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Guerra dentro da gente – Paulo Leminski (*)

julho 8, 2013

(*) Esse texto é parte de um artigo acadêmico para o Curso de Especialização em Literatura Infanto-Juvenil da UFF, no ano de 2008.

Um artista eternamente em busca de paz

Paulo Leminski, que se define como um “bóia frio do texto, trovador apaixonado, cançonetista, apanhador de arrepios e acrobata”, e que diz “não sou um poeta de fim de semana, eu faço poesia sem parar”, é um artista de muitas faces, que produz em muitas áreas e que desde cedo chamou a atenção do público pela sua cultura, intelectualidade e genialidade.  Começou escrevendo poesias, mas de um jeito próprio e marcante, com poemas curtos que traziam sempre sua marca, com trocadilhos, usando ditados populares e até “haicais”. Considerado por muitos como um artista multimídia, também produziu durante muito tempo na área musical, como letrista e parceiro de muitos cantores brasileiros de renome, como Caetano Veloso, Torquato Neto e Moraes Moreira. Como um artista inquieto, também se tornou conhecido como tradutor de autores como James Joyce, John Lennon e Samuel Becket, entre outros. Além de uma vasta obra poética, onde ganhou grande visibilidade, e sendo inclusive bastante premiado, Leminski também teve uma boa obra em prosa. Também produziu biografias e ensaios e, por fim, decidiu escrever para o público infanto-juvenil, como a obra Guerra dentro da gente, lançada em 1986, e que é tratada no presente trabalho.

Leminski, por ter nascido ao final da segunda grande guerra, e ter vivido durante a época do início da guerra fria, a era “hippie”, a bossa-nova e vários movimentos literários e musicais, acabou tendo em sua formação toda essa influência e uma ampla base cultural, responsável por trazer ao público uma obra de grande qualidade, dando uma visão de mundo para todos que o lêem. Em Guerra dentro da gente, podemos enxergar Leminski e tudo o que ele pensa. Numa obra em que o próprio título já fala de guerra, mas uma guerra própria, que é enfrentada pelo indivíduo, dentro da gente, podemos visualizar o perfil do autor e sua personalidade pacífica. O poema de sua autoria Guerra sou eu, e a imagem em que aparece o manuscrito de outro poema do autor, Bom poema, parecem dar uma idéia, em poucas linhas, de uma visão do referido livro e do próprio autor e sua obra:

Guerra sou eu

guerra sou eu

guerra é você

guerra é de quem

de guerra for capaz

 

guerra é assunto

importante demais

para ser deixado

na mão dos generais

P. Leminski

(a pontuação, ou falta de, além do uso de minúsculas, são marcas do autor)

***

 Bom poema 

um bom poema 

* * * * *

Guerra dentro da gente

O presente livro tem como personagem principal Baita, que tem sua história contada desde criança, numa infância mal-tratada, com um pai truculento e uma mãe frágil, até sua velhice já como um grande chefe guerreiro de um reino. Ao vermos o início e o fim da história, podemos imaginar quantas mudanças ocorreram na vida desse menino. A primeira dessas reviravoltas se deu quando Baita encontra o velho Kutala numa ponte enquanto carregava lenha para sua casa. O velho era uma figura misteriosa e assim propôs ao menino ensiná-lo a arte da guerra, mas para isso ele precisaria estar no mesmo local em certa hora do dia. Para saber que horas que Kutala queria, Baita teria que desvendar uma espécie de adivinha (houve outra posteriormente). “Então, esteja aqui amanhã, quando a cor da água do rio passar da cor da asa do estorninho para a cor do nenúfar”. Foi o que disse o velho, mas o menino não fazia idéia do que seria “estorninho” e “nenúfar”. Consultou os pais, que ao ouvirem falar do velho logo se assustaram, dizendo que ele seria um espírito maligno que carregaria o menino para longe. Isso não assustou o menino, talvez porque mesmo que fosse verdade o que os pais o alertavam, ele não teria nada a perder, pois sua infância era sofrida demais, e o que poderia ser pior para ele do que um pai bruto e injusto com ele? Além disso, tinha o fato de que ele poderia ter contato com a arte da guerra, a arte que é ensinada somente a reis e generais, ou seja, pessoas poderosas. Ele correria o risco.

Logicamente não soube que hora seria aquela ligada ao estorninho e ao nenúfar, e foi repreendido pelo velho por não chegar na hora certa, dizendo que ele não estaria pronto para a arte da guerra. Mas deu-lhe outra chance, pedindo que voltasse no dia seguinte, e novamente com um segundo jogo de palavras para dizer a hora a chegar: “se você ainda quiser aprender a arte da guerra, esteja aqui amanhã, quando a voz do vento deixar de dizer adeus e começar a dizer venha.”  E no dia seguinte, mesmo achando que tinha conseguido ouvir a voz do vento dizendo tudo o que o velho havia dito que ele diria, novamente não conseguiu chegar na hora que o velho esperava.  Só que Kutala, mesmo irritado, disse que Baita poderia decidir o que fazer e quando, pois quem quer ser mestre da arte da guerra, “não pergunta aos outros o que deve fazer”. Decidiu ir naquela hora. Mas logo depois deparou com uma surpresa: ele fora enganado pelo velho que o levou para ser vendido como escravo. Essa foi a primeira das reviravoltas pelas quais Baita passou em sua vida, e isso mostra um traço interessante na formação de uma boa ficção, com um traço que não é contínuo, linear e sem surpresas e mudanças inesperadas (inesperadas, porém verossímeis). Outras mudanças ocorreram, algumas para testar a confiança de Baita em Kutala, e isso se tornou um dos principais conflitos vividos por ele em sua vida inteira, a de que deveria decidir se confiava ou não no que Kutala lhe propunha (e foram várias vezes por toda vida). Seria capaz de aprender a arte da guerra e Kutala lhe ensinaria mesmo a tal arte? E assim foi sua vida, cheia de conflitos e de decisões, onde tinha que aprender qual caminho a seguir, e de aprender com erros e acertos. E essa seqüência de decisões foi o seu maior ensinamento.  Quase sempre a princípio Kutala o trapaceava, mas depois ele aparecia sempre com um aprendizado novo. Baita chegava a sentir raiva por Kutala aparentar sempre ter razão no que falava e fazia.  Uma das principais aprendizagens de Baita foi de que “a arte da guerra faz parte da vida. Se você tem mesmo que aprender a arte da guerra, você tem que aprender a vida. E a vida só se aprende vivendo.”

E vivendo, Baita foi experimentando várias situações em que a violência estava presente, viva. No entanto, essa violência é totalmente pertinente. Isso mostra que um livro que seja voltado ao público jovem pode perfeitamente ter a violência como um de seus temas. A violência faz parte da vida. Como diz Nilma Lacerda em Cartas do São Francisco:

“Se fazemos literatura para crianças e jovens, não devemos nos furtar a esse encontro. Temas como morte, preconceito, guerra, suicídio, assassinato, tirania não têm por que estar ausentes dos livros destinados a crianças e jovens. A vida não é cor-de-rosa, e as crianças o sabem. O mundo não é de cordeiros, elas também o sabem e experimentam tanto a posição destes quanto a do lobo que se evidencia na sua crueldade, ou vem a disfarçá-la, fazendo-se carneiro entre carneiros. Como em outras questões, o guia essencial é a criança em nós, capaz de sabiamente marcar a diferença entre o conflito e o escândalo, entre a emoção e a degradação.”[1]

E foram várias e duríssimas vivências que Baita teve, de escravo, alimentando animais de circo, fugas, noites mal dormidas, pouca ou até nenhuma comida às vezes, ameaças de morte trabalhando num navio, prisioneiro, guarda do Reino e vários cargos de chefia até ocupar o cargo máximo de chefe dos Exércitos. Tudo isso não só com fatos, pois logicamente acompanhavam diversos personagens, e junto com fatos e personagens, as “idéias”. Entre os personagens temos Baita, Kutala, os pais de Baita, os marinheiros, os diversos trabalhadores do circo, o Rei, a Princesa e sua ama, os guardas do rei etc.  Entre os fatos, ou o enredo, temos as várias vivências experimentadas por Baita, na sua casa de infância, no circo, no navio, na floresta, na grande cidade, no Reino. E as idéias seriam tudo que Baita aprende, o que ele descobre da vida apenas “vivendo”, os caminhos que ele decide seguir, a arte da guerra, a arte da paz. O autor consegue entrelaçar esses três elementos que, como diz Antônio Cândido,

só existem intimamente ligados, inseparáveis, nos romances bem realizados. No meio deles, avulta a personagem, que representa a possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor, pelos mecanismos de identificações, projeção, transferência etc. A personagem vive o enredo e as idéias, e os torna vivos.”.[2]

Gide também se refere, com um exemplo que mostra o que ocorre em Guerra dentro da gente: “Tento enrolar os fios variados do enredo e a complexidade dos meus pensamentos em torno destas pequenas bobinas vivas que são cada uma das minhas personagens”. [3]

A história é narrada em terceira pessoa, de forma onisciente, mas que, ao mesmo tempo, deixa o leitor tirar suas próprias conclusões.

“Era um velho absolutamente comum. A única coisa de especial é que ele estava ali, naquele momento.” (p. 7)

“A noite estava fria. E o vento assobiava. Por um momento, Baita chegou a imaginar que o vento dizia algo como adeus. Ou seria venha?” (p. 13)

“Só uma coisa atormentava Baita: o desaparecimento da Princesa. Por isso não parava de tentar localizá-la. (…)Ele, no fundo, sabia que era ela. Mil vezes teve vontade de encontrá-la, abraçá-la (…) Mas ele a amava demais para isso.” (p. 61)

Estão presentes os arquétipos, que interdependem, pois um atua em função do outro, do herói – Baita – e do velho sábio, Kutala. Baita tem sempre pela frente um desafio, uma tarefa, sempre com objetivo de evoluir e aprender. Por outro lado, temos Kutala sempre na tarefa de orientar Baita em seu crescimento, mas nunca abertamente, sempre com um conhecimento disfarçado como um desafio para que o herói evoluísse. Um age junto do outro. Kutala pode também representar o arquétipo do ajudante, que está sempre junto do herói, mesmo que Baita não reconheça sempre que ele está ali para auxiliá-lo. Baita só é herói porque existe Kutala, e Kutala só representa o sábio porque existe o herói que tem o perfil para aprender a arte da guerra. Ele não ensinaria a arte da guerra a qualquer um que não mostrasse que pudesse cumprir todo o ritual de aprendizagem e evolução que Baita teve.

A aprendizagem que Baita tem é a mesma que o leitor também tem. Com tantas reviravoltas, sua sabedoria vai crescendo paralelamente ao crescimento como pessoa e amadurecimento de Baita. Para chegar até o total amadurecimento ao final de sua vida, o velho apresentou a ele o outro lado da vida, como a traição, a fome e a exploração e abuso de força e poder. Tudo isso servia para que ele entendesse outros valores que também seriam importantes para conhecer e aprender a arte prometida pelo Velho. A arte da guerra, que tanto foi procurada pelo menino Baita, foi mostrando que a guerra poderia não ser só a guerra dos homens, mas a guerra dentro dos homens. A guerra pode ser também a afirmação do amor e da paz, mesmo sem deixar de lado os valores de um verdadeiro guerreiro, como coragem (e medo), força (e fraqueza), fibra, dureza, virilidade e atenção. Heráclito dizia que “a guerra é o pai e o rei de todas as coisas”. A agressividade e a violência também são inerentes ao homem, assim como a luta pela sua preservação. A humanidade cresceu também com esses valores, e muitas vezes em função deles. Porém, a vida é um dom bastante precioso para que ela seja relegada somente a sentimentos vulgares onde só ódio e violência sejam preponderantes. E um dos maiores aprendizados que Baita teve, e o leitor também, é que todos esses sentimentos se bem canalizados podem representar uma fonte de vida e não de morte.


[1] Nilma G. Lacerda. Cartas do São Francisco. São Paulo: Global, 2003. p.20.

[2] Antônio Cândido. A personagem do romance, in Cândido, A. et al.A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 54.

[3] Cândido, 2007, p. 54  apud Gide, Journal dês Faux-Monnayeurs, 6.me edition, Gallimard, Paris, 1927, p. 26.

O saci

julho 6, 2013

Você revisa o texto que vai enviar para a EdUFF uma, duas, três … seis vezes. Olha todas as páginas, pois a gente sempre  esquece de incluir uma vírgula ou coloca outra desnecessariamente. Ou então pode ter um verbo mal colocado, ter que acertar uma coesão,  cortar uma parte pequena, trocar uma frase, diminuir aqui e ali, pois eles pedem que o texto tenha quatro páginas no máximo. Daí lembra que precisa ainda incluir a numeração das páginas e então corta mais um pouquinho. Revisa mais três vezes por conta das alterações. O total de revisões do texto inteiro deve ter ido a mais de dez. Aí você fica feliz por completar o trabalho perfeito e o envelopa e deixa na editora, com o sentimento de dever cumprido.
Dia seguinte liga para o amigo, conta sobre o texto e aproveita para abrir o arquivo. Aí você, com cinco segundos após ter aberto o texto, logo dá de cara com aquele errinho NO PRIMEIRO PARÁGRAFO. Logo o primeiro parágrafo que foi o que você mais mexeu e cortou. Estava lá desde o princípio e não o encontrei no meio das revisões. Então lembro da imagem feita por Monteiro Lobato, que dizia que depois de enviar o livro para a editora o errinho aparece na figura de um saci, que fica acenando para você, sorrindo com ar de deboche.

 

Ópera dos mortos

outubro 22, 2011

 

Há cerca de três meses, vi uma lista de livros que eu teria que já conhecer.  A lista era bem extensa. Cerca de 20 romances e mais 15 autores de poesia, dos quais eu teria que ter conhecimento de suas antologias.  Passei os olhos pelos romances e vi que cinco deles não tinha lido e os outros ou eu tinha lido alguns entre 2001 e 2005, e outros bem antes só uma vez ou mais de uma vez, em várias épocas.  Como não tenho impressora, copiei os nomes dos livros e os autores de poesia para me basear nas minhas leituras.  Para minha sorte, só tive que comprar dois dos romances e duas antologias, pois o restante todo eu já tinha ou sabia que um amigo teria e me emprestaria.  Como o tempo era curto, decidi que leria todos os que não tinha lido e faria uma revisão rápida dos que já conhecia.  Consegui cumprir minha agenda e no dia “D”, ainda revi a lista e minhas anotações.  Estava pronto.

Recebi então aquela folha, e vejo nela escrito AUTRAN DOURADO – Ópera dos mortos.  Congelei.  Como assim?  Eu tinha lido esse livro em 2001, mas ele não estava na lista.  O estado em que fiquei me deixou sem lembrar de nada do livro. O que houve que ele não estava lá.  Aos poucos acalmei e lembrei: o casarão, os velhos relógios quebrados, a filha que restara da família e ficara na casa, os ex-moradores que passaram a participar daquela ópera dos mortos que assombravam o ar daquele casarão, os velhos móveis, o tempo que deixava sua marca nas pessoas e na casa…  Bem, consegui lembrar muita coisa depois de algum tempo.  Chegando em casa, fui rever minhas anotações. Não estava lá Autran Dourado. Fui no site e, tal qual o saci que Monteiro Lobato classificava os erros tipográficos dos livros que ele revisava antes da publicação que só apareciam depois de publicados, a Ópera dos mortos  apareceu acenando para mim, sorrindo zombeteiramente de minha cara.

Como “castigo”, fui na minha estante e já estou relendo a Ópera.

Em tempo: o livro é muito bom.

A polêmica do Prêmio Jabuti

março 11, 2011
Um crítico literário dizia que a literatura é uma beleza, mas a vida
literária uma merda. Não sei se ele empregou o último termo, mas o
sentido seria o mesmo.
Isso vem a propósito da recente polêmica envolvendo os livros Leite
derramado, de Chico Buarque e Se eu fechar os olhos agora, de Ednei
Silvestre. A polêmica se deveu ao fato de o último romance ter obtido
o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2009, mas não ter levado o prêmio
de melhor livro de ficção do ano. Tal prêmio coube ao primeiro romance,
apesar de ter ficado em 2º lugar como melhor romance de 2009. O que
pode parecer uma contradição se explica facilmente. É que na escolha
de melhor romance o júri é composto apenas de críticos literários, ao
passo que na escolha do melhor livro de ficção o júri é ampliado,
integrado por editores, livreiros, agentes, distribuidores, etc.
Se os critérios não são justos, que se mude o regulamento. O dono da
Record achou-se no direito de espernear, conquanto saiba que as regras
são essas desde que o prêmio foi instituído. Por outro lado, o dono da
Companhia das Letras, em lugar de simplesmente responder com as
diferenças de composição dos respectivos júris, foi buscar argumentos
impertinentes, mencionando que a contestação reproduzia o baixo nível
da história política recente, etc.
Seria mais proveitoso para os leitores que a discussão se resumisse
aos romances em si. Não que faça pouco do valor dos prêmios. Eles
constituem o sistema literário, são um estímulo aos escritores,
funcionam como uma espécie de bússola para os leitores, movimentam o
mercado de livros, etc. Mas quando argumentos tão toscos são
esgrimidos, é de se lamentar.

(texto enviado por Benito Petraglia, em 11/03/2011) 

No elevador

janeiro 19, 2011

Hoje terei a colaboração de um grande amigo, Benito Petraglia, doutorando em Letras da UFF que, segundo me disse, passará a participar mais vezes desse espaço como responsável por alguns textos que aqui serão postados.  O primeiro texto é o conto abaixo, que posteriormente sofreu pequenas modificações para se adaptar às exigências do I Concurso Literário da UFF, realizado em 2007 e cujo tema foi “Aconteceu na UFF”, sendo então premiado em 2º lugar.

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NO ELEVADOR

Benito Petraglia

Agora, neste preciso momento, duas pessoas correm para o elevador. O elevador está vazio, prestes a fechar as portas. A mulher vai na frente, o homem viu da entrada do edifício o elevador vazio e correu também. Não sei o nome deles. A verdade é que não me preparei para contar essa história. Ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto. Dizem que as historias valem por isso. Contá-las, e contá-las, e contá-las teria o mesmo efeito de uma vacina que dessensibiliza a angústia  sempre na iminência de aflorar à pele. Eu, de minha parte, vejo essas idéias com suspeitas. Literatura não é instrumento, nem apêndice, nem estudo ancilar. Muito menos o escritor pode ser subsumido em qualquer outra categoria profissional, no caso aqui a de bombeiro ou de médico. Vocês podem achar contradição nessas palavras: se “ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto” é porque há razões íntimas, motivações profundas que me incitam a escrevê-la, uma angústia também me acossou e eu preciso me livrar dela. Não, meus amigos, a angústia que me acossou e me acossa é a angústia do momento, o momento é este, nem antes nem depois, é já seu usufruto, antes que minha história se esfume. Grosso modo, a natureza da inspiração que me avassalou corresponde àquela descrita por Guimarães Rosa no quarto prefácio a Tutaméia, em relação ao conto “A terceira margem do rio”: veio-me “pronta e brusca”. A imagem, entretanto, não é bem a de uma “bola vindo ao gol e eu o goleiro”, mas a de um seio vindo em direção a uma boca. Parei tudo para me dedicar a ela. Deixei de lado um conto quase findo, detive um poema muito lírico, atalhei uma prosa feita com critério. Mudei até de estilo para me entregar a ela, ou melhor, foi ela que me fez mudar de estilo. O que era sacrifício e dor transformou-se num fluxo fácil de palavras. Elas correm com tamanha volúpia ao meu encontro que não posso me mexer daqui. Sinto que vou exauri-la numa assentada, tal a premência desse turbilhão, tal a força que me impele sem descanso, sem descanso de posicionar um parágrafo. Não se preocupem com meus personagens, eles estão lá congelados, soltos num mesmo plano do espaço, pois o homem avançou, já está no saguão do edifício, a mulher ainda na frente, o elevador vazio. Não é de bom tom interromper a narrativa e ficar explicando, a explicação mata a ilusão realista de que se nutre o leitor. Não lhe interessa se esgueirar sob estacas e andaimes, o pó caindo sobre sua cabeça, ele quer passear pela varanda, ter a visão panorâmica da Baía de Guanabara. Necessita do acontecimento livre de arcabouços fluindo diante de seus olhos. Mas como disse, a história me colheu, não me preparei e ela me vem desse jeito, desorganizada, aos trambolhões. Nem posso afirmar que haja nela acontecimento. Minha fixação é com o instante, com uma cronologia parada. É como se um rio manasse entre margens imóveis ou a chuva deslizasse pelo vidro da janela e eu escolhesse as margens e a janela. Não, não, as analogias são impróprias, não lidam com viventes, mas com matéria inânime, e cronologia parada é um contrassenso, um paradoxo que precisa ser corrigido. Em realidade, são dois relógios distintos. É como se eu colocasse um pescador em uma das margens ou enfiasse uma mulher atrás da janela. Agora sim, agora há um tempo para o rio que mana e um  tempo para o homem pescando, um tempo para a chuva que canta e um tempo para a mulher cismando. Não é minha intenção vesti-la de condicionamentos ou contextos. Minha narrativa virá nua de fatos prévios. Não carece de roupa  para se apresentar, porque para o instante não importa se o homem é casado e tem dois filhos, se a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Ou talvez importe? Percebo já que para a economia da história, para o efeito visado, talvez importe; talvez importe, sim, para erigir o súbito à posição soberana, supri-lo de doses a mais de sortilégio. O homem é casado e tem dois filhos, a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Basta isso, não me peçam mais. Não me peçam para mergulhar de vez na incoerência. É esse o risco de quem se inebria no gozo orgiástico da musa dionisíaca. É certo que Borges, no transcurso de um conto, simplesmente declarou-se incapaz de continuá-lo; porque não acreditava nos personagens, abortou-o  abruptamente. Tem-se de admitir, me diz o leitor, que as histórias, via de regra, não acabam assim, quem ouve espera que elas tenham começo, meio e fim, é preciso um mínimo de compostura, toda criatura que merece a luz da ficção deve-se mostrar inteira. Não necessariamente, depende dos desígnios do autor e da conveniência do relato. Aqui, por exemplo, se a mulher, sem razão conhecida, atira no homem dentro do elevador e sai com toda a tranqüilidade no 23º andar para o consultório do dentista, ou se o homem, também sem razão conhecida, estrangula a mulher dentro do elevador e sai no 23º andar para o escritório do advogado – para mim, para os fins do comércio entre homem e mulher, é suficiente que o homem seja casado e tenha dois filhos e a mulher viva maritalmente e não tenha filhos. Se a vida é atravessada por lacunas, silenciada por segredos que se guardam para sempre, por que fazer da ficção uma decifradora de enigmas? Já é hora de movimentar os personagens, antes que minha língua imprudente acabe por precipitar toda trama. Os corpos vencem a inércia, ganham animação, a mulher entra no elevador, aperta o botão 23, o homem chega logo atrás, esbaforido, esbarra levemente na mulher, vê o botão aceso, dá um meio sorriso e fica de lado. Eles se ajeitam no espaço estreito e espelhado, procuram uma posição no ambiente fechado. Eis que agora, neste exato instante, enquanto se ajeitam e se posicionam, um olhar encontra o outro, não um olhar que logo se desvia, mas um que permanece, não um que se mira no remansado lago de Ricardo Reis, mas um que se perde nos perigos e abismos do mar português. Nunca é neutro o olhar entre homem e mulher, ele vem carregado de crimes e vícios, envolto em feitiço que remonta à origem dos tempos. Ninguém pode se atrever a discernir as conseqüências de um tal olhar, o gozo que se preliba a partir de um tal olhar, as carícias da minha pele na sua pele, o calor do seu corpo junto ao meu, minhas mãos palmeando passo a passo, a língua vindo atrás nos mesmos rastros, meus lábios nos seus lábios saciando a sede e a fome do desejo, seu sexo na minha boca minha boca no seu sexo, meu sexo no seu sexo, seus ais se somando aos meus no mesmo orgasmo, no mesmo espasmo nossos gritos no infinito se espraiando, você meu mundo sem minuto de marcar, furto do amor no tempo do relógio… Não sei de atos ou intenções, quem diz ou pensa; ou quanto dura enquanto o elevador sobe. O que sei é que as portas se abrem, a mulher sai primeiro, dobra à direita e vai para o consultório do dentista, o homem dobra à esquerda e vai para o escritório do advogado.

* * * * *

 

Um conto em Paris

janeiro 5, 2011

Um Conto em Paris

O sol ainda batia naquele dia quente de Verão quando Seu Fabiano maldizia o Governo, que tinha inventado que 6 da tarde passava a ser 7 horas bastando assinar um papel. Em frente da casa, olhava a parte baixa do Morro, aguardando os amigos que o visitavam todos os dias naquele mesmo horário. Fabiano pensava de quando veio para o Rio, escapando de mais uma longa seca, com Sinhá Vitória e seus dois filhos que conseguiram se salvar do sofrimento, da fome e doenças no Sertão.  Mas os filhos não tiveram a mesma sorte no Rio. O filho mais velho morreu vítima da polícia, que o confundiu com um ladrão. O mais novo morreu pelos bandidos que imaginaram que ele fosse informante da Polícia. Pensava também no milagre que o Rio fez ao transformá-lo num grande proseador, depois de ser por anos de viagens tentando procurar por uma vida melhor para ele e os filhos, sempre com poucas palavras. Parou de pensar quando os amigos chegaram. Na sala pequena estavam acocorados o amolador de facas Seu Honório, que já cochichava ao ouvido da mãe-de-santo Dona Fortunata sobre um trabalho encomendado. Dona Sacha, uma senhora de apartamento, como Fabiano costumava dizer, sentava-se sobre uma lata que fazia as vezes de cadeira, e encarava Seu Ezequiel, um negro velho, ex-mendigo de rua, que morava com Seu Fabiano e a Sinhá há cinco anos, e que estava de pé. Dona Vitória iniciou o falatório:

– Paizinho, por que você não conta de quando você foi intimado a ir a tal de Paris atrás daquele alemão de bigode fino que mandava matar judeu?

– Seu Honório, a palavra de Vitória para mim é uma ordem, é o próprio Evangelho. Concorda comigo, Seu Ezequiel, Dona Sacha e Dona Fortunata?

– Somos todos ouvidos, Major – disse o mendigo apoiado pelas duas senhoras.

– Saberão vossemecês que esse caso estava meio esquecido no meu quengo. Mas Vitória tem o mau costume de sapecar essas lembranças em cima da gente de supetão. Tudo começou quando algumas estripulias minhas de quando vivia no sertão, foram parar nos ouvidos de um doutorzinho que foi prefeito nas Alagoas, Dr. Graciliano, e que era metido que só ele a escrever bonito de coisas sobre o sertão de Deus. Pois não é que o tal doutor decidiu pegar minhas histórias e colocar em letra de forma em alguns folhetos nas feiras do povaréu? Pois acreditem. E as histórias começaram a correr pelas cidades grandes. E esses moços de letras procedem desse jeito, cheios de floreios, estiram o negócio, inventam, pois precisam encher papel. Quando me mostraram o folheto, descobri que o doutorzinho me deu nome de Alexandre, e Sinhá Vitória passou a ser Cesária. Veja só que absurdo, Dona Sacha. Tempos depois, um artista da televisão também mangou comigo, me mostrando como um mentiroso de nome Pantaleão. E logo eu que detesto exageros. Não reclamo que falem sobre mim, mas quero que digam só o que eu fiz. Se alguma vez vossemecês ouvirem falar de minhas histórias em cantorias ou em folhetos, saibam que as nove-horas são astúcias do poeta.  Imaginem que ele escreveu que num certo dia eu estava numa canoa que afundava e, para salvar minha pele e das beatas lá presentes, fiz outro furo para que a água saísse por ele. Não digo que isso eu não faria, mas por que não contar o certo, que eu me joguei no São Francisco, amarrei uma corda na canoa e nadei até a outra margem puxei a bicha? Mas não, ele gosta dos despotismos. Seu Ezequiel está aí coçando a barba por falta de banho ou quer falar alguma coisa? Fala logo, homem de Deus!

– Já que o senhor insiste… O senhor devia ser muito forte para nadar e …

– Seu Ezequiel está duvidando de minha palavra? Se estiver, desembucha e eu paro aqui mesmo, pois não gosto que desconfiem de mim. Do contrário, continuo.

Como o negro calou-se, Seu Fabiano prosseguiu.

– Mas saiba o senhor que eu até mostraria a corda que eu usei. Isso se Vitória não a tivesse usado para secar as roupas e de tanto uso se finou. A Sinhá está aí para confirmar o que eu disse, pois ela estava do outro lado do rio, rezando para o Padre Cícero – e a mulher confirma com a cabeça. Mas me deixem continuar, pois se depender do Seu Ezequiel eu nunca chego a tal Paris. E nesse sucesso dos folhetos, um doutor general lá dos estrangeiros também ficou sabendo, e estava encacholando uma idéia de vencer a Guerra. Vocês devem se lembrar dessa guerra, vinha japonês voando raso e se jogava sobre os navios americanos. Vi uma vez no cinema. Um alemãozinho que tinha muito orgulho de seu bigode, invadiu a tal Paris e mais outros países da Europa. Dizem que o povo dessa Paris não gosta de banho. Vejam vossemecês, a gente do sertão andava mais de dez léguas para encontrar um bocadinho de água e a gringalhada cheia de perfume não era chegada. O plano do doutor americano era de mandar os seus meganhas prenderem o bigodudo, mas o diacho do homem era escorregadio que nem cobra, tinhoso que só ele. Desse jeito eles espalharam o boato que mandariam 10.000 navios lá na praia de Normandia e achavam que assim o alemão iria correndo para Paris que era ali pertinho, e de lá comandar seus homens. Claro que 10.000 navios era um exagero digno daquele prefeito. Eles mandaram só dois navios bem pequenos. Entendem? Era só um disfarce. E não é que o tal gringo estava certo? Os alemães foram quase todos para aquela praia. Mas prender o alemão era difícil. O gringo leu no folheto do prefeito uma história cheia de exageros, que dizia que eu havia acertado a orelha e o pé de um veado com um só tiro. Uma invencionice dos diachos. E eu vou ter que esclarecer essa história para depois continuar com a história de Paris. O que ocorreu foi que uma mosca perturbava as vacas da fazenda. As vacas ficaram agitadas, e quis matar a varejeira. A danada fugiu lá pro morro. Eu que morro de raiva desses bichos nojentos, que teimavam de posar sobre a carne das vacas do sertão, peguei minha espingarda e tasquei-lhe um tirambaço. Azar do veado que a mosca tinha resolvido posar justamente na sua orelha.  Vitória foi quem tratou do veado, que infelizmente acabou finando e depois parou no nosso bucho. Mas antes que Seu Ezequiel venha com perguntas inconvenientes, eu prossigo. Por culpa do tal Graciliano, o gringo acreditou que eu podia atirar no alemãozinho em Paris lá do meio do mar. O plano dos gringos era esperar que eu o acertasse para depois libertar a cidade.

– Seu Fabiano, o senhor sabe falar estrangeiro?

– Saber não sei mais, mas na época eu sabia. Deram-me um livreto para aprender a língua enquanto eu viajava das Alagoas até a Europa. Aprendi, conversei com eles, e depois desaprendi. Para que eu haveria de continuar sabendo se lá no sertão e aqui no morro só tem ignorante que nem sabe falar brasileiro? Mas aí o extraordinário aconteceu. Eu ouvia uma voz em língua gringa de alguém me chamando. Olhei e vi um papagaio muito falador, que falava estrangeiro. Disseram que era de um pirata e que depois passou a pertencer ao navio do americano. Assustei-me, pois só conhecia dois papagaios assim, mas que já haviam morrido. O bicho disse que era primo de um papagaio brasileiro, mas que decidiu voar pelo mundo e chegou ao navio do pirata. Disse ainda que o tal pirata tinha lhe dado um tesouro que não era para contar aos gringos, mas que resolvera contar para mim porque viu que eu era homem de moral. O tesouro era uns óculos que faziam enxergar muito distante. Eu tinha uma vista normal, mas o máximo que conseguia era acertar num passarinho que posasse lá nos braços do Cristo – e apontou para o Corcovado, e todos o olharam com admiração – Agora, o que o gringo queria era um despropósito, um despotismo sem tamanho. Acertar o alemão lá do mar? Mas os óculos estavam ali para me ajudar. Pensei em tudo. Era de manhã quando estava a algumas léguas da tal Paris. Coloquei os óculos, vi a foto do alemão e comecei a olhar para lá. No meio de uns soldados, perto de um monumento em forma de arco eu o avisto. Peguei minha espingarda lazarina, limpei o cano por dentro e mudei a espoleta que já estava velha. Ele estava num uniforme preto. Fiquei esperando o danado se virar. Não queria feri-lo para machucar, pois sou de paz, só queria desmoralizá-lo. Ouvi um dia a história de um cabra que tinha as forças nos cabelos. E como o alemão era muito apegado ao bigode, percebi que estava ali sua força. Fiz pontaria, puxei o gatilho e PUM. Só que na hora passou uma borboleta que fez o alemão virar o rosto e acabei raspando só o lado direito do bigode. Aquilo o assustou, mas o danado conseguiu se esconder. Só que o tiro foi o suficiente pra que os alemães se assustassem. Aproveitei a confusão e mandei o navio se aproximar. Depois, pedi uma canoa e fui remando sozinho o resto da manhã. Cheguei de tarde lá naquele Arco onde tinha visto o alemão. Deram depois o nome de Arco do Triunfo, pois fora ali que comecei a triunfar. Comecei a caçar o meio-bigodudo. Tinha que terminar o serviço para ele ficar desmoralizado perante os seus soldados. Comecei a olhar por toda cidade. Tinha ouvido falar de uma Bastilha, mas não a encontrei. Disseram-me que ele poderia estar numa tal de Catedral de Notre Dame, onde tinha vivido um corcunda, mas nada do bigodudo lá. Já era noite, quando resolvi subir no alto da catedral. De repente avisto uma enorme torre de ferro em formato de triângulo. Nunca tinha visto tanto ferro assim. Um despotismo que daria para fazer ferraduras para todos os cavalos do sertão e ainda sobrava. Era tão grande que se a cravassem no pé deste morro, esta casa não estaria nem na metade. No alto da torre estava o alemão, mas com o bigode inteiro. Aquilo me encafifou. Peguei então os óculos, e vi que o outro lado era tinta. Minha tarefa era tirar o outro lado do bigode, mas ainda restaria o lado pintado. De repente, achei a solução. Apontei e PUM. A bala raspou o bigode que restava. Depois vi o rosto do alemão igual ao de um neném. Seu Ezequiel está aí doido para perguntar sobre o bigode feito de tinta? Chovia, e a bala pegou a primeira gota, que seguiu e pegou outras no caminho. Quando a bala chegou no alemão, levava mais de meio litro d´água, que lavou o bigode de tinta. Sem bigode, ele perdeu o respeito dos oficiais, que resolveram se render. Bem, essa é a história verdadeira. As que contam nos livros são invencionices do povo do estrangeiro. Não é isso mesmo, Vitória?

Carlos Benites, agosto de 2009

Texto finalista no III Prêmio UFF de Literatura

Introdução às Histórias de Alexandre – em Paris

janeiro 5, 2011

Hoje estava assistindo ao filme JULIE E JULIA, com a Merryl Streep, e para quem não o assistiu, vou dizer somente que tem uma moça que começa a escrever um blog diário contando sobre suas experiências com um famoso livro de receita.  Acabei me inspirando a voltar aqui.

Vou postar outro conto que escrevi e foi também selecionado num dos Concursos Literários da UFF.  Chama-se “Um Conto em Paris”.  Esse conto foi escrito, atendendo a uma exigência do concurso, de que deveria tratar sobre Paris.  Acabei inventando um jeito de colocar um personagem nordestino, com alguns amigos num morro carioca e, no meio disso tudo, uma visitinha na Cidade Luz.  Originalmente o título seria “Alexandre em Paris”.  Mas para entender melhor o conto (não que ele seja tão misterioso, ou algo do tipo), é necessário que o leitor conheça duas obras do Graciliano Ramos: uma, a mais famosa ou uma das mais famosas do grande mestre alagoano,  VIDAS SECAS; a outra é menos conhecida, HISTÓRIAS DE ALEXANDRE, que hoje praticamente só é encontrada numa edição conjunta com outras duas obras do Graciliano, Pequena História da República e  A terra dos meninos pelados – e a essa edição recebeu o título de Alexandre e outros heróis.

Vidas Secas traz uma família de retirantes nordestinos tentando escapar das agruras da seca no sertão nordestino. O personagem principal e chefe da família é “Fabiano”, casado com “Sinhá Vitória e com seus dois filhos, que não são chamados pelo nome no livro, apenas identificados como o “mais velho” e o “mais novo”.  Para quem não leu, posso dizer que vale muito a pena ler, e o que foi dito acima é suficiente para entender o conto.

Histórias de Alexandre é uma coletânea, concluída em 1938, de histórias  interligadas, com os mesmos personagens, e algumas com ligações intertextuais entre duas ou mais histórias, tendo como personagem principal um senhor fanfarrão e que vivia num local abandonado do sertão, mas que todos os dias recebia em sua casa amigos para que ele contasse suas histórias, todas carregadas de mentiras, seja por exagero, invenções ou mesmo uma lógica “alexandrina” para justificar tudo o que falava. Essa lógica, por exemplo, poderia querer mostrar que um olho poderia sair da vista espetado num espinho.  Essa lógica também indicava que a pessoa só veria metade das pessoas e das coisas que passassem em sua frente, e que o tal olho poderia ser simplesmente recolocado no local sem nenhum problema, mas caso o olho fosse colocado virado para o lado errado, ou seja, para trás, a pessoa veria o interior de sua cabeça.

A sua audiência era formada por sua esposa, Cesária, pelo cego Firmino, pelo curandeiro Gaudêncio, seu Libório, o contador de emboladas e violeiro, e por Das Dores, uma benzedeira de quebranto, que também era afilhada do casal Alexandre e Cesária. O cego Firmino, incrivelmente, parece ser o único a enxergar os exageros de Alexandre.

Eu sugiro que leiam o livro, mas caso não queira ler o livro, mas se tiver interesse em conhecer mais sobre cada uma das histórias, tem um resumo interessante delas no link abaixo:

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/alexandre_e_outros_herois

Amanhã postarei o conto.

 

Além Tejo – de Catarina Pereira Araújo

novembro 20, 2010

Recebi o livro acima de presente de minha amiga Lilian Azevedo, recém chegada de Lisboa.  Comecei a percorrer suas linhas assim que vinha do trabalho, e logo vi que não dá para parar. `Posso estar enganado, mas, ao que tudo indica, será uma leitura bastante cativante. Ultimamente tenho mantido mais contato com a literatura portuguesa.  Se antes era só de Camões, Saramago, Pessoa, Eça, Camilo Castelo Branco e todos aqueles que tive contato nos dois semestres de Literatura Portuguesa na UFF, passei a ler recentemente outros portugueses igualmente talentosos, como Alice Vieira eMia Couto.  Espero que Catarina Pereira Araújo também entre nesse time.

Por falar na autora, vasculhei pela net e encontrei seu blog, que faço questão de indicá-lo. Chama-se O portal dos sonhos e você o encontra aqui: http://oportaldossonhos.blogspot.com/

O livro também tem um blog: http://alemtejolivro.blogspot.com/

Abaixo, uma sinopse do livro:

Além Tejo é uma fascinante saga familiar, uma deliciosa história de amor e um testemunho vívido do Portugal amordaçado pela ditadura e o obscurantismo.
Estamos na década de cinquenta e a família de António do Couto Maia deixa Lisboa para se fixar em Moura, no Alentejo. A decisão é do chefe de família e surpreende tanto a mulher como as filhas, que não compreendem o que leva um homem de meia-idade a abandonar subitamente a sua confortável vida na capital para mergulhar num Alentejo desconhecido.
É através do olhar inquiridor de Isabel, a filha mais velha, que assistimos ao conflito entre dois mundos: o da cidade, representado pelos recém-chegados, e o mundo rural, que os recebe com desconfiança. Inicialmente atraída pela beleza da vila alentejana, a jovem é confrontada com a prepotência dos senhores e com a miséria dos camponeses, num lugar onde qualquer tentativa de mudança é imediatamente esmagada. O seu sentido de justiça leva-a a colidir com Eduardo Leôncio Teles, o herdeiro da maior fortuna da região, iludindo, assim, a forte atracção que sente por ele. Ao mesmo tempo, Isabel envolve-se nos acontecimentos da vida rural, enquanto tenta descobrir o segredo que levou o pai a esconder-se no Alentejo, arrastando a família para uma existência tão difícil.

(retirado do blog: http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.com/2010/06/alem-tejo-de-catarina-pereira-araujo.html )

Os diários de Capitu

novembro 7, 2010

Os diários de C.

Carlos Benites

Dizem que num diário uma mulher é mais fiel aos acontecimentos de sua vida do que num confessionário. Meio que por acaso, veio parar em minhas mãos, o diário que contém os fatos que irei narrar em seguida. A convite de um amigo, fui a um leilão público no Centro do Rio, a princípio só para acompanhá-lo. Meu amigo foi com a intenção única de adquirir uma rara edição de Esaú e Jacó. O evento ia se desenrolando, com apenas um breve intervalo para o café, quando o leiloeiro anunciou, com clara má vontade, um volume composto de uma caixa de papelão, pouco maior que uma caixa de sapatos, com 5 diários datados do final do século XIX e que faziam parte de um acervo familiar. O cavalheiro sentado a meu lado cochichou que já era a terceira tentativa do leiloeiro de vender o produto, e que o preço inicial já era a metade do que fora anunciado no primeiro dia. Todo o restante do acervo da família, fotos e móveis, já tinham sido vendidos. Restavam os diários. De repente, um ímpeto me fez levantar a mão e balbuciar “cem reais”, e cheguei a pensar que ninguém ouvira. O leiloeiro imediatamente voltou-se para mim, e aí eu, mais forte, repeti: CEM REAIS.

Cada um dos diários era forrado com tecido azul já desbotado. O estado de conservação era impressionante bom para o tempo decorrido. O primeiro volume continha inicialmente anotações da mãe de uma menina, em 1840, sobre suas primeiras peripécias, primeira vez que começou a andar, machucou o braço, etc. até quando a menina aprendeu a escrever e passou a colocar suas primeiras palavras, as aulas de catecismo, ditados que lhe eram passados de algumas palavras, e depois passou a servir unicamente a contar o que a dona dos cadernos fizera. A dona dos diários assinava apenas C. e morava no Rio de Janeiro.  O último parecia que datava em torno de 1890, pois a partir de uma viagem ao exterior, ela parece que parou de contar o tempo, ainda assinados por C., na Suíça.  Supus que lá ela morreu, pois nada mais foi escrito.

Demorei a começar a ler o que arrematara, mas ao terminar de lê-los num fôlego só, percebi que tinha um tesouro diante de mim. Caso tivesse condições, teria pago 10 vezes mais. Primeiro, porque era um relato de época, com registros muito interessantes sobre o fim do período imperial no Rio de Janeiro, com os costumes da sociedade. Mas o aspecto pessoal daquela menina/mulher foi o que mais me intrigou. Ficava por horas pensando naquela mulher. Lembrei de uma das primeiras palavras do livro do peruano Vargas Llosa, Conversas na Catedral: “Em que momento o Peru tinha se fodido? (…) Zavalita era como o Peru, tinha se fodido num certo momento: em qual?” Zavalita não sabia. Será que C. saberia se a mesma pergunta fosse dirigida a ela?

A família de C. era muito simples, mas um prêmio de um bilhete da loteria e uma promoção temporária do pai de C. na repartição em que trabalhava fizeram com que comprassem uma casa na rua de Mata Cavalos. Passaram a ter uma vida bem melhor, e a temporariedade era acreditada que fosse eterna pelo pai de C. e assim ele recebeu desvairadamente a notícia de que a interinidade acabara. Acostumara-se à vida de festas, de sapatos de verniz, jóias para a mulher, leilões e outras seduções que o dinheiro lhe dera. Queria se matar. Foi aí que entrou em cena D. Glória, uma vizinha de uma casa bem maior que a deles, e que conseguiu convencer o pai de C. da estúpida idéia. Dona Glória era mãe de Bentinho. Quando C. se mudara, não era tão próxima de Bentinho, mas aquele episódio fizera com que as duas famílias se aproximassem bastante. C. começou a reparar mais em Bentinho e Bentinho a olhar mais para C. O amor foi acontecendo aos poucos. Certo dia, C. rabiscou os nomes dos dois no muro que separava suas casas, e foi surpreendida por Bentinho, justamente quando terminava a arte. Ficou sem ação por instantes, mas logo tentou estragar sua obra, dando um risco sobre os nomes para que ele não conseguisse ler, mas foi inócua sua ação e Bentinho pode ler. Ficaram longos segundos, que pareciam horas, se olhando. A aflição de ser pega em flagrante misturava-se a muitos outros sentimentos de prazer e fez com que seu coração disparasse. A longa e silenciosa troca de olhares foi interrompida com a chegada do pai de C., mas a cumplicidade silenciosa entre os dois despertou algo maior.

“Será que estão de namoro?”, ouviu C. um dia ao passar pela porta da casa de Bentinho. Era o senhor José Dias, que usava e abusava dos superlativos para se referir às pessoas. Dotava de muito prestígio na família de Bentinho, mesmo não sendo parente. O tempo o transformou de um Iago envenenando a mente de Othelo a uma pessoa boníssima, que se afeiçoou a C. Mas a fase Iago foi muito marcante. Um outro comentário feito por ele, e ouvido por uma das empregadas da casa de Bentinho, diziam sobre o seu olhar, “de ressaca”, e sobre sua dissimulação. C. se perguntava sobre o que teria feito para que alguém pensasse sobre ela dessa maneira.  Mas de nada valeria um Iago se não houvesse um Othelo aberto para ouvi-lo.  E C., com o passar do tempo, sentia que José Dias arrependera-se de seu Iago. C. tinha até então muita admiração por D. Glória, desde que ela salvou seu pai. Mas a admiração não foi suficiente para tirar dela as palavras “carola, papa-missas”, ao saber que o seu desejo era que Bentinho fosse estudar no seminário e tornar-se padre, em função de uma promessa antiga. Tentaram de tudo para que a promessa não fosse cumprida. Ou pelo menos C. tentava. Não que C. entendesse que Bentinho não a amava, mas a forte ligação de mãe e filho impedia que Bentinho se esforçasse ao máximo para enfrentar o desejo da mãe e a fizesse desistir do compromisso. Mas acabaram chegando a um plano que era um meio-termo entre o que eles desejavam e o que D. Glória queria. Bentinho iria para o Seminário, mas não se tornaria padre. Claro que a segunda parte do plano não era do conhecimento de D. Glória, mas eles iriam esperar.

E não só Iagos servem para envenenar um relacionamento. O tempo de afastamento se encarregava do restante. No seminário Bentinho conheceu Escobar, que logo se afeiçoou não só a Bentinho, como a toda sua família. Logo eram confidentes, e Bentinho lhe contava o segredo sobre seus sentimentos em relação a C. Ao saber de Escobar, e do prestígio que tinha com Bentinho, C. ficou reticente de princípio, pois achava que o segredo era só deles, mas aceitou a situação, já que não tinha como ser modificada. Outro motivo que C. externou em seus diários era o de que Bentinho passava grande parte do tempo com Escobar e assim quem acabava por fazer maior parte do tempo da vida do Bentinho era o amigo seminarista. Um outro traço uniu os dois amigos, já que ambos não pretendiam seguir a vida religiosa. Mas a saída de Bentinho não foi tão difícil como esperavam. O próprio amicíssimo da família o ajudou, e contou com o arrependimento de D. Glória por ter feito a jura. Bentinho foi estudar Direito, e enquanto isso C. tentava se mostrar a altura de Bentinho. Para isso, passou a estudar latim com um padre, muito amigo de ambas as famílias.  Também aproximou-se mais de D. Glória. Veio o casamento. Felicidade eterna. Ou pelo menos foi eterna enquanto durou. Viviam felizes. Demorou um pouco, mas tiveram um filho chamado Ezequiel. Escobar casou-se com uma grande amiga de C., Sancha. Os dois casais pareciam a imagem da eterna felicidade. Dois amigos casando-se com duas amigas. O que mais poderiam esperar? Ezequiel veio para trazer mais felicidade. Era muito alegre, e gostava de imitar a todos. Quis Deus que ele se aperfeiçoasse mais nas imitações de Escobar. Isso o deixava o menino parecido com ele, pelo menos aos olhos de quem tivesse a intenção de achá-lo parecido. Mas a felicidade não foi duradoura. Veio o mar e levou a vida do grande nadador Escobar, levando tristeza a todos. E a tristeza de C., que se arrependia de um dia ter ficado chateada por Escobar passar mais tempo com Bentinho e por não ser tão receptiva a alguém que só demonstrou afeição a todos sem pedir nada em troca, foi o que deu partida a uma inesperada desconfiança de seu marido, de que Ezequiel fosse filho daquele que se fora e não de Bentinho.  Foi um baque para mim ler aquela parte do diário, pois tudo levava a crer que seriam 5 diários de extrema felicidade. A partir dali, C. passou a escrever menos, e suas palavras eram sempre carregadas de extrema tristeza e decepção. Mas tentava passar por cima de tudo, já que não queria desistir tão facilmente. Mas as alegações não cessavam, e tudo que ela ouvia era a versão de Bentinho, do que ele pensava. Nada do que ela falava era levado em conta. Chegou a pensar um dia que, enfim, Bentinho reconhecera o erro, mas logo os ciúmes voltavam a corroer sua mente. C. chegou a temer que Bentinho pensava em atentar contra sua vida, mas prontamente ela descobriu que se ele pensou, desistiu. Mas o que veio a seguir foi quase o mesmo para ela. Bentinho decidiu que eles viajariam para a Suíça. Fizeram a viagem, levando Ezequiel, mas o casal se portava como estranhos. Bentinho voltou ao Brasil, mas queria que a mãe e o filho ficassem na Europa. Ezequiel estudaria nas melhores escolas suíças. Bentinho escreveu poucas cartas, sempre curtas, que foram se rareando mais até que não houve mais troca de mensagens. C. soube que Bentinho viajara algumas vezes a Europa, mas nunca a procurara. Viveu assim o resto de seus anos, triste e sem compreender como sua vida chegara até aquele ponto. Mas continuava a contar para seu filho sobre o grande homem que era o seu pai, do amadíssimo José Dias, de sua avó Glória, sempre com muito carinho. Suas últimas palavras nos diários foram:

“Ezequiel viajou. Sinto-me só … e triste.”

* * * * *

agosto de 2010

(conto enviado para participar do IV Concurso Literário da UFF)

Clube de Leitura: Grande Sertão Veredas

março 26, 2010

Hoje no Clube de Leitura de Icaraí o debate será sobre o grande romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas.  Esperamos que o brilhantismo da obra inspire os participantes.

Para os que se interessem, há uma postagem sobre o Clube de Leitura, se não me engano, em fevereiro. Ele funciona todas as últimas sextas-feiras do mês, das 19 horas às 21:30, com o debate de um livro que é escolhido pelos participantes do clube.  Por enquanto estamos realizando os encontros no Saguão da Reitoria, enquanto as obras da Editora da UFF não concluem.