Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Fernando Santa Cruz

outubro 8, 2014

Escrevi uma poesia que não foi selecionada pelo Prêmio UFF de Literatura, que tinha como tema “Aquele jogo”. Nessa poesia eu quis homenagear o Fernando Santa Cruz, que foi um ex-aluno da UFF, que hoje dá nome ao Diretório Central dos Estudantes da universidade. Cheguei a conhecer sua irmã, que era professora do Curso de Nutrição da UFF na década de 80, durante um evento sobre ele. Até então eu não sabia quem tinha sido o Fernando Santa Cruz. Ele foi capturado pelas forças de repressão na década de 70 e depois sumiram com seu corpo, tendo sua família lutado por muitos anos por notícias.

Depois que eu escrevi a poesia, fiquei pensando que talvez ela ficasse incompreendida justamente porque pouca gente o conhece e de repente não entenderia minha intenção ao colocar solto as parciais de seu nome, e nem tampouco o título da mesma. Deixo abaixo dois links para oquem quiser conhecer um pouco mais sobre o Fernando Santa Cruz.  Minha postagem seguida será a poesia.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Santa_Cruz

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-02/livro-e-ato-lembram-os-40-anos-do-desaparecimento-de-fernando-santa

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Zé das Penas – Consuelo Ramos Sozzi

agosto 1, 2014

Zé das Penas
Recebi esta semana um livro infanto-juvenil com bastante ansiedade.  Os últimos que eu tive em mãos foram os que eu presenteei meus sobrinhos (adoro dar livro de presente) e os que tenho usado na minha pesquisa do Mestrado sobre a presença da cultura popular na literatura, principalmente o excelente “Histórias de Alexandre” de Graciliano Ramos. O livro que me chegou foi esse que aparece como título dessa postagem: Zé das Penas. Simplesmente adorei. É de se admirar que esse tenha sido o livro  de estreia de Consuelo, pois o que aparece nas letras do livro é uma autora com pleno domínio do ritmo de uma história, com uma fluidez tão natural e agradável que dá a impressão de que ela já escrevia para crianças há décadas.

Para não tirar a graça de quem ainda não leu o livro, mas para dar um pouco de água na boca, a história traz o mote do “quem aumenta um conto aumenta um ponto”, de um matuto que ao perceber que a comida estava faltando em sua casa, decide vender a galinha para poder comprar mantimentos, ou melhor, trocar a galinha pelos mantimentos. E partindo de algo tão simples, como simples é a gente daquele povoado, que seus personagens conseguem transformar em histórias de aventuras fabulosas, como só a sabedoria e cultura popular são capazes.

Sim, eu recomendo. O livro foi publicado pela editora Inverso, de Curitiba. Creio que deve ser mais fácil encomendar por lá. Como foi lançado há pouco, não sei como está a distribuição nas livrarias virtuais.

Alguém está na calçada

dezembro 18, 2013

Alguém está na calçada(*)   –    Autor: Carlos Benites

 

As redes sociais nos últimos anos passaram a representar papel importantíssimo na sociedade. Tivemos uma mobilização intensa da população iraniana que fez das redes sociais uma importante plataforma de crítica ao regime. E aqui no Brasil recentemente tivemos uma explosão jamais vista em que as redes, principalmente o facebook, twitter e o youtube, eclodiram um movimento que nem a mídia televisiva foi capaz de brecá-lo. Nos dois casos, houve uma certa incredulidade. No caso do Irã porque sua população não tinha até aquele momento um perfil que a vinculasse a um instrumento que identifica a modernidade, pelo contrário, todos a ligavam ao conservadorismo, principalmente por seu vínculo religioso em todos os movimentos políticos recentes.  E no caso das manifestações no Brasil, estrangeiros e até brasileiros tentavam entender o que se passara. O que poderíamos afirmar somente é que as redes serviram como motor propulsor para que as duas populações encontrassem dentro delas mesmas uma força que estava presa.

Mas as redes não funcionam hoje somente para a mobilização da sociedade em grandes eventos. Ela tem sido capaz de fazer com que personagens, que passariam anônimos em qualquer situação, se transformem em celebridades instantâneas, ganhando até popularidade mundial. Um dia desses recebi uma foto que me foi compartilhada por uma amiga que estudou comigo no Liceu. Era a imagem de um morador de rua de Porto Alegre deitado e enrolado em um cobertor. E lendo um livro.  Esse fato – ler um livro – detonou uma reação no autor da foto e respectiva postagem, pois só aí ele prestou atenção no citado morador de rua. A partir da postagem da foto, ela transformou-se num viral, que recentemente descobri que é algo que explode de forma inesperada na internet, compartilhado e visualizado por um enorme número de pessoas.  Ou seja, o autor da foto só “encontrou” o rapaz deitado ao relento porque ele lia um livro, e as pessoas que a compartilharam só encontraram os diversos moradores de rua que eram invisíveis aos seus olhos após aquele dia. Caso o mendigo leitor estivesse deitado sem o livro e até sem cobertor, o fotógrafo possivelmente passaria direto e, talvez, se fosse perguntado cinco minutos depois sobre o que tinha visto, ele nem lembraria que tinha alguém deitado na calçada.

Isso me fez lembrar o Amigo. O conheci lá pelos meus seis ou sete anos, quando ia cortar o cabelo na barbearia na Rua São João junto com meu pai. Ele aparecia sempre para pedir dinheiro para os barbeiros e frequentadores do local. Dizia que era para completar para o almoço. Chegava sempre sorrindo, dizia que se não tivessem nenhum cruzeiro não teria problema, que ele poderia pedir a outras pessoas na mesma rua. Mesmo depois de receber só um centavo de um ou outro ainda ficava por um bom tempo e conversava alegradamente com os presentes, contava piadas, falava sobre tudo. Esses milicos ainda destruirão o Brasil, dizia ele. Ele representava para mim um mistério. Sempre brincava comigo, dizia que eu seria jogador de futebol ou astronauta, que seria o primeiro brasileiro a chegar à Lua. Ninguém sabia seu nome, era apenas o Amigo, nome escolhido porque ele tratava a todos por “ô, amigo!”. Mas diziam que ele era de família rica, e estudara em bons colégios, alguns até falavam que fizera faculdade. Mas as teorias se dividiam em várias correntes: a primeira de que ele fora mandado embora de casa, e essa corrente se dividia em outras, de que teria sido por uma briga com os pais por conta de política, outra que diziam era que ele ousara ter um relacionamento com a filha de uma família rival e a subcorrente que mais repetiam era de que quando servia no Exército uma bomba estourara perto dele, ferindo sua cabeça e sua perna direita – ele tinha uma ferida grande na perna e mancava – e acabara pirando, o que acabou fazendo com que sua família não o aceitasse. Outra corrente teorizava que ele mesmo optou por sair de casa, discordando de tudo, e que não queria viver de riqueza. Ainda havia uma terceira teoria que falava que ele teria uma casa bem grande, mas que só usava para dormir, preferindo viver nas ruas, porque perdera toda a família num grande desastre. Para mim ele era apenas o Amigo. E foi assim por vários anos. Por algum motivo parei de ir ao barbeiro preferido pelo meu pai e, assim, deixei também de ver o famoso pedinte da rua São João.

Estava já próximo às provas do Vestibular. Época em que eu não tinha tempo para nada. Só pensava nos exames, morrendo de medo, temendo o fracasso. Saía do Liceu e ao invés de ir para casa, decidi ir na direção contrária, pegando a Amaral Peixoto em direção às Barcas. Quase em frente à Sabiá Discos, onde as pessoas mais se aglomeravam, disputando espaço, filas de ônibus, bancas de camelôs, homens mostrando as maravilhas de um produto milagroso – para limpar o chão de sua cozinha, madame – e o corre-corre normal da cidade, bancários querendo voltar do almoço para explorarem e serem explorados, a fiscalização querendo pegar os camelôs e esses suspendendo suas bancas para escaparem – OLHA O RAPA!  Ou seja, tinha de tudo. Enquanto isso, eu ia devagar, pensando nas danadas das provas. De repente, noto mais a frente que as pessoas que iam na mesma direção que eu enviesavam para a esquerda e aquelas que vinham na minha direção iam para a direita. Pensei, deve haver um buraco ali. Continuei em linha reta para ver do que se tratava. Então, após o último se desviar, eu já dava o próximo passo quando esbarro com o pé direito em algo e ouço um barulho metálico. Olho para baixo e vejo algo que parecia uma tigela, mas que depois olhando melhor, parecia mais um prato bem fundo de alumínio, daqueles que minha mãe usava para nos dar mingau, e uma moeda de cinco centavos que quase caiu no chão, rodopiando pelas bordas do prato até parar. – Cuidado aí, seu Gomes! Quer que eu perca meu negócio? Havia um mendigo sentado na calçada, tendo ao lado uma muleta, que ficava encostada e amparada no muro, a tigela em frente à ponta de sua perna direita, que vi que tinha sido amputada na altura do meio da canela e tinha a ponta toda enfaixada por um pano encardido. E dois livros em capa vermelha dura, parecendo ser de uma coleção, logo leio: Crime e Castigo I e II. Vi que a reclamação era comigo, mesmo que ninguém me chamasse de Gomes. Mas o grito veio logo depois que esbarrei no prato. E aquilo me deu um sobressalto também, pois meu sobrenome era Gomes. Olhei para o rosto com a barba enorme e logo reconheci.  Era o Amigo. Talvez ele ouvisse que chamavam meu pai de Gomes e se lembrara de mim. Ou então ficou louco e me confundiu com meu pai.

Parece incrível, mas o tempo entre o esbarrão, o som da moeda no prato, a reclamação, a conferência e catalogação dos bens do mendigo e da verificação de sua própria condição física, além do reconhecimento de seu rosto durou pouquíssimos segundos, que pareceram uma eternidade, tal o desconforto que senti após ser encarado. Logo repeti o que os outros transeuntes faziam, desviei para a esquerda e segui o passo. – Nem uma moedinha, astronauta?

No dia seguinte, mesmo com pressa de voltar para casa e tendo que estudar, uma força me levava para o caminho contrário. Lá estava o desvio das pessoas, que passavam automaticamente por ele, como um objeto invisível. Fiquei de longe observando o cenário e ouvia o barulho de moedas caindo e em seguida o via sacudindo o mesmo prato de alumínio com o som de uma moeda chacoalhando. Resolvi tomar coragem e segui na sua direção, peguei uma moeda do bolso e parei. Na mesma hora ele me encarou. Dessa vez não havia raiva no olhar. Um sorriso misterioso, misto de deboche, esperança e também de desafio. Não conseguia identificar qual característica daquele olhar se sobressaía. Sei que sentia todos os efeitos sobre mim. Sacudiu o prato. Joguei a moeda e olhei que só havia uma moeda. Onde estavam as outras que eu vi o povo jogando? Deduzi que o artifício era deixar só uma como chamariz, escondendo as outras. Obrigado, AS-TRO-NAU-TA! E soltou uma gargalhada. Repeti o trajeto por vários dias seguidos, semanas, meses. Todos os dias, ao final das aulas, lá estava ele. Sempre a moeda brilhando no prato, a muleta ao lado e as pessoas desviando no automático, como se fosse realmente para não caírem num buraco esquecido pelo poder público. E os dois volumes de Crime e Castigo, que em alguns dias estavam abertos.

Final do ano, saio da aula, e vejo um reboliço. Gritos. Duas senhoras e o Amigo. Pelo que ouvia, deviam ser donas de uma das lojas da galeria e moravam ali perto. Queriam retirá-lo dali. Nós iremos lhe dar banho e comida, mas saia daqui. O mau cheiro está incomodando a freguesia. Ele gritava. Quero ficar! Daqui não saio. Dois homens ajudaram as senhoras e o seguraram. Sem escapatória, ele segura o prato, mete a mão direita no bolso e ouço barulho de moedas, pega com a outra mão a muleta. Ele me vê. Astronauta, os livros, os livros! Eu vou atrás, atrapalhado pela multidão curiosa. Entraram no prédio ao lado da Caixa Econômica e eu atrás. Não me deixaram subir, mas estiquei a mão com os livros e ele conseguiu agarrá-los. Obrigado, astronauta.

No dia seguinte, o Amigo não estava ali. Nem no seguinte. Nem nos outros. Ouvi rumores, sem confirmação, que um mendigo matara duas senhoras num prédio do Centro da cidade. Uma seria dona de uma joalheria da galeria e a outra sua irmã. O mendigo fugira, levando uma bolsa de dinheiro, mas que deixou quase tudo na calçada, distribuindo com os meninos de rua e prostitutas que faziam ponto em frente ao prédio. Nunca ninguém mais o encontrou.

* * * * *

 

(*) Crônica selecionada entre os finalistas do Prêmio UFF de Literatura 2013 e integrante da coletânea de textos premiados.

A bala perdida

dezembro 18, 2013

A bala perdida(*)    –    Autor: Carlos Benites

Ouve-se o estampido

Um som surdo

Seco

Misturado ao som crescente da chuva que caía

FORTE

Outro som,

Como um irmão gêmeo

Outro e outro

 

Tem Fardado

Disparando a todo lado

Fardado sendo arrebentado

Fardado, você é explorado!

 

E os metais viajam pelo ar

Três encontram o Paço

O outro insiste em voar

E voa, voa

Por entre os pingos da chuva

Que tentam pará-lo

Deslizam por ele

Lavam seu corpo

Mas não limpam seu espírito

Assassino

Feroz

Sanguinário

Que insiste em seguir

Persistente

Sobrevoa a cidade

Com fogueiras juninas

Janelas quebradas

Vidros estilhaçados

Rostos cobertos

Que vandalizam

Os vândalos

de terno e gravata

Moços com cartazes

De sentidos diversos

Querendo saúde

Dignidade, educação

Respeito

E recebem fumaça

Spray do ardor

Que não é de paixão

Borduna na testa

E também a prima

Do metal voador

De borracha

 

Fardado, você é explorado

Fardado, vem pra nosso lado

Fardado, estamos desarmados

 

A moça de rosto pintado

Bandeira e lenço

Em verde e amarelo

Caminha pela rua

Gritava alegre

Vem pra rua

Vem pra luta

O Rio acordou

E de repente

A moça bonita para

Para de sorrir

E GRITA

 

O metal voador

De fúria maldita

Encontrou o seu peito

Manchando a bandeira

Avermelhando o asfalto

Ferindo a cidade

E a inocência perdida

Roubou uma vida

Mas não matou a esperança.

 

Rio de Junho

Dezessete

 

(*) Poesia classificada em 2. lugar no  Prêmio UFF de Literatura 2013.

O saci

julho 6, 2013

Você revisa o texto que vai enviar para a EdUFF uma, duas, três … seis vezes. Olha todas as páginas, pois a gente sempre  esquece de incluir uma vírgula ou coloca outra desnecessariamente. Ou então pode ter um verbo mal colocado, ter que acertar uma coesão,  cortar uma parte pequena, trocar uma frase, diminuir aqui e ali, pois eles pedem que o texto tenha quatro páginas no máximo. Daí lembra que precisa ainda incluir a numeração das páginas e então corta mais um pouquinho. Revisa mais três vezes por conta das alterações. O total de revisões do texto inteiro deve ter ido a mais de dez. Aí você fica feliz por completar o trabalho perfeito e o envelopa e deixa na editora, com o sentimento de dever cumprido.
Dia seguinte liga para o amigo, conta sobre o texto e aproveita para abrir o arquivo. Aí você, com cinco segundos após ter aberto o texto, logo dá de cara com aquele errinho NO PRIMEIRO PARÁGRAFO. Logo o primeiro parágrafo que foi o que você mais mexeu e cortou. Estava lá desde o princípio e não o encontrei no meio das revisões. Então lembro da imagem feita por Monteiro Lobato, que dizia que depois de enviar o livro para a editora o errinho aparece na figura de um saci, que fica acenando para você, sorrindo com ar de deboche.

 

À Luz do Poente – de Marcelo Ribeiro

agosto 23, 2012

O conto abaixo é de um leitor deste blog que surpreendeu-se com a coincidência de eu ter escrito há uns meses sobre uma musa da Livraria Travessa – A menina que vendia livros – ou a menina (da) Travessa – tema que ele também tinha usado num conto de sua autoria e que nunca tinha sido publicado.  E agora, cá está o conto.  Gostei bastante do conto e agradeço ao Marcelo por ter autorizado sua publicação.

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À Luz do Poente

Marcelo Vieira Ribeiro

Gostava de viver em metáforas. Naquela escada rolante, sentiu-se em um de seus antigos exercícios colegiais de física, ele mesmo um traço no papel, subindo o plano inclinado a uma velocidade constante, o peso decomposto em normal e tangente. Finalmente, essência e existência circunscritas a uma fórmula perfeita, o futuro definido a um simples fixar da variável tempo. Mas os degraus não eram infinitos, e rapidamente seus passos buscaram porvir mais caótico, nas calçadas lotadas de um fim de tarde na Cinelândia.

Não teve saudades de sua breve estada no mundo dos vetores, ficando aliviado em sair do linear e newtoniano espaço do metrô e mergulhar em regime oposto, no pleno movimento browniano daquela praça. Por um momento, agradeceu a si mesmo por preferir o princípio da incerteza a ter suas partículas desveladas em simples retas e ângulos.

Em poucos passos já estava entre as fileiras de barracas azuis, com suas bancadas apinhadas de livros, misturando-se aos que circulavam entre os corredores irregulares daquele labirinto de madeira e papel que ocupava a praça a cada seis meses. Compradores eventuais, curiosos, garimpeiros de raridades, simples passantes, a habitual fauna humana da feira sempre o deixou à vontade. Talvez o tosco das barracas, pensou certa vez, o desleixo das pilhas de livros e a informalidade dos vendedores tornassem as pessoas serenas e despreocupadas, enquanto circulavam aqui e ali na feira, a observar as lombadas e a manusear um ou outro exemplar menos gasto.

Ele, porém, mais do que isso, sentia-se bem entre os livros. Desde criança o atraía a palavra escrita. Já entrado na idade adulta, passou a ter paixão também por colecioná-la em seu registro mais nobre. Coincidiu talvez com o primeiro emprego, com o calor do primeiro dinheiro recebido, o despertar de seu apego ao papel impresso, cortado, dobrado e encadernado, que poderia armazenar em casa, em estantes cada vez mais longas, para ler, reler ou folhear quando quisesse.

Mas não se ache que o impressionavam as edições bem cuidadas, as raridades, os exemplares únicos. Não gastava suas horas em sebos atrás de uma primeira edição autografada, despercebida pelo livreiro. Não era a veste que o atraía, apesar de também apreciá-la. O que realmente o fascinava era um objeto tão singelo – e tão gasto, se se tratar dos que ele adquiria – concentrar em si tanto conhecimento e beleza, imprimir-se de tanta vida. Respeito, sim, respeito era o sentimento que ele dedicava aos livros, aos bons livros, como abrigos do que a alma humana oferecia de melhor. Ou de pior, pois em Literatura, para ele, não havia lugar para juízos morais.

Literatura. Circulando pelas barracas veio-lhe novamente a palavra: Literatura. A única que lhe importava. Aos montes, à sua frente, multiplicavam-se os livros, sucediam-se os assuntos: ciências, filosofia, esoterismo. Mas a ele só interessava a Literatura. Assim mesmo, em maiúscula. A Arte transcrita em Linguagem. Palavras em comunhão. Buscava abarcar a vida de uma forma tão profunda e direta que – e essa era a sua mais íntima e forte convicção – sua única possibilidade não era viver, mas mergulhar na vida impressa em páginas amarelecidas pelo tempo.

Procurou afastar, porém, esses pensamentos. Estava ali em expectativa de prazer. Sabia que sua busca atenta e seus dedos preparados iriam fatalmente encontrar a gema escondida naqueles montes de cascalho, tão avidamente remexidos por garimpeiros de menor arte. Experimentava nesses momentos, quando se deparava com um exemplar que não merecia estar esquecido, a mesma sensação de calor de quando cruzava com olhos femininos receptivos ao seu oblíquo e literário olhar, como uma vez tão a seu gosto alguém o definiu.

E assim foi mais uma vez, e logo em sua barraca preferida, a dos livros de R$1,00, a que oferece a maior densidade de prazer literário por unidade monetária. Lá, encontrou uma edição antiga e em estado razoável de um livro que há apenas dois dias lhe havia sido recomendado: Viagem à Roda do Meu Quarto, publicado em 1794 por Xavier de Maistre. Disseram-lhe, então, que este era um dos livros favoritos de Machado de Assis. O velho Machado escreveu o que escreveu sem nunca ter saído do Brasil; Xavier foi mais longe – ou perto, como se preferir – limitou-se ao próprio quarto.

As coincidências às vezes o surpreendiam, e nesses momentos ele abria mão de sua constante aposta no acaso e tentava reconhecer em seu cotidiano signos e referências de um caldeirão simbólico em que estaria imerso, por algum desígnio divino ou pelo alinhamento energético de suas próprias escolhas. Ao se deparar com aquele pequeno livro, tão amistosamente se oferecendo em aparência e preço, deixou-se levar, assim, por uma morna sensação de conforto e familiaridade, sentindo-se irmanado e apoiado por antepassados que extraíram refinada Arte de um viver tão simples e cuja caligrafia vinha agora ordenar a aleatoriedade de seus passos.

Aquele fim de tarde já estava justificado. Pegou rapidamente o livro, entregou uma moeda de R$1,00 ao vendedor e seguiu em caminho inverso ao que havia vindo, sem procurar fixar os olhos nos livros à mostra, para que outro título não desafiasse a completude de sua aquisição. Resolveu não voltar já para Copacabana. Um café seria bom. Percorreu a praça, passou em frente ao Teatro Municipal, atravessando a avenida e seguindo pela calçada. Anoitecia, as pessoas passavam apressadas, vindo do trabalho. Como é bom flanar, pensou, enquanto caminhava despreocupadamente pela Rio Branco, observando os prédios e sentindo-se o próprio Baudelaire, ao desejar as mulheres com quem cruzava, tão indefesas nessa hora de transição entre duas rotinas. O poeta teria mais armas, reconheceu.

Entrou na Sete de Setembro, virou à esquerda na Travessa do Ouvidor e chegou à livraria. Enquanto corria os olhos pelo salão à procura das curvas que apreciava, escolheu um livro de poesias para folhear durante o café. Como sempre, ela estava lá, classificando livros, séria, com seus olhos redondos, a pele branca e as curvas que lhe inspiravam versos nunca escritos. Passou por ela desviando o olhar e se sentou em uma mesa em que poderia vê-la.

Sonetos. Eram sonetos. Menos mal, sempre achou o tempo de um soneto o mesmo de um café. Deviam ser lidos como se bebe um expresso, vagarosamente, sorvendo as palavras, sentindo as rimas excitarem as papilas gustativas da sensibilidade. À Luz do Poente. O título lembrou-lhe novamente as mulheres da Rio Branco e o fez dirigir o olhar para o salão da livraria, a imaginar como se ondulariam naquela calçada as curvas de seu desejo. “Se pudesse ser sonho o que se sente”; os versos o aqueciam em goles fumegantes e o faziam oferecer seus olhos como dois “vultos negros, solenes, desolados”. Vã oferenda, a que não se recebe, lamentou ao pagar a conta.

Foi com os olhos ainda quentes de poesia que cruzou por ela na saída, sentindo mais uma vez o olhar redondo de curiosidade, um olhar que, todos os sonhos tendo ruído, justificaria o fato de estar vivo. Seguiu pela Travessa do Ouvidor, retendo consigo, por mais um instante, o calor literário da musa de seus cafés, como se escrevesse poemas naquela pele, mas sabia que ela só existia encerrada nos limites daquelas estantes, não podendo fazer companhia ao Conde Xavier de Maistre no deleite de seus sentidos.

Já na Rio Branco, decidiu voltar de ônibus. Não queria repetir sua passagem pela física clássica e, além disso, a paisagem do Aterro lhe descansaria a visão. Sem paradas, o vento pelo rosto, o verde dos jardins, o Pão de Açúcar iluminado. No último sinal da avenida, observou pela última vez os detalhes da capa dura vermelha, orgulhando-se novamente de sua conquista e guardando-a cuidadosamente no bolso largo da calça: em outros trajetos iria lendo, mas não nesse.

Não se deu conta de como começou tudo. Só percebeu algo errado já com o cano do revólver encostado em seu rosto. A carteira, pediam a carteira. Mas que carteira, ele não usava carteira: seu dinheiro, seu pouco dinheiro levava sempre solto no bolso. Mas insistiam, pediam a carteira, a carteira, com sua imaginada fortuna.

A coronhada veio forte. A cabeça pendeu para o lado, enquanto uma mão rápida se enfiava no bolso de sua calça e arrancava com violência o livro, tão barato em preço e subitamente tão valorizado. O brilho de ódio naquele derradeiro olhar, ao ver que as notas eram outras, foi ofuscado pelo clarão do tiro. Dor, muita dor. O livro caiu girando, e em seu giro, estranhamente lento, seus olhos já nublados viram passar todo o poente, vermelho sangue, a cobrir antigos escritores, feiras desertas, calçadas geométricas, curvas inatingíveis. Amaldiçoava Heisenberg, quando um segundo estrondo trouxe a noite.

Fim

Desenferrujando os dedos

julho 14, 2012

Sem postar já há alguns meses,  recebi a força que faltava para escrever. Uma amiga que conheci há poucos dias no facebook começou a ler o blog e comentou alguns dos textos.  Agradeço a minha nova leitora por isso.

Nesse período de ostracismo, várias vezes eu tive  ideias de temas para textos, mas quando chegava em casa acabava perdendo o fôlego e ia adiando. Mas de hoje não passa.

Ainda tenho que aproveitar o embalo e também escrever o conto para o Concurso Literário da UFF, cujo tema é O CONTADOR DE HISTÓRIAS.  Escrever é tão bom.  Se já escrevo bastante em emails, facebook, fóruns, resenhas e fichamentos de livros, por que não faço o hábito de escrever aqui ser mais frequente? Questão de organização de tempo. Espero que volte a postar regularmente e quem sabe apareçam novos leitores.

Prêmio UFF de Literatura 2011

agosto 19, 2011

Já estão abertas as inscrições para o citado concurso, que entra na sua quinta edição. De todos os quatro primeiros só não participei do segundo, realizado em 2008, cuja temática, algo sobre a Amazônia, não me inspirou a escrever conto ou crônica.

A primeira edição teve como tema “Aconteceu na UFF” e fui finalista na categoria Contos, com “Mister Duffy”, já postado no blog. O meu amigo Benito Petraglia foi o segundo colocado nessa categoria com o conto “No elevador”, que já foi postado neste blog há poucos meses. Em 2009, a UFF trouxe Paris como tema e dessa vez resolvi participar nas 3 categorias, contos, crônicas e poesias, sendo que nessa última eu fiz um cordel, que infelizmente não foi selecionado. Cheguei a pensar na época que a banca poderia ter usado de alguma espécie de preconceito com a poesia de cordel, que é tratado por muitos como uma forma menor, mas não posso julgar, ainda mais que aquela tinha sido minha primeira experiência em escrever um cordel. Mas a minha dúvida surgiu antes mesmo de inscrever a poesia no concurso, se ele seria avaliado realmente, se a banca exigia somente as poesias mais tradicionais ou se um produto inspirado na cultura nordestina teria chance. A dúvida era aumentada pelo fato de não ver nenhum cordel entre finalista de nenhum concurso de poesia. Mas voltando ao concurso, naquele ano, fui finalista nas outras duas categorias com a crônica “Eu odeio Ethan Hawke” (ao contrário do que diz o título, eu não odeio o citado ator americano) e com o conto “Um conto em Paris”, sendo que esse também já foi postado aqui no blog. Por último, a UFF, aproveitando o ano do seu cinquentenário, em 2010 trouxe o tema “50 anos … e agora?”, onde poderíamos escrever sobre algo que se referisse ao período de 50 anos, mas que não obrigatoriamente seria sobre a UFF. Fui finalista com a crônica “O menino do Liceu”, que também já postei aqui. Mas curiosamente, dentre os textos enviados, esse foi o que eu achei que teria menos chance de figurar entre os finalistas. O meu favorito era o meu conto “Os diários de C.”, que na verdade seriam os diários de Capitu, talvez a mais famosa personagem machadiana, mas infelizmente ele não apareceu entre os finalistas.  Depois de reler o texto, vi que, como escrevi de forma corrida, sem sequer reler, que ele tinha alguns problemas, que não detectei na época. Fiz uma pequena revisão e o postei aqui, e logo depois de postado verifiquei outro probleminha e um amigo que o leu, o cearense Breno, e me ajudou com duas sugestões e também viu um outro errinho.  E aí, entre uma vírgula a mais, outra a menos, a falta de uma preposição aqui outra acolá, ontem reli o texto pela n-ésima vez e verifiquei a falta de um S (pasmem) NO TÍTULO. Bom, mesmo que na hora que eu enviei o texto eu ao menos tenha consertado o título, pelo jeito eu merecia mesmo não ser finalista.

Este ano o tema é “Viagem à Itália”.  Ainda não comecei a escrever, e até já tive ideia para mais de um conto e crônica, mas ainda não me decidi a iniciar e nem sequer qual delas usarei. Possivelmente não me aventurarei mais uma vez na poesia. Como diz o Benito, que conhece como eu escrevo,  não é motivo para eu  me desesperar, pois quando começo a escrever, o faço de forma seguida e rápida. Se fosse com ele sim, de repente até desistiria de se inscrever, já que é muito metódico e ainda tem características antigas, de escrever a lápis no papel e depois passar para o computador. Bem, mas não posso demorar tanto a começar, principalmente quando lembro do ano passado quando não tive tempo de rever nenhum dos três textos, todos eles feitos nos dois últimos dias, sendo que o conto e a poesia foram feitos em menos de 6 horas. Ah, esqueci de dizer: é até o dia 29 de agosto. Ou seja, faltam sete dias.

E o tema ainda é o Liceu

abril 30, 2011

Mudanças no Liceu

Calfilho

 

O tempo passou…

Minha época de liceísta estava lá atrás, quase esquecida, misturada às minhas novas preocupações da vida de adulto…

Passei dois anos praticamente fora de Niterói, depois que fui aprovado num concurso público e fui trabalhar no interior do Estado.

Foi duro para mim… largar minha praia, meu futebol, meus amigos conquistados depois de vários anos… Trabalhar em um ambiente diferente…

Enfim… o destino nos reserva algumas surpresas, uma delas foi essa…

Nunca mais entrei no meu colégio… Passava pela Amaral Peixoto, uma vez ou outra, só o olhava de longe… Como sempre, imponente, grandioso… Uma sensação estranha apertava meu peito… Via de longe, no ônibus ou no táxi, aquelas salas onde um dia estudei, onde em um outro matei aula, mas não conseguia divisar, de fora, as quadras, a de basquete ou de vôlei, onde dei meus primeiros passos no futebol…

Vi, quando o ônibus deu meia parada, diminuindo a marcha para um passageiro descer, a salinha do Grêmio, lá no fundo… que pena, agora, cercada de grades… Verinha não mais poderia pular a janela quando o diretor chegasse de surpresa e ela, como eu, estivéssemos matando aula…

Por que as grades? No nosso tempo, tudo era aberto, livre, até com um pouco de irresponsabilidade… Mas, cada um dizia o que queria dizer…

Não sei o que houve com o meu colégio…

Disseram-me, soube depois, que tentaram politizar o Liceu, inclusive o Grêmio, depois que dele saí… Tudo bem, a época era efervescente, 1961 em diante, pré- revolução…

Mas, enquanto lá estivemos, eu, Irapuam, Manequinho, Telúrio, João Bonvini, Joza, Cenira, Alber e tantos outros, jamais deixamos que a política partidária se infiltrasse em nossos objetivos, que eram esporte, divertimento, música, festas, coisas que o Grêmio se propunha a fazer e estava escrito em nossos estatutos (o de Verinha, que só tinha três artigos).

Infelizmente, soube que depois de nossa saída, o Grêmio se politizou e acabou sofrendo intervenção por parte de algum “revolucionário”. Disseram-me que, um deles, inclusive, fora ex-aluno do colégio e se tornara “revolucionário” para conseguir se eleger deputado. Soube, ainda, que uma das minhas colegas de sala, desde o primeiro ano ginasial até o último do científico, em 1959, fora presa pela “Redentora”, barbaramente torturada e assassinada, tudo em nome da “democracia”…

E, mais recentemente, soube por alguns membros de gerações posteriores do colégio, que as pistas de atletismo foram invadidas para construírem novos prédios, alguns até com finalidades diversas daquelas a que estávamos acostumados.

E, as várias reformas que foram feitas posteriormente, algumas sem nenhuma finalidade prática, acabaram por destruir aquilo que era o maior patrimônio do Liceu: a qualidade do ensino…

Por isso, em 1971, ao ver algumas meninas e alguns rapazes descendo a Amaral Peixoto, quando eu saía do Fórum de Niterói, eles envergando aquela camisa amarela do Grêmio, lembrei com saudade: esse é o meu Liceu. A camisa amarela e azul foi idéia do Grêmio, não da Secretaria de Educação… aliás, ela é até mais bonita que a antiga azul e branca do meu tempo de Liceu…

Introduzimos aquelas cores, amarelo ouro e azul escuro, em homenagem à seleção brasileira de 1958, que voltara campeã do mundo na Suécia.

Enfim, lembranças que foram ficando para trás, mas nunca esquecidas por mim.

Certa vez, quando era Promotor de Justiça em Niterói, no início dos anos 70, fui procurado por um diretor do Liceu da época, não me recordo o nome. Foi-me fazer um convite, como ex-aluno e atual autoridade pública, para fazer uma palestra no colégio sobre drogas. Recusei polidamente, pois sabia que não conseguiria passar das primeiras palavras ao me dirigir aos alunos da  nova geração liceísta. A emoção de rever aquelas salas onde estudei, aquelas quadras onde suava a camisa do uniforme, após “rachas” inesquecíveis, a salinha onde eu e Irapuam apresentávamos diariamente para os turnos da manhã e tarde, a “Hora do Grêmio”, os banheiros onde íamos fumar um cigarro escondido entre uma aula e outra, não me permitiria expressar com clareza o que pretenderia dizer. E, olha que, modestamente, era um bom orador, Promotor de Justiça acostumado aos debates no Tribunal do Júri, além de dar aulas para advogados em alguns cursinhos preparatórios para concursos da Defensoria, Promotoria ou Magistratura.

O Liceu me marcou profundamente. E, foi com satisfação, depois de entrar em contato pela internet com alguns liceístas de gerações posteriores, que soube que o colégio, depois de passar por sérias dificuldades, até com perigo de desabamento do teto, foi reformado, repintado e hoje continua bonito como era no meu tempo, imponente e majestoso, dominando como antigamente a Avenida Amaral Peixoto…

Pena que “seu” Azer, “seu” Borges, o professor Alber de Educação Física e todos os meus colegas que comigo desfrutaram daquela época maravilhosa não estejam mais lá…

Cabe a vocês, gerações após gerações, manterem viva a chama de amor ao colégio, como se fosse realmente nossa segunda casa e lutarem para que, cada vez mais, seja uma referência em qualidade de ensino em Niterói…

Aguardando Mr. Petraglia

fevereiro 12, 2011

Há duas semanas mais ou menos eu postei aqui que teria a colaboração de meu amigo Benito Petraglia, doutorando em Letras na UFF, com algumas postagens envolvendo o mundo literário.  Benito devia ser um personagem machadiano, pois muitas vezes o vejo em alguns dos contos ou romances do Machado. Curiosamente seu trabalho de tese envolve Esaú e Jacó. Pois então, ele havia me dito que toparia participar e que me mandaria de semana em semana alguma coisa que pudesse publicar.  Fiquei preocupado pois ele não tinha me mandado nada ainda.  Acabei descobrindo que o motivo para a demora é o calor terrível que tem feito nas últimas semanas. Como disse, ele é como um personagem machadiano, e mantém o computador em apartamento diferente de onde vive, daí é um sacrifício enorme sair de casa.  E olha que o apartamento dele é um forno.

Bem, só nos resta aguardar..