Ópera dos mortos

outubro 22, 2011

 

Há cerca de três meses, vi uma lista de livros que eu teria que já conhecer.  A lista era bem extensa. Cerca de 20 romances e mais 15 autores de poesia, dos quais eu teria que ter conhecimento de suas antologias.  Passei os olhos pelos romances e vi que cinco deles não tinha lido e os outros ou eu tinha lido alguns entre 2001 e 2005, e outros bem antes só uma vez ou mais de uma vez, em várias épocas.  Como não tenho impressora, copiei os nomes dos livros e os autores de poesia para me basear nas minhas leituras.  Para minha sorte, só tive que comprar dois dos romances e duas antologias, pois o restante todo eu já tinha ou sabia que um amigo teria e me emprestaria.  Como o tempo era curto, decidi que leria todos os que não tinha lido e faria uma revisão rápida dos que já conhecia.  Consegui cumprir minha agenda e no dia “D”, ainda revi a lista e minhas anotações.  Estava pronto.

Recebi então aquela folha, e vejo nela escrito AUTRAN DOURADO – Ópera dos mortos.  Congelei.  Como assim?  Eu tinha lido esse livro em 2001, mas ele não estava na lista.  O estado em que fiquei me deixou sem lembrar de nada do livro. O que houve que ele não estava lá.  Aos poucos acalmei e lembrei: o casarão, os velhos relógios quebrados, a filha que restara da família e ficara na casa, os ex-moradores que passaram a participar daquela ópera dos mortos que assombravam o ar daquele casarão, os velhos móveis, o tempo que deixava sua marca nas pessoas e na casa…  Bem, consegui lembrar muita coisa depois de algum tempo.  Chegando em casa, fui rever minhas anotações. Não estava lá Autran Dourado. Fui no site e, tal qual o saci que Monteiro Lobato classificava os erros tipográficos dos livros que ele revisava antes da publicação que só apareciam depois de publicados, a Ópera dos mortos  apareceu acenando para mim, sorrindo zombeteiramente de minha cara.

Como “castigo”, fui na minha estante e já estou relendo a Ópera.

Em tempo: o livro é muito bom.

Prêmio UFF de Literatura 2011

agosto 19, 2011

Já estão abertas as inscrições para o citado concurso, que entra na sua quinta edição. De todos os quatro primeiros só não participei do segundo, realizado em 2008, cuja temática, algo sobre a Amazônia, não me inspirou a escrever conto ou crônica.

A primeira edição teve como tema “Aconteceu na UFF” e fui finalista na categoria Contos, com “Mister Duffy”, já postado no blog. O meu amigo Benito Petraglia foi o segundo colocado nessa categoria com o conto “No elevador”, que já foi postado neste blog há poucos meses. Em 2009, a UFF trouxe Paris como tema e dessa vez resolvi participar nas 3 categorias, contos, crônicas e poesias, sendo que nessa última eu fiz um cordel, que infelizmente não foi selecionado. Cheguei a pensar na época que a banca poderia ter usado de alguma espécie de preconceito com a poesia de cordel, que é tratado por muitos como uma forma menor, mas não posso julgar, ainda mais que aquela tinha sido minha primeira experiência em escrever um cordel. Mas a minha dúvida surgiu antes mesmo de inscrever a poesia no concurso, se ele seria avaliado realmente, se a banca exigia somente as poesias mais tradicionais ou se um produto inspirado na cultura nordestina teria chance. A dúvida era aumentada pelo fato de não ver nenhum cordel entre finalista de nenhum concurso de poesia. Mas voltando ao concurso, naquele ano, fui finalista nas outras duas categorias com a crônica “Eu odeio Ethan Hawke” (ao contrário do que diz o título, eu não odeio o citado ator americano) e com o conto “Um conto em Paris”, sendo que esse também já foi postado aqui no blog. Por último, a UFF, aproveitando o ano do seu cinquentenário, em 2010 trouxe o tema “50 anos … e agora?”, onde poderíamos escrever sobre algo que se referisse ao período de 50 anos, mas que não obrigatoriamente seria sobre a UFF. Fui finalista com a crônica “O menino do Liceu”, que também já postei aqui. Mas curiosamente, dentre os textos enviados, esse foi o que eu achei que teria menos chance de figurar entre os finalistas. O meu favorito era o meu conto “Os diários de C.”, que na verdade seriam os diários de Capitu, talvez a mais famosa personagem machadiana, mas infelizmente ele não apareceu entre os finalistas.  Depois de reler o texto, vi que, como escrevi de forma corrida, sem sequer reler, que ele tinha alguns problemas, que não detectei na época. Fiz uma pequena revisão e o postei aqui, e logo depois de postado verifiquei outro probleminha e um amigo que o leu, o cearense Breno, e me ajudou com duas sugestões e também viu um outro errinho.  E aí, entre uma vírgula a mais, outra a menos, a falta de uma preposição aqui outra acolá, ontem reli o texto pela n-ésima vez e verifiquei a falta de um S (pasmem) NO TÍTULO. Bom, mesmo que na hora que eu enviei o texto eu ao menos tenha consertado o título, pelo jeito eu merecia mesmo não ser finalista.

Este ano o tema é “Viagem à Itália”.  Ainda não comecei a escrever, e até já tive ideia para mais de um conto e crônica, mas ainda não me decidi a iniciar e nem sequer qual delas usarei. Possivelmente não me aventurarei mais uma vez na poesia. Como diz o Benito, que conhece como eu escrevo,  não é motivo para eu  me desesperar, pois quando começo a escrever, o faço de forma seguida e rápida. Se fosse com ele sim, de repente até desistiria de se inscrever, já que é muito metódico e ainda tem características antigas, de escrever a lápis no papel e depois passar para o computador. Bem, mas não posso demorar tanto a começar, principalmente quando lembro do ano passado quando não tive tempo de rever nenhum dos três textos, todos eles feitos nos dois últimos dias, sendo que o conto e a poesia foram feitos em menos de 6 horas. Ah, esqueci de dizer: é até o dia 29 de agosto. Ou seja, faltam sete dias.

E o tema ainda é o Liceu

abril 30, 2011

Mudanças no Liceu

Calfilho

 

O tempo passou…

Minha época de liceísta estava lá atrás, quase esquecida, misturada às minhas novas preocupações da vida de adulto…

Passei dois anos praticamente fora de Niterói, depois que fui aprovado num concurso público e fui trabalhar no interior do Estado.

Foi duro para mim… largar minha praia, meu futebol, meus amigos conquistados depois de vários anos… Trabalhar em um ambiente diferente…

Enfim… o destino nos reserva algumas surpresas, uma delas foi essa…

Nunca mais entrei no meu colégio… Passava pela Amaral Peixoto, uma vez ou outra, só o olhava de longe… Como sempre, imponente, grandioso… Uma sensação estranha apertava meu peito… Via de longe, no ônibus ou no táxi, aquelas salas onde um dia estudei, onde em um outro matei aula, mas não conseguia divisar, de fora, as quadras, a de basquete ou de vôlei, onde dei meus primeiros passos no futebol…

Vi, quando o ônibus deu meia parada, diminuindo a marcha para um passageiro descer, a salinha do Grêmio, lá no fundo… que pena, agora, cercada de grades… Verinha não mais poderia pular a janela quando o diretor chegasse de surpresa e ela, como eu, estivéssemos matando aula…

Por que as grades? No nosso tempo, tudo era aberto, livre, até com um pouco de irresponsabilidade… Mas, cada um dizia o que queria dizer…

Não sei o que houve com o meu colégio…

Disseram-me, soube depois, que tentaram politizar o Liceu, inclusive o Grêmio, depois que dele saí… Tudo bem, a época era efervescente, 1961 em diante, pré- revolução…

Mas, enquanto lá estivemos, eu, Irapuam, Manequinho, Telúrio, João Bonvini, Joza, Cenira, Alber e tantos outros, jamais deixamos que a política partidária se infiltrasse em nossos objetivos, que eram esporte, divertimento, música, festas, coisas que o Grêmio se propunha a fazer e estava escrito em nossos estatutos (o de Verinha, que só tinha três artigos).

Infelizmente, soube que depois de nossa saída, o Grêmio se politizou e acabou sofrendo intervenção por parte de algum “revolucionário”. Disseram-me que, um deles, inclusive, fora ex-aluno do colégio e se tornara “revolucionário” para conseguir se eleger deputado. Soube, ainda, que uma das minhas colegas de sala, desde o primeiro ano ginasial até o último do científico, em 1959, fora presa pela “Redentora”, barbaramente torturada e assassinada, tudo em nome da “democracia”…

E, mais recentemente, soube por alguns membros de gerações posteriores do colégio, que as pistas de atletismo foram invadidas para construírem novos prédios, alguns até com finalidades diversas daquelas a que estávamos acostumados.

E, as várias reformas que foram feitas posteriormente, algumas sem nenhuma finalidade prática, acabaram por destruir aquilo que era o maior patrimônio do Liceu: a qualidade do ensino…

Por isso, em 1971, ao ver algumas meninas e alguns rapazes descendo a Amaral Peixoto, quando eu saía do Fórum de Niterói, eles envergando aquela camisa amarela do Grêmio, lembrei com saudade: esse é o meu Liceu. A camisa amarela e azul foi idéia do Grêmio, não da Secretaria de Educação… aliás, ela é até mais bonita que a antiga azul e branca do meu tempo de Liceu…

Introduzimos aquelas cores, amarelo ouro e azul escuro, em homenagem à seleção brasileira de 1958, que voltara campeã do mundo na Suécia.

Enfim, lembranças que foram ficando para trás, mas nunca esquecidas por mim.

Certa vez, quando era Promotor de Justiça em Niterói, no início dos anos 70, fui procurado por um diretor do Liceu da época, não me recordo o nome. Foi-me fazer um convite, como ex-aluno e atual autoridade pública, para fazer uma palestra no colégio sobre drogas. Recusei polidamente, pois sabia que não conseguiria passar das primeiras palavras ao me dirigir aos alunos da  nova geração liceísta. A emoção de rever aquelas salas onde estudei, aquelas quadras onde suava a camisa do uniforme, após “rachas” inesquecíveis, a salinha onde eu e Irapuam apresentávamos diariamente para os turnos da manhã e tarde, a “Hora do Grêmio”, os banheiros onde íamos fumar um cigarro escondido entre uma aula e outra, não me permitiria expressar com clareza o que pretenderia dizer. E, olha que, modestamente, era um bom orador, Promotor de Justiça acostumado aos debates no Tribunal do Júri, além de dar aulas para advogados em alguns cursinhos preparatórios para concursos da Defensoria, Promotoria ou Magistratura.

O Liceu me marcou profundamente. E, foi com satisfação, depois de entrar em contato pela internet com alguns liceístas de gerações posteriores, que soube que o colégio, depois de passar por sérias dificuldades, até com perigo de desabamento do teto, foi reformado, repintado e hoje continua bonito como era no meu tempo, imponente e majestoso, dominando como antigamente a Avenida Amaral Peixoto…

Pena que “seu” Azer, “seu” Borges, o professor Alber de Educação Física e todos os meus colegas que comigo desfrutaram daquela época maravilhosa não estejam mais lá…

Cabe a vocês, gerações após gerações, manterem viva a chama de amor ao colégio, como se fosse realmente nossa segunda casa e lutarem para que, cada vez mais, seja uma referência em qualidade de ensino em Niterói…

Manequinho do Liceu em duas crônicas

abril 12, 2011

Complementando a postagem anterior, hoje publicarei as duas crônicas citadas.  Primeiramente,  a de minha autoria, escrita em agosto de 2010 e em seguida a escrita pelo amigo Carlos Augusto Lopes Filho, o calf.

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O menino do Liceu

Carlos Benites de Azevedo

12 de dezembro de 2006, 10 horas, Igreja Porciúncula de Santana. Conferi o papel em que anotara o comunicado publicado na comunidade do Liceu Nilo Peçanha convidando para a cerimônia que celebrava os 50 anos de formatura da turma Ginasial de 1956 do famoso colégio niteroiense. Ingressei no Liceu 20 anos após aquela turma iniciar o Clássico ou Científico, que era o equivalente ao atual Ensino Médio. Só a forte ligação que sempre tive com o colégio me fazia ir a uma cerimônia em que não conhecia nenhum dos presentes. Chegando lá, fiquei a observar aqueles jovens senhores, tentando imaginar que vida teria levado cada um deles após deixarem o Liceu. Minha timidez fez com que ninguém soubesse de minha presença.  Nos dias seguintes, vários daqueles agora já vovôs e vovós tomaram de assalto a internet e passaram a comentar sobre o encontro na  Igreja e os causos da época em que estudaram, com uma memória prodigiosa com relação a nomes e fatos. E como escreve bem aquela turma! A cada relato eu ia conhecendo mais sobre eles, e passei a me aproximar com alguns pitacos na conversa. Foi aí que conheci a Nelma, que se emociona sempre que volta ao colégio; Verinha, advogada, porta-bandeira do Colégio nos desfiles na Avenida Amaral Peixoto e rainha do Grêmio, que quando volta a Niterói tem que beber um Mineirinho; Carlinhos, autor de vários contos sobre o Liceu contidos num livro a mim presenteado recentemente; Yara que acompanhou de longe, mas bem próxima pelos laços da internet, a Copa Libertadores de 2008 e ainda Pedrita, Silvio e tantos outros. Ainda tinha minha tia Lecy, que acabei descobrindo que estudara junto com alguns deles. Era a época dos discos de 78 rotações que eram tocados pela turma do Grêmio, onde se ouvia Elvis, Neil Sedaka e The Platters. Porém, a figura que mais me marcou, e possivelmente a todos daquela turma, não estava ali presente.  Manequinho do Liceu, era como ele era chamado. Aliás, Liceu era praticamente um sobrenome de todos ali. Era sempre Fulano de Tal, DO LICEU. O Manequinho estudara antes no Figueiredo Costa, colégio de grande fama, e relutara bastante em ir para o Liceu, mas um primo insistiu tanto que ele acabou  aceitando o desafio, pois o colégio tinha fama de ser mais rigoroso ainda do que o Figueiredo Costa. Assim, ao contrário da maioria que entrava no primeiro ano do Ginasial, ele ingressou no primeiro ano do Científico. Relutou, mas quando entrou, era o mais liceísta de todos. Como uma das meninas me falou, ele parecia aquele que Deus olhou e disse: “Desce lá e arrebenta!”.  Sua beleza era ressaltada até pelos rapazes. Claro que seu talento para o futebol e entusiasmo pelo esporte e música o ajudaram a se destacar, mas seu senso de companheirismo, de congraçamento e de justiça era tão visível que logo ele estava no Grêmio.  Queria participar de tudo.  Se os amigos de Grêmio se doavam 90%, ele era 100%; se os outros conseguiam os 100%, ele arrumava um jeito para chegar a 110%, e fazia tudo sorrindo, como se não fosse nada demais. Os amigos diziam: “você está marcado para grandes feitos!”

No meio dos relatos, eu montava mentalmente cada cena em que o Manequinho se encontrava, o que era facilitado pela profusão de narrativas sobre o mesmo. Quando a memória falhava para o Carlinhos, vinha outro e emendava a continuação. Assim, conseguia enxergá-lo nas viagens, competições esportivas, as reuniões do Grêmio, os embates com o diretor para que permitisse uma atividade não prevista, ou mesmo para defender alunos injustiçados. Mas o tempo ia passando e, como ele era o caçula da turma, alguns amigos saíram do Liceu antes dele. Começou a sentir falta dos amigos já no dia da formatura. Quando o viram chorando no discurso do Professor Baltazar, muitos perguntaram se ele estava emocionado pelas palavras em latim ditas pelo professor. Respondeu com um palavrão e confessou que estava já com saudades deles. Mas um deles, o Carlinhos, mesmo aprovado para a Faculdade de Direito da recém criada Universidade Federal Fluminense, não conseguiu se afastar e arrumou um jeito de permanecer no Grêmio e participar de tudo por mais um ano. Assim, Manequinho ainda tinha o bom companheiro de aventuras, que ultrapassavam os muros do colégio. Mas ele já começou a se preparar, do que faria no pós-Liceu. Diziam que os liceístas tinham duas opções: ou ingressavam nas melhores universidades ou seguiam a carreira militar.  Muitos se assustaram quando souberam que Manequinho se alistara numa unidade do Exército. Diziam que ele não tinha o perfil, que estranharia toda aquela disciplina. Ele só sorria, parecia que não se preocupava com o futuro. Disse então que ele provocaria uma revolução no Exército. “Como você vai abandonar esse topete de Elvis?”, diziam os amigos. “Pois essa vai ser a minha primeira revolução, e em breve todos lá usarão um topetão.” Os relatos que eu ouvia sobre ele diminuíam a partir de seu alistamento, e isso para mim era lógico, pois cada um foi seguindo o seu caminho.. Mas as cenas continuavam a ser montadas por mim. Eu o via claramente. Veio o golpe de 1964. Numa reunião quase clandestina de ex-liceístas, já que reuniões com estudantes não eram muito bem-vistas na época, surgiu a notícia de que dois colegas tinham sido presos, acusados de subversão. Lembraram então que o Manequinho estava no Exército e decidiram pedir sua ajuda. Foram a sua casa no Bairro de Fátima (coincidentemente, próximo de onde eu morei) e lhe mostraram o quadro. Ele ficou de procurar pelos antigos companheiros de Grêmio e que faria o máximo para ajudá-los.  E ajudou-os. Usando o seu poder de convencimento, encontrou um oficial bem graduado que tinha uma posição mais moderada do que a que reinava e os amigos puderam voltar para suas casas. Confrontado pelos amigos pela situação, da qual ele acabava fazendo parte, ele dizia que infelizmente não podia ajudar muitos outros, como os amigos do Grêmio, e que ficava triste com isso. “Eu sou um só”.  Em 1968, o Brasil vivia um momento de grande agitação política, e mais uma vez surge em cena o Manequinho. Houve uma ordem, partida de um militar bem graduado, de que um atentado contra um conglomerado industrial público no Rio de Janeiro fosse impetrado por membros da Aeronáutica e do Exército, com o objetivo de culpabilizar grupos clandestinos de oposição ao regime. Dois militares se insurgiram à ordem, pois não queriam sangue em suas mãos, e ameaçaram tornar pública a história. Um deles era um Capitão da Aeronáutica. O outro era Manequinho. Foram presos por isso, e posteriormente expulsos de suas armas, sendo ameaçados para não contarem nada. Mas ao menos eles conseguiram que a ordem fosse cancelada. Veio a Anistia em 1979, e nada de notícias sobre Manequinho, até que durante a tragédia das chuvas em Niterói em 2010, eu o vejo chorando a morte de algumas crianças. Com a indenização que recebera, pela injustiça que sofrera, Manequinho construiu um centro esportivo para receber jovens carentes, dentre eles, estavam duas crianças do Morro do Bumba.

Infelizmente, o Manequinho não esteve presente nas cenas narradas após maio de 1962. Já no Exército, ele adoecera seriamente e uma leucemia o impediu de realizar os grandes feitos para os quais estava destinado. Talvez não aqueles que apareceram nas cenas montadas por mim, mas certamente tão grandiosas quanto. Me fez lembrar o personagem Nemecsek do livro Os meninos da rua Paulo, que era franzino mas que  acabou tornando-se um herói. Os últimos relatos sobre ele mostravam a Verinha chegando chorando na casa do Carlinhos para lhe dar a triste notícia:

– Morreu, Carlinhos. Ele morreu …

(escrita em agosto/2010 e finalista do Prêmio UFF de Literatura de 2010, e presente na Coletânea do referido concurso, publicada pela EdUFF)

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Reencarnação

Calfilho

Muita gente acha que isso não existe, que é fantasia, que o corpo é só matéria e depois tudo se vai…

Comecei a indagar–me se isso era verdade…

E, agora, quando reli a crônica que o Benites escreveu sobre o Manequinho, as dúvidas voltaram…

Praticamente, mais de meio século depois dos fatos terem ocorrido, ele escreve uma breve estória que não viveu… Ele, que estudou no Liceu vinte anos depois de nós… Mas, sua versão me parece tão atual, que parece que estou revendo aquelas mesmas salas, aquele pátio, aqueles mesmos sorrisos na hora do recreio, os discos de 78 tocando na vitrola improvisada…

Ele, por telefone, disse-me que modificaram muito aquele cenário antigo. Agora, tem até um tal de CELEMO, que não sei o que é, construído na nossa pista de atletismo… Pena de “seu” Azer, que não poderia mais treinar a bateria na pista para os desfiles do azul e branco na Amaral Peixoto.

Enfim, ele não conheceu Manequinho pessoalmente… Mas, pelos relatos que lhe foram passados, sabe talvez mais dele do que eu… Ele, Luiz Carlos Maciel Vieira, Deus apontou com o dedo e disse assim “Vai lá e arrebenta… Mas, volta logo, que você faz falta aqui em cima”. (A frase, de rara felicidade, é da nossa contemporânea Yara, que hoje reside em Curitiba. Eu, apenas, dei um pequeno retoque, acrescentando o último parágrafo).

E, talvez, ele tenha voltado mesmo, depois que descobri o Orkut, o Benites, até a Nelma, que não conheci pessoalmente naquele tempo, mas, que tive o prazer de rever depois de tanto tempo.

Voltado, numa versão mais atual do Liceu, por lembranças que não se podem perder nunca…

Manequinho era meu amigo… Dei-lhe muitos esporros quando não me passava a bola no futebol de salão do Liceu… ele somente abaixava a cabeça e dizia, humildemente:

— Não deu… Na próxima eu te passo…

Mas, curtimos, com bastante intensidade, com muita alegria e despreocupação com a vida, aquela fase liceísta…

Deixou-nos em abril de 1962, mas a crônica do Benites parece mostrar que ele permanece entre nós…

Será se ele voltou mesmo?

Mais uma vez, o Liceu

abril 9, 2011

No ano passado escrevi de forma meio despretensiosa, após uma sugestão de um amigo, uma crônica que falava sobre o Liceu, colégio onde estudei no Ensino Médio, e que muito me marcou. Era para o Concurso Literário da UFF de 2010, que tinha como tema “50 anos … e agora?”, ou algo parecido. Não precisava falar sobre os 50 anos da UFF, mas sobre algo que envolvesse o período de 50 anos.  Aproveitei um evento que alguns ex-liceístas que estudaram bem antes de mim, em comemoração aos 50 anos de formatura, e junto falei sobre um personagem que era muito falado por alguns amigos que ganhei dessa turma e que não está mais entre nós, cujo nome não me recordo (foi dito uma vez numa mensagem no orkut por um primo seu), mas que era conhecido como Maneco, ou Manequinho, do Liceu.

Sinceramente, não achava que conseguiria ser um dos finalistas do Concurso, pois escrevi o texto em uma tacada só, em poucas horas, quando já se encerrava o prazo para a entrega dos textos. Nem revisei. Mas acabei sendo um dos finalistas.

Mostrei a crônica para todos os personagens que foram citados e para mais alguns que se interessaram em lê-lo.  Um dos últimos que receberam o texto acabou sendo o Carlinhos, um botafoguense que assina seus textos como Calf, e com o qual venho mantendo contato desde 2006, quando descobri na internet um texto de sua autoria fazendo uma narrativa de todo o período em que ele estudou no Liceu, com uma precisão incrível, que cheguei a achar que ele tinha anotado todos aqueles nomes e fatos em algum diário.  Depois desse texto, ele me mostrou outros textos e posteriormente publicou um livro com aqueles e outros contos, todos com o Liceu como tema de fundo.

Após ler minha crônica, no mesmo dia o Carlinhos e eu trocamos algumas mensagens por e-mail, sempre com ele citando mais um ou outro fato que falava sobre o personagem principal da crônica.  Eu havia usado todas aquelas cenas descritas pelas memórias incríveis daqueles jovens senhores e praticamente me coloquei como se estivesse lá junto a eles, presenciado tudo que envolvia o Manequinho.  Quando achava que o assunto tinha morrido, no dia seguinte olho minha caixa de mensagens de um e-mail que nem tenho o costume de abrir todo dia, e vejo uma breve mensagem do Carlinhos, falando que depois de ler o meu texto outra vez, ele ficou a pensar e acabou por escrever outro texto, que não só comentava meu texto, como mais uma vez falava sobre o Manequinho, e mandou-me a pequena crônica em anexo.

Problemas de incompatibilidade tecnológica (meu Word onde estava não era da mesma versão do arquivo enviado), me fizeram não lê-lo imediatamente. Quando eu o li, me emocionei muito mais do que qualquer outro texto que falava sobre o Liceu ou qualquer um de seus personagens. Pedi autorização ao Carlinhos para postá-lo aqui no blog, mas ele me pediu que primeiro fizesse umas pequenas correções para que eu o postasse. Além do mais, nem no seu site ele o postara.

Em breve, postarei a minha crônica, e logo depois o texto do Carlinhos.

Os ex-liceístas irão gostar. Espero que os não-liceístas também gostem.

A polêmica do Prêmio Jabuti

março 11, 2011
Um crítico literário dizia que a literatura é uma beleza, mas a vida
literária uma merda. Não sei se ele empregou o último termo, mas o
sentido seria o mesmo.
Isso vem a propósito da recente polêmica envolvendo os livros Leite
derramado, de Chico Buarque e Se eu fechar os olhos agora, de Ednei
Silvestre. A polêmica se deveu ao fato de o último romance ter obtido
o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2009, mas não ter levado o prêmio
de melhor livro de ficção do ano. Tal prêmio coube ao primeiro romance,
apesar de ter ficado em 2º lugar como melhor romance de 2009. O que
pode parecer uma contradição se explica facilmente. É que na escolha
de melhor romance o júri é composto apenas de críticos literários, ao
passo que na escolha do melhor livro de ficção o júri é ampliado,
integrado por editores, livreiros, agentes, distribuidores, etc.
Se os critérios não são justos, que se mude o regulamento. O dono da
Record achou-se no direito de espernear, conquanto saiba que as regras
são essas desde que o prêmio foi instituído. Por outro lado, o dono da
Companhia das Letras, em lugar de simplesmente responder com as
diferenças de composição dos respectivos júris, foi buscar argumentos
impertinentes, mencionando que a contestação reproduzia o baixo nível
da história política recente, etc.
Seria mais proveitoso para os leitores que a discussão se resumisse
aos romances em si. Não que faça pouco do valor dos prêmios. Eles
constituem o sistema literário, são um estímulo aos escritores,
funcionam como uma espécie de bússola para os leitores, movimentam o
mercado de livros, etc. Mas quando argumentos tão toscos são
esgrimidos, é de se lamentar.

(texto enviado por Benito Petraglia, em 11/03/2011) 

Aguardando Mr. Petraglia

fevereiro 12, 2011

Há duas semanas mais ou menos eu postei aqui que teria a colaboração de meu amigo Benito Petraglia, doutorando em Letras na UFF, com algumas postagens envolvendo o mundo literário.  Benito devia ser um personagem machadiano, pois muitas vezes o vejo em alguns dos contos ou romances do Machado. Curiosamente seu trabalho de tese envolve Esaú e Jacó. Pois então, ele havia me dito que toparia participar e que me mandaria de semana em semana alguma coisa que pudesse publicar.  Fiquei preocupado pois ele não tinha me mandado nada ainda.  Acabei descobrindo que o motivo para a demora é o calor terrível que tem feito nas últimas semanas. Como disse, ele é como um personagem machadiano, e mantém o computador em apartamento diferente de onde vive, daí é um sacrifício enorme sair de casa.  E olha que o apartamento dele é um forno.

Bem, só nos resta aguardar..

A menina que vendia livros – ou a menina (da) Travessa

janeiro 21, 2011

Outro dia, proseava com um amigo e uma amiga sobre coisas corriqueiras e, conversa vai, conversa vem, essa amiga nos perguntou o que achávamos de algumas mulheres em termos de charme, beleza etc. Começamos a concordar sobre umas e discordar sobre outras. Algumas vezes eu tinha a mesma opinião de minha amiga e outras de meu amigo, mas em nenhuma das vezes houve opinião unânime entre os três. E o assunto morreu ali.

Dias depois, eu e meu amigo voltamos ao mesmo tema, em função de uma discordância quanto a uma mulher específica. Não há necessidade de dizer nomes, que os minguados leitores provavelmente não conhecerão, portanto, de nada valerá a curiosidade.  Além disso, no caso de conhecerem, poderemos criar um desnecessário desconforto.

Da moça citada, passamos para famosas, e o rumo do bate-papo mostrava que gosto cada um tem o seu. Porém concordamos que nem sempre aquela beleza ampla e publicamente cultuada era a que nos atraía.

Aí o amigo, para dar mais realidade à nossa teoria, citou uma famosa desconhecida, que trabalha na Livraria Travessa da Sete de Setembro. Disse maravilhas sobre tal mulher. Esculpi sua imagem em minha mente e na semana seguinte, quando estive no Centro do Rio e já me dirigia para voltar à Cidade Sorriso, lembrei da belezura da Travessa e mudei o trajeto.

Chegando lá, passei os olhos em todos os cantos, todas as vendedoras, no café, na porta entreaberta do escritório, das moças que saíam para o almoço, nos balcões de pagamento e recebimento dos livros e … nada.  Devo ter ficado lá mais de uma hora, mas alguma coisa me dizia que ou não tinha olhado com os mesmos olhos que meu amigo teve, ou então não procurei direito.  Foi realmente frustrante, mesmo sabendo que fui apenas para contemplar aquela famosa desconhecida, que continuou desconhecida.

Isso significa que  terei que voltar lá, mas dessa vez levarei meu amigo.

No elevador

janeiro 19, 2011

Hoje terei a colaboração de um grande amigo, Benito Petraglia, doutorando em Letras da UFF que, segundo me disse, passará a participar mais vezes desse espaço como responsável por alguns textos que aqui serão postados.  O primeiro texto é o conto abaixo, que posteriormente sofreu pequenas modificações para se adaptar às exigências do I Concurso Literário da UFF, realizado em 2007 e cujo tema foi “Aconteceu na UFF”, sendo então premiado em 2º lugar.

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NO ELEVADOR

Benito Petraglia

Agora, neste preciso momento, duas pessoas correm para o elevador. O elevador está vazio, prestes a fechar as portas. A mulher vai na frente, o homem viu da entrada do edifício o elevador vazio e correu também. Não sei o nome deles. A verdade é que não me preparei para contar essa história. Ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto. Dizem que as historias valem por isso. Contá-las, e contá-las, e contá-las teria o mesmo efeito de uma vacina que dessensibiliza a angústia  sempre na iminência de aflorar à pele. Eu, de minha parte, vejo essas idéias com suspeitas. Literatura não é instrumento, nem apêndice, nem estudo ancilar. Muito menos o escritor pode ser subsumido em qualquer outra categoria profissional, no caso aqui a de bombeiro ou de médico. Vocês podem achar contradição nessas palavras: se “ela me colheu, me requisitou com a urgência de um incêndio que precisava ser extinto” é porque há razões íntimas, motivações profundas que me incitam a escrevê-la, uma angústia também me acossou e eu preciso me livrar dela. Não, meus amigos, a angústia que me acossou e me acossa é a angústia do momento, o momento é este, nem antes nem depois, é já seu usufruto, antes que minha história se esfume. Grosso modo, a natureza da inspiração que me avassalou corresponde àquela descrita por Guimarães Rosa no quarto prefácio a Tutaméia, em relação ao conto “A terceira margem do rio”: veio-me “pronta e brusca”. A imagem, entretanto, não é bem a de uma “bola vindo ao gol e eu o goleiro”, mas a de um seio vindo em direção a uma boca. Parei tudo para me dedicar a ela. Deixei de lado um conto quase findo, detive um poema muito lírico, atalhei uma prosa feita com critério. Mudei até de estilo para me entregar a ela, ou melhor, foi ela que me fez mudar de estilo. O que era sacrifício e dor transformou-se num fluxo fácil de palavras. Elas correm com tamanha volúpia ao meu encontro que não posso me mexer daqui. Sinto que vou exauri-la numa assentada, tal a premência desse turbilhão, tal a força que me impele sem descanso, sem descanso de posicionar um parágrafo. Não se preocupem com meus personagens, eles estão lá congelados, soltos num mesmo plano do espaço, pois o homem avançou, já está no saguão do edifício, a mulher ainda na frente, o elevador vazio. Não é de bom tom interromper a narrativa e ficar explicando, a explicação mata a ilusão realista de que se nutre o leitor. Não lhe interessa se esgueirar sob estacas e andaimes, o pó caindo sobre sua cabeça, ele quer passear pela varanda, ter a visão panorâmica da Baía de Guanabara. Necessita do acontecimento livre de arcabouços fluindo diante de seus olhos. Mas como disse, a história me colheu, não me preparei e ela me vem desse jeito, desorganizada, aos trambolhões. Nem posso afirmar que haja nela acontecimento. Minha fixação é com o instante, com uma cronologia parada. É como se um rio manasse entre margens imóveis ou a chuva deslizasse pelo vidro da janela e eu escolhesse as margens e a janela. Não, não, as analogias são impróprias, não lidam com viventes, mas com matéria inânime, e cronologia parada é um contrassenso, um paradoxo que precisa ser corrigido. Em realidade, são dois relógios distintos. É como se eu colocasse um pescador em uma das margens ou enfiasse uma mulher atrás da janela. Agora sim, agora há um tempo para o rio que mana e um  tempo para o homem pescando, um tempo para a chuva que canta e um tempo para a mulher cismando. Não é minha intenção vesti-la de condicionamentos ou contextos. Minha narrativa virá nua de fatos prévios. Não carece de roupa  para se apresentar, porque para o instante não importa se o homem é casado e tem dois filhos, se a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Ou talvez importe? Percebo já que para a economia da história, para o efeito visado, talvez importe; talvez importe, sim, para erigir o súbito à posição soberana, supri-lo de doses a mais de sortilégio. O homem é casado e tem dois filhos, a mulher vive maritalmente e não tem filhos. Basta isso, não me peçam mais. Não me peçam para mergulhar de vez na incoerência. É esse o risco de quem se inebria no gozo orgiástico da musa dionisíaca. É certo que Borges, no transcurso de um conto, simplesmente declarou-se incapaz de continuá-lo; porque não acreditava nos personagens, abortou-o  abruptamente. Tem-se de admitir, me diz o leitor, que as histórias, via de regra, não acabam assim, quem ouve espera que elas tenham começo, meio e fim, é preciso um mínimo de compostura, toda criatura que merece a luz da ficção deve-se mostrar inteira. Não necessariamente, depende dos desígnios do autor e da conveniência do relato. Aqui, por exemplo, se a mulher, sem razão conhecida, atira no homem dentro do elevador e sai com toda a tranqüilidade no 23º andar para o consultório do dentista, ou se o homem, também sem razão conhecida, estrangula a mulher dentro do elevador e sai no 23º andar para o escritório do advogado – para mim, para os fins do comércio entre homem e mulher, é suficiente que o homem seja casado e tenha dois filhos e a mulher viva maritalmente e não tenha filhos. Se a vida é atravessada por lacunas, silenciada por segredos que se guardam para sempre, por que fazer da ficção uma decifradora de enigmas? Já é hora de movimentar os personagens, antes que minha língua imprudente acabe por precipitar toda trama. Os corpos vencem a inércia, ganham animação, a mulher entra no elevador, aperta o botão 23, o homem chega logo atrás, esbaforido, esbarra levemente na mulher, vê o botão aceso, dá um meio sorriso e fica de lado. Eles se ajeitam no espaço estreito e espelhado, procuram uma posição no ambiente fechado. Eis que agora, neste exato instante, enquanto se ajeitam e se posicionam, um olhar encontra o outro, não um olhar que logo se desvia, mas um que permanece, não um que se mira no remansado lago de Ricardo Reis, mas um que se perde nos perigos e abismos do mar português. Nunca é neutro o olhar entre homem e mulher, ele vem carregado de crimes e vícios, envolto em feitiço que remonta à origem dos tempos. Ninguém pode se atrever a discernir as conseqüências de um tal olhar, o gozo que se preliba a partir de um tal olhar, as carícias da minha pele na sua pele, o calor do seu corpo junto ao meu, minhas mãos palmeando passo a passo, a língua vindo atrás nos mesmos rastros, meus lábios nos seus lábios saciando a sede e a fome do desejo, seu sexo na minha boca minha boca no seu sexo, meu sexo no seu sexo, seus ais se somando aos meus no mesmo orgasmo, no mesmo espasmo nossos gritos no infinito se espraiando, você meu mundo sem minuto de marcar, furto do amor no tempo do relógio… Não sei de atos ou intenções, quem diz ou pensa; ou quanto dura enquanto o elevador sobe. O que sei é que as portas se abrem, a mulher sai primeiro, dobra à direita e vai para o consultório do dentista, o homem dobra à esquerda e vai para o escritório do advogado.

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Um conto em Paris

janeiro 5, 2011

Um Conto em Paris

O sol ainda batia naquele dia quente de Verão quando Seu Fabiano maldizia o Governo, que tinha inventado que 6 da tarde passava a ser 7 horas bastando assinar um papel. Em frente da casa, olhava a parte baixa do Morro, aguardando os amigos que o visitavam todos os dias naquele mesmo horário. Fabiano pensava de quando veio para o Rio, escapando de mais uma longa seca, com Sinhá Vitória e seus dois filhos que conseguiram se salvar do sofrimento, da fome e doenças no Sertão.  Mas os filhos não tiveram a mesma sorte no Rio. O filho mais velho morreu vítima da polícia, que o confundiu com um ladrão. O mais novo morreu pelos bandidos que imaginaram que ele fosse informante da Polícia. Pensava também no milagre que o Rio fez ao transformá-lo num grande proseador, depois de ser por anos de viagens tentando procurar por uma vida melhor para ele e os filhos, sempre com poucas palavras. Parou de pensar quando os amigos chegaram. Na sala pequena estavam acocorados o amolador de facas Seu Honório, que já cochichava ao ouvido da mãe-de-santo Dona Fortunata sobre um trabalho encomendado. Dona Sacha, uma senhora de apartamento, como Fabiano costumava dizer, sentava-se sobre uma lata que fazia as vezes de cadeira, e encarava Seu Ezequiel, um negro velho, ex-mendigo de rua, que morava com Seu Fabiano e a Sinhá há cinco anos, e que estava de pé. Dona Vitória iniciou o falatório:

– Paizinho, por que você não conta de quando você foi intimado a ir a tal de Paris atrás daquele alemão de bigode fino que mandava matar judeu?

– Seu Honório, a palavra de Vitória para mim é uma ordem, é o próprio Evangelho. Concorda comigo, Seu Ezequiel, Dona Sacha e Dona Fortunata?

– Somos todos ouvidos, Major – disse o mendigo apoiado pelas duas senhoras.

– Saberão vossemecês que esse caso estava meio esquecido no meu quengo. Mas Vitória tem o mau costume de sapecar essas lembranças em cima da gente de supetão. Tudo começou quando algumas estripulias minhas de quando vivia no sertão, foram parar nos ouvidos de um doutorzinho que foi prefeito nas Alagoas, Dr. Graciliano, e que era metido que só ele a escrever bonito de coisas sobre o sertão de Deus. Pois não é que o tal doutor decidiu pegar minhas histórias e colocar em letra de forma em alguns folhetos nas feiras do povaréu? Pois acreditem. E as histórias começaram a correr pelas cidades grandes. E esses moços de letras procedem desse jeito, cheios de floreios, estiram o negócio, inventam, pois precisam encher papel. Quando me mostraram o folheto, descobri que o doutorzinho me deu nome de Alexandre, e Sinhá Vitória passou a ser Cesária. Veja só que absurdo, Dona Sacha. Tempos depois, um artista da televisão também mangou comigo, me mostrando como um mentiroso de nome Pantaleão. E logo eu que detesto exageros. Não reclamo que falem sobre mim, mas quero que digam só o que eu fiz. Se alguma vez vossemecês ouvirem falar de minhas histórias em cantorias ou em folhetos, saibam que as nove-horas são astúcias do poeta.  Imaginem que ele escreveu que num certo dia eu estava numa canoa que afundava e, para salvar minha pele e das beatas lá presentes, fiz outro furo para que a água saísse por ele. Não digo que isso eu não faria, mas por que não contar o certo, que eu me joguei no São Francisco, amarrei uma corda na canoa e nadei até a outra margem puxei a bicha? Mas não, ele gosta dos despotismos. Seu Ezequiel está aí coçando a barba por falta de banho ou quer falar alguma coisa? Fala logo, homem de Deus!

– Já que o senhor insiste… O senhor devia ser muito forte para nadar e …

– Seu Ezequiel está duvidando de minha palavra? Se estiver, desembucha e eu paro aqui mesmo, pois não gosto que desconfiem de mim. Do contrário, continuo.

Como o negro calou-se, Seu Fabiano prosseguiu.

– Mas saiba o senhor que eu até mostraria a corda que eu usei. Isso se Vitória não a tivesse usado para secar as roupas e de tanto uso se finou. A Sinhá está aí para confirmar o que eu disse, pois ela estava do outro lado do rio, rezando para o Padre Cícero – e a mulher confirma com a cabeça. Mas me deixem continuar, pois se depender do Seu Ezequiel eu nunca chego a tal Paris. E nesse sucesso dos folhetos, um doutor general lá dos estrangeiros também ficou sabendo, e estava encacholando uma idéia de vencer a Guerra. Vocês devem se lembrar dessa guerra, vinha japonês voando raso e se jogava sobre os navios americanos. Vi uma vez no cinema. Um alemãozinho que tinha muito orgulho de seu bigode, invadiu a tal Paris e mais outros países da Europa. Dizem que o povo dessa Paris não gosta de banho. Vejam vossemecês, a gente do sertão andava mais de dez léguas para encontrar um bocadinho de água e a gringalhada cheia de perfume não era chegada. O plano do doutor americano era de mandar os seus meganhas prenderem o bigodudo, mas o diacho do homem era escorregadio que nem cobra, tinhoso que só ele. Desse jeito eles espalharam o boato que mandariam 10.000 navios lá na praia de Normandia e achavam que assim o alemão iria correndo para Paris que era ali pertinho, e de lá comandar seus homens. Claro que 10.000 navios era um exagero digno daquele prefeito. Eles mandaram só dois navios bem pequenos. Entendem? Era só um disfarce. E não é que o tal gringo estava certo? Os alemães foram quase todos para aquela praia. Mas prender o alemão era difícil. O gringo leu no folheto do prefeito uma história cheia de exageros, que dizia que eu havia acertado a orelha e o pé de um veado com um só tiro. Uma invencionice dos diachos. E eu vou ter que esclarecer essa história para depois continuar com a história de Paris. O que ocorreu foi que uma mosca perturbava as vacas da fazenda. As vacas ficaram agitadas, e quis matar a varejeira. A danada fugiu lá pro morro. Eu que morro de raiva desses bichos nojentos, que teimavam de posar sobre a carne das vacas do sertão, peguei minha espingarda e tasquei-lhe um tirambaço. Azar do veado que a mosca tinha resolvido posar justamente na sua orelha.  Vitória foi quem tratou do veado, que infelizmente acabou finando e depois parou no nosso bucho. Mas antes que Seu Ezequiel venha com perguntas inconvenientes, eu prossigo. Por culpa do tal Graciliano, o gringo acreditou que eu podia atirar no alemãozinho em Paris lá do meio do mar. O plano dos gringos era esperar que eu o acertasse para depois libertar a cidade.

– Seu Fabiano, o senhor sabe falar estrangeiro?

– Saber não sei mais, mas na época eu sabia. Deram-me um livreto para aprender a língua enquanto eu viajava das Alagoas até a Europa. Aprendi, conversei com eles, e depois desaprendi. Para que eu haveria de continuar sabendo se lá no sertão e aqui no morro só tem ignorante que nem sabe falar brasileiro? Mas aí o extraordinário aconteceu. Eu ouvia uma voz em língua gringa de alguém me chamando. Olhei e vi um papagaio muito falador, que falava estrangeiro. Disseram que era de um pirata e que depois passou a pertencer ao navio do americano. Assustei-me, pois só conhecia dois papagaios assim, mas que já haviam morrido. O bicho disse que era primo de um papagaio brasileiro, mas que decidiu voar pelo mundo e chegou ao navio do pirata. Disse ainda que o tal pirata tinha lhe dado um tesouro que não era para contar aos gringos, mas que resolvera contar para mim porque viu que eu era homem de moral. O tesouro era uns óculos que faziam enxergar muito distante. Eu tinha uma vista normal, mas o máximo que conseguia era acertar num passarinho que posasse lá nos braços do Cristo – e apontou para o Corcovado, e todos o olharam com admiração – Agora, o que o gringo queria era um despropósito, um despotismo sem tamanho. Acertar o alemão lá do mar? Mas os óculos estavam ali para me ajudar. Pensei em tudo. Era de manhã quando estava a algumas léguas da tal Paris. Coloquei os óculos, vi a foto do alemão e comecei a olhar para lá. No meio de uns soldados, perto de um monumento em forma de arco eu o avisto. Peguei minha espingarda lazarina, limpei o cano por dentro e mudei a espoleta que já estava velha. Ele estava num uniforme preto. Fiquei esperando o danado se virar. Não queria feri-lo para machucar, pois sou de paz, só queria desmoralizá-lo. Ouvi um dia a história de um cabra que tinha as forças nos cabelos. E como o alemão era muito apegado ao bigode, percebi que estava ali sua força. Fiz pontaria, puxei o gatilho e PUM. Só que na hora passou uma borboleta que fez o alemão virar o rosto e acabei raspando só o lado direito do bigode. Aquilo o assustou, mas o danado conseguiu se esconder. Só que o tiro foi o suficiente pra que os alemães se assustassem. Aproveitei a confusão e mandei o navio se aproximar. Depois, pedi uma canoa e fui remando sozinho o resto da manhã. Cheguei de tarde lá naquele Arco onde tinha visto o alemão. Deram depois o nome de Arco do Triunfo, pois fora ali que comecei a triunfar. Comecei a caçar o meio-bigodudo. Tinha que terminar o serviço para ele ficar desmoralizado perante os seus soldados. Comecei a olhar por toda cidade. Tinha ouvido falar de uma Bastilha, mas não a encontrei. Disseram-me que ele poderia estar numa tal de Catedral de Notre Dame, onde tinha vivido um corcunda, mas nada do bigodudo lá. Já era noite, quando resolvi subir no alto da catedral. De repente avisto uma enorme torre de ferro em formato de triângulo. Nunca tinha visto tanto ferro assim. Um despotismo que daria para fazer ferraduras para todos os cavalos do sertão e ainda sobrava. Era tão grande que se a cravassem no pé deste morro, esta casa não estaria nem na metade. No alto da torre estava o alemão, mas com o bigode inteiro. Aquilo me encafifou. Peguei então os óculos, e vi que o outro lado era tinta. Minha tarefa era tirar o outro lado do bigode, mas ainda restaria o lado pintado. De repente, achei a solução. Apontei e PUM. A bala raspou o bigode que restava. Depois vi o rosto do alemão igual ao de um neném. Seu Ezequiel está aí doido para perguntar sobre o bigode feito de tinta? Chovia, e a bala pegou a primeira gota, que seguiu e pegou outras no caminho. Quando a bala chegou no alemão, levava mais de meio litro d´água, que lavou o bigode de tinta. Sem bigode, ele perdeu o respeito dos oficiais, que resolveram se render. Bem, essa é a história verdadeira. As que contam nos livros são invencionices do povo do estrangeiro. Não é isso mesmo, Vitória?

Carlos Benites, agosto de 2009

Texto finalista no III Prêmio UFF de Literatura