só pontapé na bola. Tem um quê mágico. Havia emoção, uns passos de dança, um tango argentino com um toque do samba brasileiro”.  Propôs então um acordo ao filho: “Você torce para o time do  reaça e eu  para  o  alvinegro.  Se  seu time vencer, te levo para trabalhar comigo e vou te ensinar o meu ofício”.  Mal terminou de falar e Ricardo dizer “Combinado”, o menino volta os olhos para o campo ao ouvir um ruído crescente e perceber várias pessoas se levantando, e então gol do time de branco. E Ricardo comemorou como se já torcesse para o Fluminense desde os tempos em que vivia em Maceió. De soslaio, Ricardo notou que seu pai estava cada vez menos alheio ao jogo. Por um instante achou que viu um brilho juvenil e moveu os braços como se estivesse torcendo quando o alvinegro foi ao ataque.

No intervalo do jogo, Nelson Rodrigues fumava um cigarro. Ricardo aproximou-se dele, tomou coragem e bateu em seu ombro:

– Seu Nelson, por que você e seu irmão torcem para times diferentes?

– Menino, você devia perguntar isso a ele e não a mim. Eu diria que ele passou a torcer pelo Flamengo por conta da eterna briga entre irmãos, um aquerendo ser diferente do outro.  Mas saiba de uma coisa. Outros times se dizem também tricolores, mas tricolor é o Fluminense. O resto são todos times de três cores.

E Ricardo anotou mais uma frase. Continuou a vibrar com cada momento daquele jogo. Qualquer movimento no campo e na arquibancada lhe dava prazer. Porém, mais do que tudo, o que mais gostou, foi quando seu pai fez algo que não costumava fazer desde que chegou ao Rio. Ricardo olhava atentamente o campo, quando sentiu um toque em sua cabeça da mão esquerda de seu pai. Depois, colocou a mão em seu ombro esquerdo, abraçando-o.

– E aí, moleque? Está gostando do jogo, não é?

– Sim, me simpatizei com o time de branco. Acho que vou ser Fluminense.  Semana que vem tem jogo contra o Vasco. Seu Nelson me chamou. Posso ir com ele?

O pai disse que não achava boa idéia. Ricardo já baixava o olhar, quando o pai continuou:

– Deixa que eu te trago.

***

(*) Conto classificado em 2. lugar no VIII Prêmio UFF de Literatura, em 2014.

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Zé das Penas – Consuelo Ramos Sozzi

agosto 1, 2014

Zé das Penas
Recebi esta semana um livro infanto-juvenil com bastante ansiedade.  Os últimos que eu tive em mãos foram os que eu presenteei meus sobrinhos (adoro dar livro de presente) e os que tenho usado na minha pesquisa do Mestrado sobre a presença da cultura popular na literatura, principalmente o excelente “Histórias de Alexandre” de Graciliano Ramos. O livro que me chegou foi esse que aparece como título dessa postagem: Zé das Penas. Simplesmente adorei. É de se admirar que esse tenha sido o livro  de estreia de Consuelo, pois o que aparece nas letras do livro é uma autora com pleno domínio do ritmo de uma história, com uma fluidez tão natural e agradável que dá a impressão de que ela já escrevia para crianças há décadas.

Para não tirar a graça de quem ainda não leu o livro, mas para dar um pouco de água na boca, a história traz o mote do “quem aumenta um conto aumenta um ponto”, de um matuto que ao perceber que a comida estava faltando em sua casa, decide vender a galinha para poder comprar mantimentos, ou melhor, trocar a galinha pelos mantimentos. E partindo de algo tão simples, como simples é a gente daquele povoado, que seus personagens conseguem transformar em histórias de aventuras fabulosas, como só a sabedoria e cultura popular são capazes.

Sim, eu recomendo. O livro foi publicado pela editora Inverso, de Curitiba. Creio que deve ser mais fácil encomendar por lá. Como foi lançado há pouco, não sei como está a distribuição nas livrarias virtuais.

Miss Eucalipto

dezembro 19, 2012
Miss Eucalipto
Carlos Benites
american woman in Italy
            Meus amigos, vocês me dão o prazer da visita toda noite para ouvir meus causos e tomar um cafezinho. Não sei se já lhes contei sobre a moça que vivia lá numa casa no morro no Bairro de Fátima. Não contei sobre a famosa Miss Eucalipto? Eu a revi esses dias lá num dos bares da Rua São José.  Eu a conheci quando tinha meus 13 anos, embora tanto eu quanto ela já morássemos há muito mais tempo. Segunda-feira, lembro bem desse dia, pois eu quis chegar mais cedo na escola já que no domingo o Fluminense tinha vencido o Fla-Flu e assim queria ter tempo para passar na banca e comprar o Jornal dos Sports e chamar os amigos tricolores para sacanear a urubuzada. Lembro que todas as discussões das segundas eram acaloradas e os derrotados do domingo nem podiam se dar ao luxo de se esconderem, pois ainda restavam mais cinco dias até que chegasse o próximo final de semana. Pois então, chegar mais cedo era uma tarefa inglória para mim, mesmo com o despertador altíssimo e com minha mãe precisando me chamar quatro vezes e até apelando para jogar uns pingos d’água no meu rosto. O uniforme foi colocado no automático, com os olhos ainda semicerrados e remelentos. O pão com manteiga e o café com leite foram engolidos em segundos e foi só ouvir a vinheta da Rádio Globo, “são sete horas em ponto” para ouvir o barulho do  motor do ônibus, o famoso 3, que passava de meia em meia hora. Desesperei-me, não vai dar tempo. Escovei os dentes tão cuidadosamente como coloquei o uniforme, que ficou com os botões em casas trocadas, e saí correndo para tentar alcançar o ônibus, aproveitando que ele daria a volta no quarteirão do Edifício Marilúcia para retornar à Rua Andrade Pinto.  Consegui. Esbaforido, entrei na condução, paguei a passagem, satisfeito por ver que chegaria bem cedo ao Grupo Escolar Raul Vidal. Em poucos minutos eu já ia descer do ônibus, que me deixava não muito próximo do colégio, pois meu ponto era próximo ao Moinho Atlântico, onde também desciam os operários que trabalhavam nos estaleiros próximos e no próprio Moinho. Quando me preparava para descer do ônibus, alguns bancos a frente se levanta a tal Miss.  Não reparei na hora, pois ela era apenas mais um passageiro querendo chegar a seu destino.  Mas assim que desci, e como ela ia na mesma direção que eu, comecei a nela reparar, pois ela ia na frente e todos os homens que vinham da direção contrária, ao passarem por ela, voltavam o pescoço em 180 graus. E a cena ia se repetindo. No início eu ri, mas aí passei a também a acompanhar com interesse o andar da musa dos operários que caminhavam pela Rua Feliciano Sodré. Vinicius diria que seu balançar era mais que um poema, a coisa mais linda que eu já vira passar. A calça jeans justa torneando os seus largos quadris lembravam aos da famosa mulata das Sardinhas 88. Devia ter 20 ou 22 anos no máximo. Minha timidez adolescente não me deixava olhar incessantemente para tal objeto de desejo de 10 entre 10 transeuntes do sexo masculino, mas cuidadosamente diminuí meu ritmo para poder ficar a uma distância dela e não ultrapassá-la. Até algumas mulheres tinham sua atenção voltada para a tágide operária. Ela entrava na Rua Barão de Amazonas e eu seguia meu caminho não sem antes dar uma última olhada em direção à morena de longos cabelos negros.
Cantada Miss eucalipto
            Deixa eu pegar um café que a Cesária fez. Vocês querem com açúcar ou adoçante? Seu Libório poderia tocar uma modinha enquanto isso. Dona Das Dores, pegue uma bolacha nesse pote. Mestre Gaudêncio, o senhor é de casa, não está esperando que eu lhe leve a bandeja, né? Seu Firmino, a cegueira não impede do senhor saber de cor todos os cantos de minha casa.  Só vou colocar o cafezinho para o senhor, o restante pode se servir. … Mas voltando à história, eu fiquei sem saber quem era aquela exuberante jovem, mesmo ela fazendo parte de minhas manhãs de segunda a sexta. Foi quando numa conversa entre minha mãe e minhas primas, ouço-as comentando daquela mulher que nenhum homem do bairro tira o olho, com um corpo de dar inveja,  que morava naquela casa que ficava isolada no meio do morro ao lado de um pé de eucalipto, e que todos diziam ser amante do português dono da quitanda. O português era todo sorriso quando a Miss Eucalipto passava, finalizou minha prima Lucia.  Aquele nome bateu nos meus ouvidos como música. Miss Eucalipto!  Miss Eucalipto! A Miss dos eucaliptos! Título bem merecido.  Nome bem mais justo do que aquele conto do Machado, Miss Dólar, que, se vocês não sabem, era o nome de uma cadelinha.  Mas a minha Miss Eucalipto não se perdia. Estava pontualmente no ônibus das 7 com suas calças jeans justas, requebrando os quadris, num rebolado natural. Pode ser que a nostalgia faça agora um desenho mais bonito às minhas lembranças, mas eu digo que era como uma cena em câmera lenta no cinema. No meu último dia de aula daquele ano ela apareceu diferente. Não estava com suas jeans. Estava com um vestido azul que ia na altura de seu joelho. Talvez por não estar acostumada a tal vestimenta, seu andar parecia meio atrapalhado, e ficou mais ainda ao perceber que ventava, não uma ventania, mas um vento suficiente para balançar o tecido do vestido. Os homens, que nos outros dias já voltavam o pescoço, naquele dia faziam também uma torcida silenciosa para que o vento lhes fosse generoso e lhes desse de presente uma visão até então misteriosa. Dessa vez eles passavam e paravam. E eu junto com eles na torcida. Disfarçadamente, pois temia ser chamada minha atenção por alguma senhora, afinal um menino teria que manter a compostura. E enquanto isso, a Miss Eucalipto tentava segurar o vestido num lado e depois em outro. O vento parecia sapeca, querendo surpreendê-la. Enfim, para alegria dos operários em volta, o vento dribla a atenção da morena, fingindo que levantaria na coxa direita e partiu para a esquerda. Nossa morena, surpreendida pelo vento, numa última tentativa de não dar o espetáculo esperado, foi com as duas mãos segurar as abas do vestido.  Além de não impedir que todos se alegrassem com a visão das coxas roliças e da calcinha branca, acabou por deixar cair uma pasta que trazia junto com sua bolsa. Envergonhada, abaixou-se para pegar a pasta. Intuitivamente, eu que estava atrás, mais rápido que ela, peguei sua pasta e algumas moedas que também foram ao chão e entreguei a ela. Ela parou e me deu um sorriso de presente. Pegou a pasta, as moedas… Você não é o Santiago, filho de Dona Rita? Ela me reconheceu. Eu não era invisível para a Miss Eucalipto. Disse então que estava com pressa, e que tinha que correr para não ser despedida. E por fim, agradeceu-me com um beijo. Intuitivamente eu girei meu rosto para que não tocasse na bochecha e sim nos lábios, mas ela deve ter percebido minha intenção e fez um contragiro, mas ao receber o beijo vi que meu movimento foi suficiente para a lateral de seus lábios tocassem a mesma parte dos meus.  Ou imaginei que houve esse toque. Um milímetro dos lábios da Miss Eucalipto foi como se tivesse recebido um beijo de cinema. Ela não me repreendeu. Sorriu e continuou sua caminhada, dessa vez sem vento.
vento
            Como era meu último dia de aula no meu último ano no Raul Vidal, aquele tinha sido meu último encontro com ela naquela região.  E mesmo no bairro de Fátima, eu só a vi poucas vezes. Depois de algum tempo nunca mais a vi. Isso até semana passada. Fui com amigos beber uma cervejinha num bar perto do Paço Imperial. O dono do bar, seu João, bastante simpático, parou para conversar com meu grupo. Contava piadas e todos nós gargalhávamos. Meu amigo Zé falou que eu era o único que morava num local com uma bela vista, que eu era de Niterói e assim podia ver as belezas do Rio. Seu João disse então que sua mulher nascera em Niterói. De que bairro o senhor é? Bairro de Fátima? Acho que a Regina era de lá também.  Regina!  Regina! Venha cá.  Ela é quem faz essa comida gostosa que os senhores estão comendo. Uma figura feminina surge na porta da cozinha. Uma figura envelhecida, com as manchas de gordura no rosto e no avental. Quando ela se aproxima de nossa mesa, olho o seu rosto, e ao cruzar com seu olhar por um segundo, vi que a conhecia. Sim, era ela. Mas aquela visão maltratada me fez mal. Fiquei chateado por desmontar minha última imagem da Miss Eucalipto. Como aquela mulher ali em frente foi capaz, em um segundo, de destruir a bela lembrança que eu tinha? Tive vontade de me esconder, de não estar ali. Por vários anos, vez ou outra, principalmente ao me sentir solitário, recorria às recordações da Miss Eucalipto e daquele beijo. Pequeno, um milímetro, mas o melhor beijo que aquele menino de 13 anos podia ter. Seu João perguntou se ela era do Bairro de Fátima, e logicamente ela confirmou e me apresentou. Ambos nos olhamos, e acredito que a minha reação de repulsa, de querer expulsar a nova imagem da Miss Eucalipto, refletia no que ela sentiu e expressou.  Percebi que ela me reconheceu também, mas em um segundo mudou sua feição, como se estivesse buscando algo na memória. Disse que não lembrava. Intui que ela não queria que eu tivesse aquele choque de realidade, que a imagem que eu tivesse dela fosse aquela de 1982. Parecia que eu estava em frente da avó da Miss Eucalipto e não da própria.  Aos poucos passei a ter um pouco de carinho misturado com pena daquela senhora.  Possivelmente ela teria 50 anos ou um pouco mais, mas parecia ter bem mais de 60.  Disse que também não me recordava dela, me desculpando, pois eu não seria bom fisionomista, que costumava me esquecer de pessoas que conheci há uma semana. Aquela mudança também a machucava. Mas aquela situação me incomodava tanto, que logo arrumei uma desculpa para sair, que não podia ficar mais tempo por lá, que teria que acordar cedo. Mentira, mas todos acreditaram. Torci para que a ex-Miss Eucalipto, agora Dona Regina, voltasse para a cozinha. Vim para casa tentando apagar dona Regina da mente e imaginando aquele doce e sensual andar, na câmera lenta de um Sidney Polack ou de um Fellini. Da voz doce me agradecendo e não da voz rouca e cansada que saía da cozinha. Até Cesária ficou triste depois que eu lhe contei o que tinha acontecido. Mas essa reunião aqui é para a gente se divertir e não para que eu transmita minha tristeza. Prometo que amanhã eu conto uma história porreta. Vou abrir uma cerveja geladinha pra gente.

Um conto em Paris

janeiro 5, 2011

Um Conto em Paris

O sol ainda batia naquele dia quente de Verão quando Seu Fabiano maldizia o Governo, que tinha inventado que 6 da tarde passava a ser 7 horas bastando assinar um papel. Em frente da casa, olhava a parte baixa do Morro, aguardando os amigos que o visitavam todos os dias naquele mesmo horário. Fabiano pensava de quando veio para o Rio, escapando de mais uma longa seca, com Sinhá Vitória e seus dois filhos que conseguiram se salvar do sofrimento, da fome e doenças no Sertão.  Mas os filhos não tiveram a mesma sorte no Rio. O filho mais velho morreu vítima da polícia, que o confundiu com um ladrão. O mais novo morreu pelos bandidos que imaginaram que ele fosse informante da Polícia. Pensava também no milagre que o Rio fez ao transformá-lo num grande proseador, depois de ser por anos de viagens tentando procurar por uma vida melhor para ele e os filhos, sempre com poucas palavras. Parou de pensar quando os amigos chegaram. Na sala pequena estavam acocorados o amolador de facas Seu Honório, que já cochichava ao ouvido da mãe-de-santo Dona Fortunata sobre um trabalho encomendado. Dona Sacha, uma senhora de apartamento, como Fabiano costumava dizer, sentava-se sobre uma lata que fazia as vezes de cadeira, e encarava Seu Ezequiel, um negro velho, ex-mendigo de rua, que morava com Seu Fabiano e a Sinhá há cinco anos, e que estava de pé. Dona Vitória iniciou o falatório:

– Paizinho, por que você não conta de quando você foi intimado a ir a tal de Paris atrás daquele alemão de bigode fino que mandava matar judeu?

– Seu Honório, a palavra de Vitória para mim é uma ordem, é o próprio Evangelho. Concorda comigo, Seu Ezequiel, Dona Sacha e Dona Fortunata?

– Somos todos ouvidos, Major – disse o mendigo apoiado pelas duas senhoras.

– Saberão vossemecês que esse caso estava meio esquecido no meu quengo. Mas Vitória tem o mau costume de sapecar essas lembranças em cima da gente de supetão. Tudo começou quando algumas estripulias minhas de quando vivia no sertão, foram parar nos ouvidos de um doutorzinho que foi prefeito nas Alagoas, Dr. Graciliano, e que era metido que só ele a escrever bonito de coisas sobre o sertão de Deus. Pois não é que o tal doutor decidiu pegar minhas histórias e colocar em letra de forma em alguns folhetos nas feiras do povaréu? Pois acreditem. E as histórias começaram a correr pelas cidades grandes. E esses moços de letras procedem desse jeito, cheios de floreios, estiram o negócio, inventam, pois precisam encher papel. Quando me mostraram o folheto, descobri que o doutorzinho me deu nome de Alexandre, e Sinhá Vitória passou a ser Cesária. Veja só que absurdo, Dona Sacha. Tempos depois, um artista da televisão também mangou comigo, me mostrando como um mentiroso de nome Pantaleão. E logo eu que detesto exageros. Não reclamo que falem sobre mim, mas quero que digam só o que eu fiz. Se alguma vez vossemecês ouvirem falar de minhas histórias em cantorias ou em folhetos, saibam que as nove-horas são astúcias do poeta.  Imaginem que ele escreveu que num certo dia eu estava numa canoa que afundava e, para salvar minha pele e das beatas lá presentes, fiz outro furo para que a água saísse por ele. Não digo que isso eu não faria, mas por que não contar o certo, que eu me joguei no São Francisco, amarrei uma corda na canoa e nadei até a outra margem puxei a bicha? Mas não, ele gosta dos despotismos. Seu Ezequiel está aí coçando a barba por falta de banho ou quer falar alguma coisa? Fala logo, homem de Deus!

– Já que o senhor insiste… O senhor devia ser muito forte para nadar e …

– Seu Ezequiel está duvidando de minha palavra? Se estiver, desembucha e eu paro aqui mesmo, pois não gosto que desconfiem de mim. Do contrário, continuo.

Como o negro calou-se, Seu Fabiano prosseguiu.

– Mas saiba o senhor que eu até mostraria a corda que eu usei. Isso se Vitória não a tivesse usado para secar as roupas e de tanto uso se finou. A Sinhá está aí para confirmar o que eu disse, pois ela estava do outro lado do rio, rezando para o Padre Cícero – e a mulher confirma com a cabeça. Mas me deixem continuar, pois se depender do Seu Ezequiel eu nunca chego a tal Paris. E nesse sucesso dos folhetos, um doutor general lá dos estrangeiros também ficou sabendo, e estava encacholando uma idéia de vencer a Guerra. Vocês devem se lembrar dessa guerra, vinha japonês voando raso e se jogava sobre os navios americanos. Vi uma vez no cinema. Um alemãozinho que tinha muito orgulho de seu bigode, invadiu a tal Paris e mais outros países da Europa. Dizem que o povo dessa Paris não gosta de banho. Vejam vossemecês, a gente do sertão andava mais de dez léguas para encontrar um bocadinho de água e a gringalhada cheia de perfume não era chegada. O plano do doutor americano era de mandar os seus meganhas prenderem o bigodudo, mas o diacho do homem era escorregadio que nem cobra, tinhoso que só ele. Desse jeito eles espalharam o boato que mandariam 10.000 navios lá na praia de Normandia e achavam que assim o alemão iria correndo para Paris que era ali pertinho, e de lá comandar seus homens. Claro que 10.000 navios era um exagero digno daquele prefeito. Eles mandaram só dois navios bem pequenos. Entendem? Era só um disfarce. E não é que o tal gringo estava certo? Os alemães foram quase todos para aquela praia. Mas prender o alemão era difícil. O gringo leu no folheto do prefeito uma história cheia de exageros, que dizia que eu havia acertado a orelha e o pé de um veado com um só tiro. Uma invencionice dos diachos. E eu vou ter que esclarecer essa história para depois continuar com a história de Paris. O que ocorreu foi que uma mosca perturbava as vacas da fazenda. As vacas ficaram agitadas, e quis matar a varejeira. A danada fugiu lá pro morro. Eu que morro de raiva desses bichos nojentos, que teimavam de posar sobre a carne das vacas do sertão, peguei minha espingarda e tasquei-lhe um tirambaço. Azar do veado que a mosca tinha resolvido posar justamente na sua orelha.  Vitória foi quem tratou do veado, que infelizmente acabou finando e depois parou no nosso bucho. Mas antes que Seu Ezequiel venha com perguntas inconvenientes, eu prossigo. Por culpa do tal Graciliano, o gringo acreditou que eu podia atirar no alemãozinho em Paris lá do meio do mar. O plano dos gringos era esperar que eu o acertasse para depois libertar a cidade.

– Seu Fabiano, o senhor sabe falar estrangeiro?

– Saber não sei mais, mas na época eu sabia. Deram-me um livreto para aprender a língua enquanto eu viajava das Alagoas até a Europa. Aprendi, conversei com eles, e depois desaprendi. Para que eu haveria de continuar sabendo se lá no sertão e aqui no morro só tem ignorante que nem sabe falar brasileiro? Mas aí o extraordinário aconteceu. Eu ouvia uma voz em língua gringa de alguém me chamando. Olhei e vi um papagaio muito falador, que falava estrangeiro. Disseram que era de um pirata e que depois passou a pertencer ao navio do americano. Assustei-me, pois só conhecia dois papagaios assim, mas que já haviam morrido. O bicho disse que era primo de um papagaio brasileiro, mas que decidiu voar pelo mundo e chegou ao navio do pirata. Disse ainda que o tal pirata tinha lhe dado um tesouro que não era para contar aos gringos, mas que resolvera contar para mim porque viu que eu era homem de moral. O tesouro era uns óculos que faziam enxergar muito distante. Eu tinha uma vista normal, mas o máximo que conseguia era acertar num passarinho que posasse lá nos braços do Cristo – e apontou para o Corcovado, e todos o olharam com admiração – Agora, o que o gringo queria era um despropósito, um despotismo sem tamanho. Acertar o alemão lá do mar? Mas os óculos estavam ali para me ajudar. Pensei em tudo. Era de manhã quando estava a algumas léguas da tal Paris. Coloquei os óculos, vi a foto do alemão e comecei a olhar para lá. No meio de uns soldados, perto de um monumento em forma de arco eu o avisto. Peguei minha espingarda lazarina, limpei o cano por dentro e mudei a espoleta que já estava velha. Ele estava num uniforme preto. Fiquei esperando o danado se virar. Não queria feri-lo para machucar, pois sou de paz, só queria desmoralizá-lo. Ouvi um dia a história de um cabra que tinha as forças nos cabelos. E como o alemão era muito apegado ao bigode, percebi que estava ali sua força. Fiz pontaria, puxei o gatilho e PUM. Só que na hora passou uma borboleta que fez o alemão virar o rosto e acabei raspando só o lado direito do bigode. Aquilo o assustou, mas o danado conseguiu se esconder. Só que o tiro foi o suficiente pra que os alemães se assustassem. Aproveitei a confusão e mandei o navio se aproximar. Depois, pedi uma canoa e fui remando sozinho o resto da manhã. Cheguei de tarde lá naquele Arco onde tinha visto o alemão. Deram depois o nome de Arco do Triunfo, pois fora ali que comecei a triunfar. Comecei a caçar o meio-bigodudo. Tinha que terminar o serviço para ele ficar desmoralizado perante os seus soldados. Comecei a olhar por toda cidade. Tinha ouvido falar de uma Bastilha, mas não a encontrei. Disseram-me que ele poderia estar numa tal de Catedral de Notre Dame, onde tinha vivido um corcunda, mas nada do bigodudo lá. Já era noite, quando resolvi subir no alto da catedral. De repente avisto uma enorme torre de ferro em formato de triângulo. Nunca tinha visto tanto ferro assim. Um despotismo que daria para fazer ferraduras para todos os cavalos do sertão e ainda sobrava. Era tão grande que se a cravassem no pé deste morro, esta casa não estaria nem na metade. No alto da torre estava o alemão, mas com o bigode inteiro. Aquilo me encafifou. Peguei então os óculos, e vi que o outro lado era tinta. Minha tarefa era tirar o outro lado do bigode, mas ainda restaria o lado pintado. De repente, achei a solução. Apontei e PUM. A bala raspou o bigode que restava. Depois vi o rosto do alemão igual ao de um neném. Seu Ezequiel está aí doido para perguntar sobre o bigode feito de tinta? Chovia, e a bala pegou a primeira gota, que seguiu e pegou outras no caminho. Quando a bala chegou no alemão, levava mais de meio litro d´água, que lavou o bigode de tinta. Sem bigode, ele perdeu o respeito dos oficiais, que resolveram se render. Bem, essa é a história verdadeira. As que contam nos livros são invencionices do povo do estrangeiro. Não é isso mesmo, Vitória?

Carlos Benites, agosto de 2009

Texto finalista no III Prêmio UFF de Literatura