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Guerra dentro da gente – Paulo Leminski (*)

julho 8, 2013

(*) Esse texto é parte de um artigo acadêmico para o Curso de Especialização em Literatura Infanto-Juvenil da UFF, no ano de 2008.

Um artista eternamente em busca de paz

Paulo Leminski, que se define como um “bóia frio do texto, trovador apaixonado, cançonetista, apanhador de arrepios e acrobata”, e que diz “não sou um poeta de fim de semana, eu faço poesia sem parar”, é um artista de muitas faces, que produz em muitas áreas e que desde cedo chamou a atenção do público pela sua cultura, intelectualidade e genialidade.  Começou escrevendo poesias, mas de um jeito próprio e marcante, com poemas curtos que traziam sempre sua marca, com trocadilhos, usando ditados populares e até “haicais”. Considerado por muitos como um artista multimídia, também produziu durante muito tempo na área musical, como letrista e parceiro de muitos cantores brasileiros de renome, como Caetano Veloso, Torquato Neto e Moraes Moreira. Como um artista inquieto, também se tornou conhecido como tradutor de autores como James Joyce, John Lennon e Samuel Becket, entre outros. Além de uma vasta obra poética, onde ganhou grande visibilidade, e sendo inclusive bastante premiado, Leminski também teve uma boa obra em prosa. Também produziu biografias e ensaios e, por fim, decidiu escrever para o público infanto-juvenil, como a obra Guerra dentro da gente, lançada em 1986, e que é tratada no presente trabalho.

Leminski, por ter nascido ao final da segunda grande guerra, e ter vivido durante a época do início da guerra fria, a era “hippie”, a bossa-nova e vários movimentos literários e musicais, acabou tendo em sua formação toda essa influência e uma ampla base cultural, responsável por trazer ao público uma obra de grande qualidade, dando uma visão de mundo para todos que o lêem. Em Guerra dentro da gente, podemos enxergar Leminski e tudo o que ele pensa. Numa obra em que o próprio título já fala de guerra, mas uma guerra própria, que é enfrentada pelo indivíduo, dentro da gente, podemos visualizar o perfil do autor e sua personalidade pacífica. O poema de sua autoria Guerra sou eu, e a imagem em que aparece o manuscrito de outro poema do autor, Bom poema, parecem dar uma idéia, em poucas linhas, de uma visão do referido livro e do próprio autor e sua obra:

Guerra sou eu

guerra sou eu

guerra é você

guerra é de quem

de guerra for capaz

 

guerra é assunto

importante demais

para ser deixado

na mão dos generais

P. Leminski

(a pontuação, ou falta de, além do uso de minúsculas, são marcas do autor)

***

 Bom poema 

um bom poema 

* * * * *

Guerra dentro da gente

O presente livro tem como personagem principal Baita, que tem sua história contada desde criança, numa infância mal-tratada, com um pai truculento e uma mãe frágil, até sua velhice já como um grande chefe guerreiro de um reino. Ao vermos o início e o fim da história, podemos imaginar quantas mudanças ocorreram na vida desse menino. A primeira dessas reviravoltas se deu quando Baita encontra o velho Kutala numa ponte enquanto carregava lenha para sua casa. O velho era uma figura misteriosa e assim propôs ao menino ensiná-lo a arte da guerra, mas para isso ele precisaria estar no mesmo local em certa hora do dia. Para saber que horas que Kutala queria, Baita teria que desvendar uma espécie de adivinha (houve outra posteriormente). “Então, esteja aqui amanhã, quando a cor da água do rio passar da cor da asa do estorninho para a cor do nenúfar”. Foi o que disse o velho, mas o menino não fazia idéia do que seria “estorninho” e “nenúfar”. Consultou os pais, que ao ouvirem falar do velho logo se assustaram, dizendo que ele seria um espírito maligno que carregaria o menino para longe. Isso não assustou o menino, talvez porque mesmo que fosse verdade o que os pais o alertavam, ele não teria nada a perder, pois sua infância era sofrida demais, e o que poderia ser pior para ele do que um pai bruto e injusto com ele? Além disso, tinha o fato de que ele poderia ter contato com a arte da guerra, a arte que é ensinada somente a reis e generais, ou seja, pessoas poderosas. Ele correria o risco.

Logicamente não soube que hora seria aquela ligada ao estorninho e ao nenúfar, e foi repreendido pelo velho por não chegar na hora certa, dizendo que ele não estaria pronto para a arte da guerra. Mas deu-lhe outra chance, pedindo que voltasse no dia seguinte, e novamente com um segundo jogo de palavras para dizer a hora a chegar: “se você ainda quiser aprender a arte da guerra, esteja aqui amanhã, quando a voz do vento deixar de dizer adeus e começar a dizer venha.”  E no dia seguinte, mesmo achando que tinha conseguido ouvir a voz do vento dizendo tudo o que o velho havia dito que ele diria, novamente não conseguiu chegar na hora que o velho esperava.  Só que Kutala, mesmo irritado, disse que Baita poderia decidir o que fazer e quando, pois quem quer ser mestre da arte da guerra, “não pergunta aos outros o que deve fazer”. Decidiu ir naquela hora. Mas logo depois deparou com uma surpresa: ele fora enganado pelo velho que o levou para ser vendido como escravo. Essa foi a primeira das reviravoltas pelas quais Baita passou em sua vida, e isso mostra um traço interessante na formação de uma boa ficção, com um traço que não é contínuo, linear e sem surpresas e mudanças inesperadas (inesperadas, porém verossímeis). Outras mudanças ocorreram, algumas para testar a confiança de Baita em Kutala, e isso se tornou um dos principais conflitos vividos por ele em sua vida inteira, a de que deveria decidir se confiava ou não no que Kutala lhe propunha (e foram várias vezes por toda vida). Seria capaz de aprender a arte da guerra e Kutala lhe ensinaria mesmo a tal arte? E assim foi sua vida, cheia de conflitos e de decisões, onde tinha que aprender qual caminho a seguir, e de aprender com erros e acertos. E essa seqüência de decisões foi o seu maior ensinamento.  Quase sempre a princípio Kutala o trapaceava, mas depois ele aparecia sempre com um aprendizado novo. Baita chegava a sentir raiva por Kutala aparentar sempre ter razão no que falava e fazia.  Uma das principais aprendizagens de Baita foi de que “a arte da guerra faz parte da vida. Se você tem mesmo que aprender a arte da guerra, você tem que aprender a vida. E a vida só se aprende vivendo.”

E vivendo, Baita foi experimentando várias situações em que a violência estava presente, viva. No entanto, essa violência é totalmente pertinente. Isso mostra que um livro que seja voltado ao público jovem pode perfeitamente ter a violência como um de seus temas. A violência faz parte da vida. Como diz Nilma Lacerda em Cartas do São Francisco:

“Se fazemos literatura para crianças e jovens, não devemos nos furtar a esse encontro. Temas como morte, preconceito, guerra, suicídio, assassinato, tirania não têm por que estar ausentes dos livros destinados a crianças e jovens. A vida não é cor-de-rosa, e as crianças o sabem. O mundo não é de cordeiros, elas também o sabem e experimentam tanto a posição destes quanto a do lobo que se evidencia na sua crueldade, ou vem a disfarçá-la, fazendo-se carneiro entre carneiros. Como em outras questões, o guia essencial é a criança em nós, capaz de sabiamente marcar a diferença entre o conflito e o escândalo, entre a emoção e a degradação.”[1]

E foram várias e duríssimas vivências que Baita teve, de escravo, alimentando animais de circo, fugas, noites mal dormidas, pouca ou até nenhuma comida às vezes, ameaças de morte trabalhando num navio, prisioneiro, guarda do Reino e vários cargos de chefia até ocupar o cargo máximo de chefe dos Exércitos. Tudo isso não só com fatos, pois logicamente acompanhavam diversos personagens, e junto com fatos e personagens, as “idéias”. Entre os personagens temos Baita, Kutala, os pais de Baita, os marinheiros, os diversos trabalhadores do circo, o Rei, a Princesa e sua ama, os guardas do rei etc.  Entre os fatos, ou o enredo, temos as várias vivências experimentadas por Baita, na sua casa de infância, no circo, no navio, na floresta, na grande cidade, no Reino. E as idéias seriam tudo que Baita aprende, o que ele descobre da vida apenas “vivendo”, os caminhos que ele decide seguir, a arte da guerra, a arte da paz. O autor consegue entrelaçar esses três elementos que, como diz Antônio Cândido,

só existem intimamente ligados, inseparáveis, nos romances bem realizados. No meio deles, avulta a personagem, que representa a possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor, pelos mecanismos de identificações, projeção, transferência etc. A personagem vive o enredo e as idéias, e os torna vivos.”.[2]

Gide também se refere, com um exemplo que mostra o que ocorre em Guerra dentro da gente: “Tento enrolar os fios variados do enredo e a complexidade dos meus pensamentos em torno destas pequenas bobinas vivas que são cada uma das minhas personagens”. [3]

A história é narrada em terceira pessoa, de forma onisciente, mas que, ao mesmo tempo, deixa o leitor tirar suas próprias conclusões.

“Era um velho absolutamente comum. A única coisa de especial é que ele estava ali, naquele momento.” (p. 7)

“A noite estava fria. E o vento assobiava. Por um momento, Baita chegou a imaginar que o vento dizia algo como adeus. Ou seria venha?” (p. 13)

“Só uma coisa atormentava Baita: o desaparecimento da Princesa. Por isso não parava de tentar localizá-la. (…)Ele, no fundo, sabia que era ela. Mil vezes teve vontade de encontrá-la, abraçá-la (…) Mas ele a amava demais para isso.” (p. 61)

Estão presentes os arquétipos, que interdependem, pois um atua em função do outro, do herói – Baita – e do velho sábio, Kutala. Baita tem sempre pela frente um desafio, uma tarefa, sempre com objetivo de evoluir e aprender. Por outro lado, temos Kutala sempre na tarefa de orientar Baita em seu crescimento, mas nunca abertamente, sempre com um conhecimento disfarçado como um desafio para que o herói evoluísse. Um age junto do outro. Kutala pode também representar o arquétipo do ajudante, que está sempre junto do herói, mesmo que Baita não reconheça sempre que ele está ali para auxiliá-lo. Baita só é herói porque existe Kutala, e Kutala só representa o sábio porque existe o herói que tem o perfil para aprender a arte da guerra. Ele não ensinaria a arte da guerra a qualquer um que não mostrasse que pudesse cumprir todo o ritual de aprendizagem e evolução que Baita teve.

A aprendizagem que Baita tem é a mesma que o leitor também tem. Com tantas reviravoltas, sua sabedoria vai crescendo paralelamente ao crescimento como pessoa e amadurecimento de Baita. Para chegar até o total amadurecimento ao final de sua vida, o velho apresentou a ele o outro lado da vida, como a traição, a fome e a exploração e abuso de força e poder. Tudo isso servia para que ele entendesse outros valores que também seriam importantes para conhecer e aprender a arte prometida pelo Velho. A arte da guerra, que tanto foi procurada pelo menino Baita, foi mostrando que a guerra poderia não ser só a guerra dos homens, mas a guerra dentro dos homens. A guerra pode ser também a afirmação do amor e da paz, mesmo sem deixar de lado os valores de um verdadeiro guerreiro, como coragem (e medo), força (e fraqueza), fibra, dureza, virilidade e atenção. Heráclito dizia que “a guerra é o pai e o rei de todas as coisas”. A agressividade e a violência também são inerentes ao homem, assim como a luta pela sua preservação. A humanidade cresceu também com esses valores, e muitas vezes em função deles. Porém, a vida é um dom bastante precioso para que ela seja relegada somente a sentimentos vulgares onde só ódio e violência sejam preponderantes. E um dos maiores aprendizados que Baita teve, e o leitor também, é que todos esses sentimentos se bem canalizados podem representar uma fonte de vida e não de morte.


[1] Nilma G. Lacerda. Cartas do São Francisco. São Paulo: Global, 2003. p.20.

[2] Antônio Cândido. A personagem do romance, in Cândido, A. et al.A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 54.

[3] Cândido, 2007, p. 54  apud Gide, Journal dês Faux-Monnayeurs, 6.me edition, Gallimard, Paris, 1927, p. 26.

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